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09/11/2016

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira

Entendamo-nos: a mim parece-me excelente termos 50 mil forasteiros, com um razoável poder de compra, durante quatro dias em Lisboa a lotarem os hotéis, os restaurantes e os bares e a gastarem umas dezenas de milhões de euros (a estória das centenas de milhões é mais do foro da ficção) que tanta falta nos fazem para pagar as dívidas. O que tenho dificuldade em acompanhar são os delírios antecedentes e subsequentes.

Começando pelos delírios antecedentes que consistem na ilusão de que Lisboa foi escolhida para hospedar a Web Summit porque se tratava da capital europeia com maior número de startups e geeks por quilómetro quadrado (não me tomem à letra, isto é metafórico, certo?). A realidade é bem mais prosaica. Lisboa foi escolhida, como é público e notório mas ignorado pelos delírios comunicacionais, meramente porque Dublin, onde até 2015 se realizou a Web Summit, como nos informou Paddy Cosgrave, o seu fundador,  não deu garantias a tempo de «um plano de controle de trânsito adequado, um plano para aumentar a frequência de transportes públicos, um plano que permita que os hotéis não manipulem tanto os preços e uma melhor solução de internet de banda larga.».

Quanto ao delírios de Lisboa estar inundada de startups e geeks (é uma metáfora outra vez...), veja-se a lista dos 31 painelistas portugueses que irão botar faladura: 9 políticos profissionais (surpreendentemente, o presidente Marcelo não faz parte de lista), 9 personalidades ligadas ao futebol e ao desporto (incluindo um surfista e uma judoca), 2 professores universitários e o resto terá vagamente uma relação com o tema da cimeira.

Na falta de resposta atempada de Dublin, o bom do Paddy aterra em Lisboa e, sem conhecer a história portuguesa, nem saber que os portugueses têm uma costela de Oliveira de Figueira - os políticos têm todas elas -, acreditou piamente nas tretas do Costa de Figueira, nessa altura ainda residente na praça do Município. Paddy foi demasiado crédulo, como se está a ver.

Quanto aos delírios subsequentes de que tudo correria sobre rodas, a cidade está um caos devido às obras e a outros ponderáveis, os transportes públicos estão em paralisia e a internet de banda-larga falhou logo na cerimónia de abertura. O plano dos preços dos hotéis funcionou bem no que respeita aos hotéis: «os preços aumentaram, em média, 68% na semana em que decorre a Web Summit».

Ainda no domínio dos delírios subsequentes, o primeiro-ministro Costa anunciou ufano 200 milhões de «co-investimento público» em que «quem decide a sua aplicação são os investidores internacionais ou nacionais que escolhem as melhores empresas, os melhores projectos, a quem é necessário assegurar 'venture capital'». Manifestamente, mesmo que não tenha reservas mentais (hipótese altamente generosa) sobre quem vai decidir os investimentos, Costa não faz a menor ideia do que seja o 'venture capital', na melhor hipótese pensa que será parecido com o FEDER. Enfim, como se escreve aqui no Blasfémias é «esta a estratégia socialista de atrair empresas para Portugal».

Para terminar, entendamo-nos outra vez: não concluo que tudo isto é uma desgraça. Não é. Para começar, porque umas dezenas de milhões de euros para pagar hotéis e restaurantes com preços inflacionados são sempre bem-vindos, e, para acabar, porque os web summiteers vão deixar Portugal felizes e contentes com o sol, o vinho tinto, a noite lisboeta e todo o resto do cardápio. Oremos para que perdoem os engarrafamentos, a desorganização, a oratória pletórica, as falhas do wifi, os preços dos hotéis e dos comes e bebes e tudo o resto - afinal de contas se fosse em Marraquexe poderia ser pior -, e talvez estejam dispostos a voltar em 2017 e 2018, contribuindo para a felicidade da restauração.

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