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06/04/2013

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Uma aplicação do axioma de Sócrates-Passos (6)

Fascículos anteriores: (1), (2), (3), (4 e (5)

[Em rigoroso exclusivo, o (Im)pertinências continua a publicar em fascículos o paper «Teoria Geral da História de Portus Cale e Arredores à luz do Axioma de Sócrates-Passos» do detractor e amigo Pai Silva.
Nos fascículos anteriores foi tratada a axiomática e enunciados o axioma de Sócrates-Passos e um axioma popular conexo, penetrado o núcleo da tese com a abordagem à fundação de Portus Cale e tratados em particular os protagonistas encabeçados pelo Senhor Afonso e os seus herdeiros mais imediatos. Neste 6.º fascículo o Autor trata dos herdeiros menos imediatos até àquele que um dia deverá regressar embuçado.]

O processo continuou até cerca de 1495 ano da morte do único génio político que, em 900 e tal anos de história, o condado portucalense foi capaz de engendrar, o único que merece, antes do nome, a palavra Dom (todos os outros são tralha ou, até menos, lixo): Dom João II.

É claro que a evolução não foi nem contínua nem uniforme. Pelo meio sofreu alguns enormes sustos e alarmantes sobressaltos que colocava a Choldra à beira de voltar ao buraco donde mal acabara de sair. O azar e a irresponsabilidade, a sorte e a divina providência (injustificada a nosso ver se o for, mas por tão miraculosa não pode ter tido outra origem). Foi caso das traquinices do senhor Fernando que causou uma inútil e aborrecida mudança de dinastia ou a mania dos castelhanos de darem como contadas as favas que ainda o não tinham sido quando resolviam tirar o espinho que lhes afligia a anatomia e lhes dava coceira, levaram-nos a apanhar uma incomensurável tareia em Aljubarrota e terem de levantar à pressa, por causa da peste, o cerco que diligente e coordenadamente tinham montado a Lisboa, coisas que a terem sucesso, nos poderiam ter remetido de novo para o buraco. Sendo esta uma amostra da contribuição castelhana, os próprios portucalenses não se ficaram atrás e com a incontornável obsessão pela Reconquista por via do expedito método da traulitada lá se foram às terras do outro lado do Mediterrâneo o que genericamente, aprazo correu mal e um pouco mais adiante levou-nos de novo ao buraco.

Com Dom João II o condado não atingira a maior riqueza, nem a maior expressão geográfica, nem o auge do poderia militar mas pela primeira e única vez, em mais do 900 anos, chegou-se a uma espécie de maravilha cuja foi a de alguém saber o que queria, como queria e quando queria e ainda, por grosso, conhecer-se dessa poda mais do que todos os outros, no condado e fora dele, conheciam juntos. Sol de pouca dura! O homem foi envenenado para garantir que o senhor Manuel saltava para o poleiro.

Com o senhor Manuel inicia-se inexoravelmente o caminho para o buraco, segundo nos diz e recomenda a outra parte do aforismo arvorado por nós em Axioma: não há bem que sempre dure.

A primeira pedrada foi a decapitação da minoria judaica até aí em notável expansão e desenvolvimento, bem tratada mas mal quista. Foi obrigada a nacionalizar-se cristã e quem não o fizesse era posto a andar, caso contrário era torresmada nos churrascos da inquisição. O salto final para o buraco é dado pelo ignóbil senhor Sebastião, vaga amostra de rei e definitivamente falhado como macho que, armado em trauliteiro para o que não tinha o estatuto e muito menos a arte, levou uma coça tremenda que lhe limpou o sarampo, ai por volta de 1578, no meio de África, nos arredores de Alquecer Quibir.

Cair no buraco e, ainda por cima, empurrado por um deficiente macho era para encher de vergonha os homens do condado mas, estranhamente e sem se entender porquê, deu-lhes para o promover a arauto do Quinto Império. Só eles.

(Continua)

1 comentário:

jsp disse...

Sussurro envergonhado e, até certo ponto, "clubístico" : talvez uma referenciazeca ao " Fenício que nos obrigou a um esforço tão grande, que ainda hoje estamos cansados", ( palavras do Ilustre Zé Maria).
Creio que Afonso de Albuquerque, tanto na visão (geo)política como na militar, estava além do seu tempo - e muito além dos seus contemporâneos.
Mas aceito que isto se inscreva na corrente de pensamento tìpicamente portuga do "acho que"...
Cpmts.