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03/04/2013

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Uma aplicação do axioma de Sócrates-Passos (4)

Fascículos anteriores: (1), (2) e (3)

[Em rigoroso exclusivo, o (Im)pertinências continua a publicar em fascículos o paper «Teoria Geral da História de Portus Cale e Arredores à luz do Axioma de Sócrates-Passos» do detractor e amigo Pai Silva.
Nos fascículos anteriores foi tratada a axiomática e enunciados o axioma de Sócrates-Passos e um axioma popular conexo, e penetrado o núcleo da tese com a abordagem à fundação de Portus Cale. Nos fascículos anteriores foi tratada a axiomática e enunciados o axioma de Sócrates-Passos e um axioma popular conexo, e penetrado o núcleo da tese com a abordagem à fundação de Portus Cale, em particular dos protagonistas - em rigor mais figurões do que protagonistas.
Hoje vamos tratar das classes sociais, da matéria-prima de que foi feito o Portus Cale, versão Beta.]

Importa, e será por ventura esclarecedor, ver qual a matéria-prima com que se podia contar. A estrutura de poder em Portus Cale, para melhor entender os acontecimentos subsequentes, era singularmente simples, quase paradigmática daquela época e, na verdade, tomará muitos e bons anos a sofrer uma alteração significativa.

Uma classe nobre, muito pouco nobre de facto, encarregava-se do governo sob a forma de uma aristocracia de sangue, profundamente fechada, avessa a qualquer renovação ou inovação, rude, e com um insanável ódio ao trabalho sendo que a única actividade meritória a que se dedicava de alma e coração era a traulitada convenientemente distribuída por todos os azimutes, como modernamente se diz.

O clero era a segunda classe quando começamos do vértice para a base. Fazia pela vida sob o manto protector do Império Católico cujo amansava o incontrolável impulso trauliteiro dos nobres sobre quem quer que fosse, ungido ou não, e o insaciável apetite pela riqueza alheia a que não escapariam os clérigos não estivessem eles protegidos pelo papado. Eram uma classe profundamente conservadora apesar de letrada e culta (a única que o era) acomodando alguma mobilidade social, ou seja, recolhia ao seu regaço os nobres destituídos de jeito ou vontade para andarem à traulitada ou que por conveniências várias migravam ou eram forçados a migrarem para esta classe além de alguns dos poucos génios que lamentavelmente qualquer plebe é capaz de produzir.

Lá bem no fundo da pirâmide a terceira e última classe, um amalgamado de gente pouco diferenciada, formava o povo cuja função e destino era mourejar para, com o seu sangue, o seu suor, e as suas lágrimas (Winston avant la lettre), sustentar as duas classes que lhe ficavam por cima. Basicamente constituída por agricultores, pescadores e artesãos eram ignorantes até ao limite da alarvidade e pobres mas com um notável jeito para a traulitada se alguém, a bem, os convencesse a aderir, ainda que temporariamente, àquela nobilíssima actividade. Cerca de 800 anos depois um dilecto filho da nobreza deste condado apelidava-a de Choldra e pretendia que esta não era governável facto com que estamos inteiramente de acordo apesar de, por via de regra, serem os rapazinhos da classe do tal filho dilecto que, de tempos a tempos, atiram com a Choldra para o buraco.

A estas três classes haveria que juntar duas minorias; a moura, detentora de melhor tecnologia agrícola, bastantes bons engenheiros e gente de mais elevada cultura, tudo bem acima dos lorpas Portucalenses, incluindo o clero, mas que paradoxalmente também estavam a ser objecto do Axioma com que estamos a lidar; a judaica bastante mais fechada que a moura e especializada no que agora referimos como os bens não transaccionáveis, ou seja, serviços financeiros, bancários, contabilísticos, médicos e mais umas quantas artes (cartografia, astrologia, música, alfaiataria, etc.) que não exigissem equipamentos demasiado avantajados ou pesados, difíceis de deslocar de um lado para o outro sempre que uma emergência lhes caísse em cima o que era frequente. Esta minoria parece insusceptível de se lhe aplicar o Axioma em mãos, pelo menos até à data da recriação do seu estado. Depois se verá.

(Continua)

1 comentário:

Anónimo disse...

Tá visto que o Senhor Comentador tá c'os copos. Então não foi prantar este valioso comentário na toca do Chavez?
Era pr'áqui:
Ainda continuo sentado no banquito de pau, esperando que o Auctor se defina. E os calos a botarem a cabeça de fora. Compreendo, e o Auctor logo o prantou, que a Ópera é Ciclópica. Mas acredito que o Auctor (aka O Pertinente) tenha mais olhos que barriga, e que os Ciclopes (que eram os antigos ciclistas). Daí que, para ele, ver um filme a 3 ou 33 dimensões seja canja. O difícil será explicar tal filme à glebe ignara, apesar desta se benzer diariamente e colher ensinamentos junto à prelatura e à nobreza. Cuide pois Vexa, o Auctor, pois poderá estar em vésperas de um enxerto (de encéfalo, de porrada, etc.)
Como diz a glebe — quem te avisa teu inimigo é.
Abraço (de gibóia) do eao