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21/11/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (58)

Outras avarias da geringonça.

Começo pelas notícias largamente exageradas do crescimento com que o governo se auto felicitou e que a imprensa do regime obedientemente trombeteou. E exageradas porque, entre outras razões, uma parte significativa do crescimento do 3.º trimestre resultou do facto irrepetível da venda à Roménia por 180 milhões dos jactos F16, facto conhecido desde o fim de Setembro mas cuidadosamente não relacionado com o crescimento no 3.º trimestre pelos mídia amigos, com excepção do renegado CM.

Como também foi geralmente ignorado que a melhoria das exportações (turismo e venda dos F16) não evitou, segundo os dados do BdeP, a baixa do excedente externo devido à «deterioração da balança de capital e da balança financeira.

Na verdade no que respeita às boas notícias não há unanimidade nas instituições do regime. Por um lado o BdeP conclui que a «actividade económica acelerou em Outubro pelo quarto mês», por outro o IME garante que «actividade e clima económico perdem gás». É algo que a geringonça terá que afinar pondo todos falar a uma só voz - a voz dos amanhãs que cantam.

A UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental), que ainda vai acabar por ser «reestruturada» pela geringonça pelos seus pareceres desalinhados, estimou que no final de Setembro a dívida já tinha atingido entre 132,7% e 133,7% do PIB, ultrapassando assim a previsão do governo para o ano todo (129,7%). Como já por inúmeras vezes aqui escrevi, a evolução da dívida é o algodão que não engana e mostra o que as manobras orçamentais temporariamente escondem.

Outro órgão que também corre o risco de «reestruturação» pelas suas análises heréticas é o CFP (Conselho das Finanças Públicas) que, segundo o DN, o equivalente ao «Diário da Manhã» do Estado Novo salazarista, «agita fantasma de novo resgate». Tudo porque no seu relatório, entre outras heresias, o CFP estimou que o ajustamento calculado pelo governo de 0,6 pontos percentuais do PIB potencial vale metade segundo as regras de Bruxelas o que, levado a sério, significa que ainda poderia ser necessário um ajustamento adicional de 570 milhões de euros - não vai ser porque a CE tem tanta sarna para se coçar que está sem vontade arranjar mais por miudezas como o défice português.

A isto acresce que, segundo a presidente do CFP Teodora Cardoso, pelo menos a parte da recapitalização da Caixa para cobrir prejuízos passados terá de afectar o défice, segundo as regras do Eurostat, Assim se percebe ter Centeno já anunciado que a recapitalização, que até há pouco era urgentíssima, será adiada para 2017. Porquê? Ora porque o défice aumentaria de pronto e emagreceria a folga orçamental para alimentar a clientela da geringonça.

Falando em Caixa, para rematar uma sucessão estrondosa de falhanços, meias-verdades e mentiras com potencial para derrubar um qualquer governo que não fosse levado ao colo pelo jornalismo de causas e pela comentadoria do regime, António Domingues mandou dizer pela boca do seu amigo do peito Lobo Xavier que o governo lhe tinha confirmado por escrito que prescindia da apresentação das declarações da administração. Já agora registe-se a estranheza da resistência das luminárias nomeadas em mostrarem o seu património, estranheza que ainda mais estranhamento o Expresso, sempre bem informado nas intrigas do regime, explica porque ainda estão a regularizar algumas situações e, no caso de Domingues, há uma estória de uma conta no BES para parquear umas aplicações exóticas em derivados.

É claro que com o crescimento imparável da dívida pública até a DBRS, a única agência que, com o seu rating da dívida portuguesa um notch acima do lixo, sustenta o acesso ao financiamento, anuncia que se o yield das OT a 10 anos ultrapassar 4% (na 6.ª feira estava em 3,8%) poderá ter de rever o rating. Está tudo preso por cordéis.

Como previsto a semana passada, a base de incidência do imposto Mortágua passou a ser apenas sobre os imóveis particulares e a receita adicional reduzida a quase nada, isto é a uma bandeira berloquista.

Não obstante todas as declarações de paixão do governo pela Saúde, o orçamento para 2017, diz quem sabe, «será, em termos de disponibilidade financeira para pagar as operações de saúde, insuficiente e menor do que em anos anteriores». Não se discute que talvez tenha mesmo de ser porque os recursos são finitos, o que se discute é a demagogia hipócrita do governo e o que se constata é o silêncio dos «especialistas».

Onde as paixões são mais materialistas é na Educação com o ministro de facto Mário Nogueira a mandar o factotum aplicar obedientemente as suas políticas, a última das quais é a redução do tamanho das turmas a que seguirá «vincular professores contratados». Ou, dito de outro modo, proporcionar mais emprego aos filiados da Fenprof, quando se sabe, de acordo com dados da OCDE, que em Portugal o número de alunos por turma é inferior à média da OCDE e não há nenhuma correlação visível entre este número e a eficácia do ensino (ver o post «Lost in translation (267) – A Fenprof controlada pelos comunistas quer mais apparatchiks».

Tudo indica que esse movimento na Educação é parte de um algo mais geral: o chamado «combate à precariedade no Estado» que visa tornar vitalícios os contratos temporários de cerca de 70 mil utentes da vaca marsupial pública ainda não estão devidamente instalados nas suas mamas e impedir as empresas públicas de contratar «recibos verdes». São mais alguns passos da geringonça para satisfazer as suas clientelas a que podemos acrescentar o desbloqueamento das progressões na carreira nas empresas públicas.

Depois admiram-se os patetas e os cínicos com a popularidade do governo que, naturalmente, não cessará de aumentar enquanto houver crédito.

Podemos até antecipar que essa popularidade irá aumentar com a saída que se anuncia do Procedimento por Défices Excessivos, o travão que ainda segura o assalto à mesa do orçamento. Enquanto a geringonça e até parte da oposição festejam, as criaturas com juízo neste país deveriam pôr as barbas de molho.

O assalto ao aparelho de estado pelos apparatchiks do regime continua. Desta vez é a Associação de Administradores Hospitalares que denuncia estar «o aparelho de administração pública ocupado por indivíduos que não têm qualquer conhecimento da área».

Quanto à longevidade da geringonça, não se conte com um divórcio para breve porque, por agora, é um casamento onde todos ganham e um deles só sobrevive por essa via. Assim, nem as queixas e os remoques de Jerónimo de Sousa em entrevista ao jornal i nem a greve dos funcionários públicos (com uma ridícula manifestação de umas centenas de apparatchiks)  passam de foguetório negocial ou de apaziguamento da linha dura do Comité Central em vésperas de um congresso.

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