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24/02/2013

Pro memoria (101) – Cada cavadela, cada minhoca, ou a repeteca de José Sócrates

Compreende-se que com a carestia de vida em Paris as poupanças de José Sócrates precisem de ser revigoradas. Compreende-se igualmente que procure emprego para as suas competências e o seu currículo. Um lugar de delegado de propaganda médica é certamente um lugar onde pode brilhar.

Foi por isso sem surpresa que se ficou a saber ter sido contratado pela Octapharma, uma farmacêutica suíça, através do seu administrador português Paulo de Castro, para o seu Conselho Consultivo para a América Latina. A Octapharma explicou que Sócrates tinha sido escolhido pelo seu «conhecimento profundo da região» (foi lá meia dúzia de vezes) e a «vivência com os problemas de saúde pública» (recorreu aos hospitais também uma meia dúzia de vezes).

Numa das suas primeiras intervenções na região que conhece profundamente, José Sócrates, acolitado pelo seu ex-chefe de gabinete, actualmente na Ongoing (where else?, confira aqui), aparece numa foto publicada no Expresso reunindo com o ministro da Saúde brasileiro.

Porém, a coisa começa a ficar preta, como se diz na região, quando se sabe que a Octapharma esteve alegadamente ligada à chamada «Mafia dos Vampiros» (ver página da Procuradoria da República no Distrito Federal), mafia que alegadamente envolveu funcionários do Ministério da Saúde brasileiro e Delúbio Soares, um dos alegados «mensaleiros» do «Mensalão» do PT, já condenado.

Ocorre-me perguntar: os indignados com os «esquemas» e chico-espertices de Miguel Relvas não se indignam com o espantoso currículo do homem alegadamente envolvido em mais alegados casos no país dos casos? Recordando: os projectos das casinhas na Beira, a compra da casinha no Heron Castilho, o caso Cova da Beira, o curso na UI acabado ao domingo, o caso Freeport, o caso PT-TVI, o caso Face Oculta, o caso Taguspark-Luís Figo, um conjunto que «lembra irresistivelmente aquilo a que Freud chamou em 1920, no seu Jenseits des lustprinzips, a "compulsão de repetição", e a que os brasileiros, de um modo mais corriqueiro, chamam... uma repeteca», como há um ano escreveu, cobrando as humilhações infligidas, o excelso professor Manuel Maria Carrilho.

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