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01/04/2013

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Uma aplicação do axioma de Sócrates-Passos (2)

Fascículo (1)

[Em rigoroso exclusivo, o (Im)pertinências continua a publicar em fascículos o paper «Teoria Geral da História de Portus Cale e Arredores à luz do Axioma de Sócrates-Passos» do detractor e amigo Pai Silva.
O fascículo anterior foi dedicado à introdução à axiomática e ao enunciado do axioma de Sócrates-Passos e de um axioma popular conexo. Neste fascículo Pai Silva começa a penetrar no núcleo da sua tese, abordando a fundação de Portus Cale.]

Com estas duas declarações discricionárias e inquestionáveis penso que é possível construir uma teoria da história de Portus Cale, o que nos abalançamos a fazer sem todavia garantirmos, primeiro, que o façamos, segundo, que o resultado mereça o esforço na imprevisível hipótese de se chegar a um fim.

Portugal é um gigantesco equívoco iniciado um pouco antes de 1140, pretensa data da sua fundação, prolongando-se até, pelo menos, à data do mais esperado fim do mundo, ou seja, 21de Dezembro do ano da graça de 2012, data em que, dizem os entendidos, expira o prazo de validade do mundo segundo os sábios do mundo maia. Infelizmente não acredito que tal venha a acontecer e vamos ter de gramar este mundo como ele é e como o fazemos, pessoalmente, por mais uma ou duas décadas e, colectivamente, por mais uns quantos milénios.

O equívoco que nos gerou e que nos lançou no buraco daquela altura só nos é estranho porque não há maneira de olharmos para as coisas da época com os olhos da época, pecado em que incorremos, todos ou quase todos, quase todos os dias. O conceito de ser-se dependente ou independente não fazia qualquer sentido naquele tempo, nem existia. Estava-se em plena Idade Média no auge do Império Católico sucessor do Império Romano que fora espatifado pelos Bárbaros (como império, o Império Romano do Oriente não passa de uma ficção). A estrutura do Império Católico assentava no conceito de suserania e não no de conquista e absorção de território com o que viria a influenciar natureza de todos os impérios subsequentes, o português, o espanhol, o holandês, o inglês e o russo. A mais notável excepção foi a tentativa falhada de construção de um Império clássico, do género do romano, pelo Hitler e a Alemanha nazi e a patética transformação tardia do Império Português na base de suseranias em integração territorial igualmente falhada, como, por experiencia própria, é do nosso comum conhecimento.

O que estava em causa por altura da fundação de Portus Cale ou de qualquer outro estado na Europa católica não era a sua independência mas quem havia de ser o respectivo suserano. Se este fosse directamente o Papa então era-se um mais igual entre os iguais e por aí abaixo segundo uma lei copiada da ordem elefantina: se x aborrece muita gente x+1 aborrece muito mais. (*) Um lamentável erro de alocação de recursos humanos do rei de Leão criou uma inútil mas essencial disputa sobre os laços de suserania de duas porções do território galaico-duriense.

O rei de Leão tinha duas filhas, a dona Urraca (**), legítima, e a dona Teresa, bastarda, situações absolutamente correntes e consideradas aceitáveis como ordem natural das coisas e até decentes naqueles tempos em que as mulheres eram uma espécie de moeda de troca no mercado dos acordos políticos entre suseranos e não só. Daí que estes por via de regra enfeitassem adequadamente as suas mulheres e em contrapartida fossem pagos pelas estimadas esposas exactamente com a mesma moeda, todavia este contraponto é menos conhecido porque os encarregados de escrever as crónicas reais, pagos obviamente pelos senhores suseranos, não brincavam em serviço e aqueles detalhes passaram ao lado das crónicas afim de que o escriba não desse com os dedos separados da mão no melhor e no pior a própria cabeça acabasse bastante longe do corpo, destino igualmente aceitável e decente para a época.

Como qualquer outro suserano tinha de tratar do casamento das suas filhas de modo a obter alguma vantagem política sempre e, adicionalmente, de qualquer outra natureza. Por razões eventualmente de circunstância ou por mera distracção e ou displicência, alocou à dona Urraca o mole do Raimundo e à dona Teresa o aguerrido do Henrique, primos vindos de terras gaulesas. Um dos custos do casamento da bastarda, possivelmente por o ser, foi a criação, como dote, de um condado ao redor de uma aldeola de nome Portus Cale que não terá totalmente afastada a hipótese de ser virtual, aliás como a mais tarde a mitificada Escola de Sagres, e daí o condado portucalense de onde os peritos na matéria juram que adveio o nome de Portugal.

(Continua)

(*) Este é um caso particular de Função Zingarilho, um conceito desenvolvido na década de 80 pelo autor e este vosso criado.
(**) Dona Urraca inspirou também a métrica «urraca» de avaliação contínua das personalidades, luminárias, socialites e instituições de Portus Cale, adoptada nos primórdios do século 21 - ver Glossário das Impertinências.

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