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07/05/2014

Pro memoria (167) – Um programa de sound bites

Na entrevista do Expresso ontem divulgada, António José Seguro fez o costume: debita uma fiada desconexa de sound bites vazios de ideias, na melhor hipótese, e faz promessas que só os patetas podem acreditar, na pior.

Esta pior hipótese das promessas irrealizáveis dar-lhe-á provavelmente a maioria nas eleições legislativas, visto o número de eleitores patetas se não assegura uma vitória dá um precioso contributo. «Comigo não haverá despedimentos na função pública» significa que Seguro ou está conscientemente a mentir ou, pior, não tem a mínima intenção de reformar o Moloch engordado durante décadas pelo seu partido com algumas ajudas do PSD e do CDS.

«Garantir que não haverá aumento da carga fiscal» para quem se opôs ao aumentos de impostos do governo PSD-CDS é avalizar retroactivamente aquilo a que se opôs. Desculpar-se com não saber o estado em que irá «receber o país» é uma desculpa de mau pagador por duas razões:

  1. O acompanhamento dos técnicos da troika e a malha da contabilidade apertada pelo Eurostat nos últimos anos não lhe alimentam os receios, ao contrário das trapalhadas de contabilidade criativa herdadas do governo Sócrates que levaram a corrigir retroactivamente os défices de uns pontos percentuais e a dívida pública de quase uma dezena de pontos; 
  2. Pela falta de legitimidade como líder de um partido que foi governo durante 6 anos em que deixou o país da pantanas, durante os quais o então dirigente Seguro nunca cuidou de saber o estado em que esse governo estava a deixar o país. 
Recusar a ideia de estar isolado dos socialistas da Europa, mostra, uma vez, que está conscientemente a mentir ou, pior, não tem a mínima ideia do que Manuel Vals se propõe fazer, das políticas do governo alemão que Sigmar Gabriel aprova e das críticas de Martin Schulz que diz que ele, Seguro, não deveria prometer o que sabe não poder cumprir. Talvez seja esse o problema mais grave – Seguro poderá não saber o que não pode cumprir.

Seguro tem razão quando diz «a resposta mais fácil é prometer tudo a toda a gente. Mas disso os portugueses estão fartos», e é grave que, uma vez mais, ele faça o mesmo com a maior das faltas de vergonha ou das inconsciências, se preferirem.

Talvez a única coisa aproveitável da sua entrevista tenha sido a dúvida que colocou às assessoras de imagem: «fico melhor com casaco aberto ou fechado?»

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