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22/08/2014

CASE STUDY: o cobrador do fraque vem a caminho (III)

Pouco dias depois de se confirmar estar prestes a consumar-se a OPA da Espírito Santo Saúde, participada pela RioForte do GES, pelos mexicanos do Grupo Empresarial Ángeles tornou-se pública a compra pelo Fundo Apollo da Tranquilidade, a seguradora não Vida do GES. É caso para dizer que vão-se os dedos e ficam os anéis de ouro falso dos Espírito Santo.

A um amigo que me deu a notícia quase de madrugada, surpreendido pelo baixo valor (50 milhões) que indiciaria a descoberta de muitos cadáveres, respondi-lhe que o número de cadáveres depende de quem os conta.

Se a contagem foi o próprio GES, a Tranquilidade seria um cemitério visto que o ESFG a deu de garantia ao BES por 700 milhões, valor que, nem mesmo dando de barato que os resultados dos dois últimos anos (18 e 19 milhões) não estava maquilhados, seria sempre um valor de estimação – como o valor do relógio de parede do meu avô que não valia um chavo mas ele insistiu em deixar-me de herança.

Se foi a Apollo, será só preciso contar um cadáver - o papel comercial da RioTinto (ou outra qualquer das falidas do GES) que, salvo erro, estava no balanço por 150 milhões e vale zero. Abatendo os 150 milhões à avaliação inicial do Apollo de 200 milhões ficamos com os 50 milhões – talvez um bom negócio para todos.

E poderá ser um bom negócio porque se avaliarmos a Tranquilidade pelo método dos múltiplos os 200 milhões avaliados pelo Apollo corresponderiam a um múltiplo de 0,625 (200/320), o que nos tempos que correm e no país em que estamos não estaria mal. Se avaliarmos a Tranquilidade pelo discounted cash flow e começarmos por descontar uns 50% nos lucros contabilísticos, à conta da engenharia, o valor dificilmente seria superior aos 200 milhões.

Em conclusão, poderia ter sido pior. E não sendo possível o fundo Apollo comprar Brito e Cunha e outros emplastros (incluindo o bastonário dos economistas que com soberano desprezo pelos conflitos de interesse saltou directamente da presidência do supervisor para a presidência da Tranquilidade) que por lá circulam pelo preço que valem e vendê-los pelo preço que eles julgam que valem – um negócio magnífico, infelizmente infazível – o melhor será desfazer-se rapidamente deles.

Aditamento a pedido de outro amigo: «O dr. Martinho, Rui Leão Martinho é um cr*. Sem apelo nem agravo. Cr* clínico. Pode publicar sff?» [Reflectindo, acho que o adjectivo não é apropriado. Trata-se de um caso de ética duvidosa com elevado sentido de oportunidade mas reduzidas capacidades preditivas.]

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