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02/04/2013

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Uma aplicação do axioma de Sócrates-Passos (3)

Fascículos anteriores: (1), (2)

[Em rigoroso exclusivo, o (Im)pertinências continua a publicar em fascículos o paper «Teoria Geral da História de Portus Cale e Arredores à luz do Axioma de Sócrates-Passos» do detractor e amigo Pai Silva.
Nos fascículos anteriores foi tratada a axiomática e enunciados o axioma de Sócrates-Passos e um axioma popular conexo, e começada a penetração do núcleo da tese com a abordagem à fundação de Portus Cale.]

Uma condição sine qua non da criação do condado dito Portucalense e do casamento com dona Teresa, a bastarda, era ser a suserania do rei de Leão, sem qualquer sombra de dúvida mas por via indirecta, ou seja, através de uma sub-suserania de Raimundo, o Mole, sobre Henrique, o Coiro.

É claro que Henrique aceitou o acordo mas com enormes reservas mentais e na primeira curva em que apanhasse o Raimundo de calças na mão iria tentar passar à directa suserania com o rei de Leão. Não lhe cabia nem no ego nem na paciência que pudesse ser de outra maneira e se preciso fosse desatar à pancada era isso mesmo o que fazia. E fez.

Por infelicidade morreu sem ter levado a água ao sem moinho, isto é, passar à suserania directa com o rei de Leão mas deixou herdeiro bem mais capaz do que ele de atingir aquele desiderato e muito mais do que isso. Deste modo glorioso mas equívoco em que, procurando o menos se alcança o mais, em virtude da obstinação do lionês em não conceder a suserania directa, o senhor Henrique post mortem e o seu filho Afonso desembocaram, sem o querer, na fundação, aí por volta de 1140, de um novo reino no âmbito do Império Católico ou seja directa suserania com o Papa e passando a ser, consequentemente, mais iguais entre os iguais.

Esta igualdade malquista e mal vista constituiu um espinho encravado no flanco (e em mais alguns outros locais da anatomia que nos dispensamos de referir) dos Reis de Leão e posteriormente, em razão de negócios de fusões, absorções e outros, dos de Castela, causa de muita coceira e não menos vezes de não poucas arranhadelas e de que ambos só viriam a curar-se ao redor do ano da graça de 1640. Outros contos.

Um aspecto muito curioso da formação do novo reino tem a ver com a génese do nome porque passou a ser conhecido ou pelo menos que lhe esteve na origem. Por via de regra os povos costumam dar o seu nome ao território em que vivem obtido por usucapião (raramente) ou por pancadaria (via mais comum). Assim, por exemplo, os Lombardos deram o nome à Lombardia (também o deram a umas couves mas o tema não vem a propósito). Ora no caso em apreço é o território que dá o nome ao povo cujo não passavam de galegos que já tinham, dado o nome à Galiza e, portanto, não o podiam dar a mais nada e assim, em desespero de causa, recorreu-se ao território para dar nome ao povo que ficou Portucalense e acabou como Português. Um mau princípio não será premonição de mau fim, mas que dá para desconfiar, dá. O nome é pois uma boa medida do equívoco original da fundação do reino, dito à beira mar plantado.

Hoje é, para nós, claro que o senhor Henrique, o Coiro, e o seu filho, o senhor Afonso, o Trauliteiro, não se apercebiam que ao criarem aquele novo reino, o estavam, ab initio e nesse exacto momento da fundação, a enfiarem-no no buraco pela luminosa razão de que não era sustentável nem politica nem economicamente (ainda hoje não parece ser). Não tendo sido imediata a percepção desta calamitosa imprevidência rapidamente se manifestou a necessidade e logo depois a preocupação de encontrar ou forjar um modo de vida que permitisse àquela cambada apesar de continuar no buraco poder manter a cabeça à tona da água ou seja, no mínimo, não morrer de fome.

(Continua)

1 comentário:

Anónimo disse...

Apesar de já ter lido o original, aguardo impaciente os próximos episódios. Isto é muito melhor que o CSI.

AB.