Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

12/03/2013

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A corporação dos sensíveis

«As pessoas sensíveis falam muito dos pobres e enfatizam expressões como “políticas sociais” como se ao pronunciá-las assim enfaticamente elas mesmas de tão sensíveis lhes sentissem as dores e logo aumentassem a sua condição de pessoas moralmente superiores.


Actualmente vários sensíveis mostram-se todos os dias muito sensibilizados pela insensibilidade das medidas de austeridade. Durante anos e anos, a sua alma sensível nunca se chocou com o crescimento desmesurado do Estado, nem com os observatórios, institutos, fundações e empresas municipais que floresciam ancorados num discurso sobre "políticas sociais", "cidadania", "combate à pobreza" que mesmo que conduzisse ao resultado contrário não se questionava porque isso era e é sinónimo de insensibilidade social.

Acrescente-se também que a sensibilidade se tornou uma verdadeira agência de empregos e um sector muito rentável para aqueles que nele apostaram: as políticas que os sensíveis defendem nunca falham por serem más ou desajustadas mas simplesmente porque não foram dotadas dos meios suficientes e eles mesmos, os sensíveis, também raramente são escrutinados porque está implícito logo à partida que só com grande insensibilidade se questiona ou pretende avaliar o modo de proceder de um sensível. Tanto mais que ser sensível e dizer coisas sensíveis é meio caminho andado para se gozar de boa imprensa: as redes sociais, que parecem a versão tecnológica das pretéritas conversas de taberna e café, adoram as pessoas sensíveis e os jornalistas odeiam fazer perguntas difíceis às pessoas sensíveis.

Outro dado a ter em conta é que os sensíveis não têm memória. Só indignações. Sempre que, até num passado relativamente recente, se questionava a sustentabilidade da Segurança Social, as pessoas sensíveis sensibilizavam-se muito e achavam um horror que (diziam) se questionasse o direito à reforma. Como ninguém queria ficar nesse odioso papel - ser objecto da indignação de um sensível condena qualquer um ao opróbrio! - o assunto foi sendo iludido até se tornar uma tragédia anunciada. Perante o avizinhar da catástrofe os sensíveis num ápice passaram a lastimar a ausência de estadistas e de líderes com coragem para atempadamente terem evitado esta dramática situação que, claro, muito os preocupa a eles e à sua sensibilidade.

Desiluda-se quem, mesmo que por breves segundos, acalente a esperança de ver um sensível questionar-se sobre o que fez ou disse no passado. Para as pessoas sensíveis apenas conta o presente. Esse momento em que defendem aquilo que amanhã nem lhes lembra e caucionam líderes que, anos depois, quando se tornam uma mancha incómoda no seu curriculum, dizem que se revelaram uma desilusão. Afinal os sensíveis nunca erram, iludem-se. Mas ainda e sempre com muita sensibilidade

Helena Matos, no Económico

4 comentários:

Luis Moreira disse...

Estes sensíveis pensam muito no seu semelhante entre dois Wiskies e um arrôto...

JSP disse...

Em português corrente, a coisa despacha-se com um "hipóctitas de merda" ( perdoe a linguagem "vicentina"...)

Anónimo disse...

" hipócritas ", evidentemente.
Mea culpa.

Unknown disse...

Eis os efeitos de "políticas sociais" se estivessemos a ser governados por "pessoas sensíveis"...
http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/03/11-de-marco-de-2013-noticias-da.html