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01/11/2016

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (5)

Outros excertos.

Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.

«Parece que há hoje, pelo menos segundo João Cravinho, novas teorias do desenvolvimento económico que atribuem uma importância decisiva à história e à cultura. Mais vale tarde do que nunca. Finalmente, alguém percebeu que Portugal ou o sul de Itália não são uma cópia com mais sol da Inglaterra ou da Alemanha. Claro que, no fundo, isto não traz nada de novo. A teoria sociológica de Montesquieu a Weber, e até o nosso caseiro Antero, já tinham dito o mesmo. Mas que a ideia penetre por acaso na cabeça de um economista não deixa de ser uma alegria. Cravinho, por exemplo, jura, com uma extraordinária fantasia, que se fôssemos mais parecidos com a Inglaterra estávamos com certeza num "patamar" 30 ou 40 porcento "superior". Infelizmente, não estamos. E porquê?

Em primeiro lugar, como viu Antero, por causa da religião (de que João Cravinho não fala). O catolicismo prescindia da leitura da Bíblia (e, portanto, da alfabetização), estabelecia a autoridade absoluta do padre e pedia em matéria de pensamento uma incondicional obediência. O iluminismo português, como verdadeiro movimento filosófico e científico, não chegou a existir e Coimbra nunca seriamente saiu da sua escuridão. Em segundo lugar, e depois da Igreja, o Estado abafou a sociedade e o indivíduo. O Estado fazia e desfazia as classes dirigentes que, dos pares do Reino ao último escrivão, dependiam dele. O Estado distribuía a sua justiça e os seus favores com um lendário arbítrio. E, pior que tudo, o Estado exercia um poder de facto, ilegítimo pelo exercício ou pela origem, universalmente ressentido e cobiçado. O liberalismo, a República e a Ditadura não mudaram, neste capítulo, nada de essencial.

A geografia, ainda por cima, não ajudou. Depois da perda do Brasil e do barco a vapor, Portugal ficou fora das grandes rotas comerciais do Atlântico e cada vez mais longe da Europa. Pouco a pouco acabou por se tornar um país sem destino, a que nem as colónias de África, por falta de dinheiro, ofereciam um papel. A pobreza e a velha consciência do atraso nacional acabaram por criar uma cultura de passividade e conformismo, subserviente e velhaca e, como seria de esperar, hostil ao indivíduo e ao risco. A democracia e a "Europa" caíram neste venerável pântano português. Ninguém que saiba um bocadinho de história se deve surpreender.»

O pântano português, 24-07-2005

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