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18/11/2016

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (11)

Outros excertos.

Mais um excerto (neste caso uma crónica completa) de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.

«A devoção do povo de Felgueiras pela sra. Fátima espantou muita gente. Os felgueirenses começaram por a eleger, quando ela já andava a contas com a justiça, e, a seguir, na sua esmagadora maioria, aprovaram a sua fuga e até os delitos que alegadamente cometera. Quem estudou a história política do País não se deve espantar. No antigo regime, ou seja, na monarquia absoluta., o povo só conhecia o Estado por duas razões: porque lhe tirava o imposto (em dinheiro ou em espécie) e porque o mandava para a tropa. Uma vez por outra, embora raramente, também o enforcava ou metia na cadeia. A relação entre o soberano e os seus súbditos acabava quase sempre aqui: e os representantes de Lisboa na província eram inomináveis tiranetes, que exploravam e aterrorizavam os locais. Veio o liberalismo (um parto dificil) e, no momento em que o liberalismo conseguiu enfim estabilizar, os portugueses descobriram de repente que os políticos precisavam deles - pelo menos, do voto de alguns deles. Foi nessa altura que se estabeleceu o negócio que ainda hoje dura: os políticos davam qualquer coisa ao povo (estradas, pontes, fontanários, favores de carácter pessoal) e o povo dava em paga o seu voto aos políticos. Convém perceber a natureza eminentemente "democrática" desta transacção. A um povo pilhado e saqueado uma troca - mesmo unilateral - parecia o paraíso. Ninguém se interessava por saber se os políticos roubavam, desde que fornecessem a tempo a sua "parte". Uma "parte" choruda fazia um bom político; uma "pane" mesquinha um mau político. Tal qual como um pai remoto. A roubalheira, de resto, decorria em altas regiões, que o homem da rua ignorava. Coisas para poderosos. Contra Lisboa e contra o mundo, queria um protector e dispensador de benesses: não queria mais nada. A corrupção que se lixasse.»

A corrupção, 16-05-2003

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