Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/07/2012

Estado empreendedor (66) – móbil do assalto ao BCP

Filipe Pinhal, ex-administrador e ex-presidente do BCP, explicou ontem em tribunal que o assalto ao BCP foi parte de uma estratégia do governo Sócrates para obter financiamento garantido para os projectos megalómanos (TGV, novo aeroporto, terceira travessia do Tejo).

Filipe Pinhal apontou o dedo a Sócrates, Teixeira dos Santos, Carlos Pina, Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, os 3 primeiros no governo e os 2 últimos na Caixa, e ainda ao «candidato a agitador, Joe Berardo».

Nada que não se soubesse já. Leia-se por exemplo «Cronologia de um golpe», um artigo já com 3 anos de Pedro Lomba no Público.

NÓS VISTOS PELOS OUTROS: «É tempo dos outros aprenderem»

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Numa reportagem em Vilamoura e em Espoo (um resort na Finlândia) duas jornalistas do WSJ falaram com diversos portugueses e finlandeses acerca de crise de que os primeiros se queixam amargamente e que os segundos parecem não ter sentido. A reportagem é ilustrada pela foto e pelos quadros aqui reproduzidos contrastando a desgraça meridional com a prosperidade nórdica.

O artigo termina com a evocação do modo como a Finlândia enfrentou uma crise profundíssima no princípio dos anos 90 (ver este post sobre essa crise) não dando ouvidos aos queixinhas do desemprego e dos sacrifícios e aos profetas da mirífica agenda do crescimento e cita cidadãos comuns ouvidos pelo WSJ.

«Like many Finns, he (Artur Gajewski) pointed out that during a 1990s recession triggered by a banking-sector collapse, Finland put in place a program to cut spending, restore competitiveness and clean up the banking sector, including bank takeovers and compulsory mergers. It also sold off state assets and floated the currency to boost exports.

The situation got worse before it got better: GDP plummeted 15% in three years and unemployment reached nearly 20%, as social spending was cut—a deeply unpopular move in the Nordic welfare state. By the mid-1990s, helped by a currency devaluation, Finland's economy began to grow again as the overhaul programs and investments in R&D took root.

"Finns didn't get help from others during the '90s," said Janne Tarvainen, a 39-year-old Finn. "We learned. Now it's time for others to learn."

30/07/2012

Pro memoria (61) – o efeito do tempo sobre as opiniões

Vital Moreira hoje no negócios online

«Relvas não é um ministro qualquer. … Já há três questões: as secretas, o público e a licenciatura. … Este último episódio é grave porque a legalidade é pelo menos duvidosa. A lei é clara que o conselho científico deve decidir não numa base ad-hoc mas numa base genérica. Em segundo lugar, um político não está só sujeito à lei, tem outras obrigações para além das legais. Sob esse ponto de vista, a gravidade é muito grande. …Se eu estivesse no lugar dele – Deus nos livre! – já o teria feito (demitido)».

O mesmo (?) Vital Moreira há 5 anos no blogue Causa Nossa

«Parece-me que chegou a altura de Sócrates sacudir a pressão que os media continuam a alimentar por causa do controverso processo da sua licenciatura na Universidade Independente, cujo agendamento público coincidiu "por acaso" com a manifestação do caos institucional dessa mesma universidade privada. O silêncio já não constitui a resposta adequada às especulações jornalísticas e às desconfianças instiladas na opinião pública

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (15)

Alvéola-branca (Motacilla alba) só, à esquerda, e bem acompanhada, à direita, com Petinha-das-árvores (Anthus trivialis)
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29/07/2012

SERVIÇO PÚBLICO: Medalha de Bronze nas Olimpíadas da Dívida

Fonte: Metis Risk Consulting, Feasta (via Zero Hedge)

Estado empreendedor (65) – o Pavilhão Atlântico e efeito Lockheed TriStar que o governo evitou

Já contei mais de uma vez a história do Lockheed TriStar que me inspirou o efeito com o mesmo nome designando uma estratégia que consiste em torrar mais dinheiro a pretexto de recuperar o dinheiro já torrado. A obra acaba sempre numa perda muito maior do que a já inevitável no momento da decisão de entornar mais dinheiro em cima. Como já recordei, também nós já fomos literalmente vítimas do efeito Lockheed TriStar avant la lettre pela mão do governo Balsemão.

Vem o efeito Lockheed TriStar a propósito da venda do Pavilhão Atlântico, cujo custo de construção em 1998 terá sido de 50 milhões, agora vendido por 21,2 milhões o que foi considerado por alguns um mau negócio. A estória é, porém, muito diferente, como aqui se explica no Blasfémias.

O custo de oportunidade dos 50 milhões será actualmente de cerca de 100 milhões.Considerando uns trocos de receitas obtidas, a venda por 21 milhões significará uma perda de cerca de 80 milhões em 14 anos. É aqui que entra a lógica do Lockheed TriStar.

Se o Estado não vendesse agora iria acrescentar, até ao fim da vida útil do Pavilhão, aos 100 milhões do custo de oportunidade um custo anual de vários milhões de euros deduzido de umas centenas de milhares de receita. Dentro de 10 anos teria perdido uns 160 milhões. Ao vender agora por 21,2 milhões, congela a perda em 80 milhões e faz aquilo que a Lockheed não fez e no final foi forçada a vender metade do volume de break-even a preços de saldo.

28/07/2012

NOVA ENTRADA PARA O GLOSSÁRIO DAS IMPERTINÊNCIAS: «Biblicamente estúpido»

Biblicamente estúpido

Diz-se de comentários a um «acto de inteligência e coragem» que quem os faz julga diabolicamente inteligentes mas, em boa verdade, são bisonhamente estúpidos, «envergonham um morto» e mostram «a má-fé e a obnubilação da esquerda», usando as palavras de Vasco Pulido Valente.

Por exemplo, comentários a «se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal», dito por Pedro Passos Coelho no jantar do grupo parlamentar do PSD, tais como:
  • Carlos Zorrinhoquem se está a lixar para as eleições está-se lixar para os eleitores»)
  • Arménio Carlosprimeiro-ministro está a lixar-se para os portugueses»);
  • Luís Fazendarevela mais profundamente uma subestimação, um desprezo grande, por aquilo que é a vontade popular»);
  • Daniel Oliveiradespreza a democracia. E quem despreza a democracia deve ser desprezado pela democracia»);
  • Mário Nogueiraque se lixe o país e que se lixem os portugueses no fundo foi isso que ele disse»)
  • Pedro Adão Silva no Acção Socialista… populismo de curto prazo … tom messiânico subjacente à declaração» - o homem estará a pensar no Tozé e na sua agenda de crescimento?)

ESTADO DE SÍTIO: Índice de intervencionismo (2)

Na sequência do cálculo do índice de intervencionismo, medido pelo número de decretos-leis publicados nos 6 primeiros meses de governação, resolvi recalcular esse índice considerando desta vez todas as ejaculações do órgão legislativo governamental, sob a forma de decretos-lei, decretos, decretos regulamentares e portarias no final dos primeiros 12 meses de governo central.

A contagem confirmou a mesma hierarquia da obsessão legiferante dos governos, com o governo em exercício a ser o menos interventivo. Valha-nos isso, porque o menos é mais, neste caso e em muito outros.

27/07/2012

SERVIÇO PÚBLICO: Podia ser muito pior

O que mostra a Síntese da Execução Orçamental de Julho da DGO referente ao 1.º semestre? Em primeiro lugar e apesar dos sinais de derrapagem do 1.º trimestre, o objectivo do défice do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF), vulgo MoU, foi cumprido, tendo ficado 262 milhões abaixo do limite previsto, apesar da quebra dos impostos indirectos. É claro que não fossem as receitas dos fundos de pensões transferidos para a Segurança Social teria sido um desastre, mas isso já se sabia e estava previsto no orçamento.

Resumo do Quadro da pág. 4 da Síntese
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Não há muitos sinais positivos relativamente a 2011, mas há alguns do lado da despesa corrente que diminuiu 160 milhões, apesar do aumento de 780 milhões das transferências correntes destinadas ao SNS, para pagamento de dívidas de anos anteriores e à Segurança Social para financiamento das pensões dos bancários. Mas a verdade é que esta redução da despesa corrente deve-se muito à suspensão irrepetível do subsídio de férias. Relativamente positivo é o decréscimo de 243 milhões na aquisição de bens e serviços.

Em resumo, está tudo preso com cordéis porque poucas reformas de emagrecimento do Estado tiveram lugar e ainda assim não estão a produzir efeitos significativos. Se amanhã o PS voltasse a desgovernar este país, encontrava quase tudo na mesma e encarrilava o seu comboio despesista nos carris do caminho para a insolvência em poucos meses.

26/07/2012

A liberdade no comércio internacional segundo o governo socialista francês

«Actos de concorrência desleal é como o ministro da Indústria, Arnaud Montebourg, classifica o facto das fabricantes sul-coreanas terem aumentado em 40% as exportações para a Europa, depois da assinatura do acordo de livre comércio em 2010. "Somos forçados a exigir à Comissão Europeia medidas de vigilância [contra a Coreia do Sul] que nos permitam eventualmente avançar com uma cláusula de protecção", avançou o governante durante a apresentação do novo plano de incentivos ao sector automóvel.»

O ministro francês devia prestar atenção ao que disse no princípio deste ano Pierre Lellouch, o anterior secretário de estado do Comércio Externo, que atribuiu o défice externo crescente à «de-industrialization and the decline of the French competitiveness, international oil prices and a stronger euro reasons are of secondary importance». Deveria igualmente prestar atenção ao crescimento no ano passado de 30% das exportações francesas para a Coreia do Sul.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Os especuladores e os reformados

«Para ilustrar esta ideia (manipulação das massas através da manipulação da linguagem), recupero um exemplo dos títulos que se podiam encontrar no início da escalada das taxas de juro no Sul da Europa: "Os especuladores atacam sem piedade os mercados de dívida dos países mais enfraquecidos". Mas, no centro da Europa, ao mesmo tempo e para noticiar o mesmo facto, podiam ler-se coisas como: "Os reformados exigem para as suas poupanças maiores taxas de juro aos países governados por políticos incapazes e corruptos".»

«Engenharia semântica», Xavier Rodríguez Martín no Diário Económico

Os detractores do desconto do Pingo Doce são inimigos dos trabalhadores

Lembram-se do desconto que a cadeia Pingo Doce deu aos seus clientes no Dia do Trabalhador? Sabem quem são esses clientes? Na sua maioria são trabalhadores e outros explorados pelo capitalismo, já que a classe média alta e a esquerdalhada compram as suas mercearias nos supermercados do Corte Inglés.

Lembram-se das reacções a essa promoção de jornalistas, leitores de jornais, sindicalistas, pensadores de todas as correntes, sociólogos, opinion dealers, ministros, políticos de vários quadrantes, os combatentes da ASAE, deputados da nação e muitos outros ilustres, culminando com a ministra socialista Cristas a prometer regular a coisa?

Pois sabe-se agora que a promoção custou à Jerónimo Martins 10 milhões de euros, quantia que no final representou duas coisas boas para os trabalhadores numa só, a saber: uma redução das suas facturas alimentares e prejuízos para os capitalistas. De onde se conclui que quem esteve contra a promoção é inimigo dos trabalhadores.

25/07/2012

BREIQUINGUE NIUZ: Zorrinho desalinhado com Hollande

Logo após a sua nomeação como primeiro-ministro de François Hollande, Jean-Marc Ayrault deu como orientação aos seus ministros:
«Mais il s’agit de parler quand on a quelque chose à dire et non pas de se lancer dans une quête frénétique des médias.»
Um belo conselho que Carlos Zorrinho não seguiu, mais uma vez.

O bastonário dos médicos faz o dos enfermeiros parecer um génio


«A Ordem dos Médicos recorda que os médicos fizeram greve em defesa do Serviço Nacional de Saúde, das carreiras médicas e das contratações públicas dos médicos, precisamente para lutar contra estas situações anómalas, embora pouco frequentes, que são consequência da empresarialização dos hospitais e da introdução de regras de mercado na saúde, defendidas por ministros neoliberais», foi a bastonada de José Manuel Silva a propósito do conhecimento da batota dos médicos com vários contratos que se seguiu ao conhecimento da batota das receitas falsas para exportar medicamentos.

SERVIÇO PÚBLICO: A folga

Fonte: Eurostat newsrelease euroindicatores 23 July
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Como chegámos aqui? Foi um longo caminho. Durante a maior parte desse caminho temos vindo a tocar a sirene no (Im)pertinências com centenas de posts. Aqui vai uma boa síntese do professor Avelino de Jesus.

«Entre 1995 e 2000, Portugal manteve uma dívida pública, em percentagem do PIB, substancialmente inferior à média da Europa. O grande salto para o endividamento faz-se no período 2000 a 2008, antes da crise internacional.

Corre por aí uma lengalenga de embalar: o grande endividamento público português teria resultado da necessidade de responder à crise internacional. O "mau comportamento" dos agentes privados (banca incluída) provocou a crise à qual os poderes públicos acorreram, aumentando a despesa e dívida públicas para suportar os encargos sociais acrescidos pela crise e estimular a economia. Estaria aí a explicação para o crescimento desmesurado da dívida.

Esta explicação para o enorme endividamento público não é correcta, nem para Portugal nem para a Europa em geral. Mas, se para a Europa os números parecem ilustrar a narrativa – obrigando a uma refutação mais demorada - para Portugal nem isso.


Em Portugal, houve um aumento autónomo da despesa pública que não foi provocado pela despesa privada e pela crise. O fenómeno verificado na Europa também se verificou aqui, mas ele sobrepõe-se, acumula com um anterior e enorme crescimento da dívida pública.

O grande arranque da dívida pública portuguesa dá-se a partir de 2000 e não apenas, como na Europa, após 2008.

Só em Portugal (42,1% contra 40,8%) e Alemanha (10,8% contra -5,9%) o crescimento do peso da dívida pública foi superior ao da dívida privada. Em média, na União Europeia a diferença foi abissal; 0,5% contra 43,4%.

Na Europa, o crescimento da dívida pública em 2008-2011 parece ser consequência da dívida privada de 2000-2008. Mas em Portugal há uma autonomia clara do crescimento da dívida pública que vem de 2000-2008.

24/07/2012

Bons no género mau

O Conselho Superior da Magistratura avaliou no ano passado 389 juízes, dos quais 110 com «Muito Bom (nota máxima), 135 com «Muito Bom» e dos restantes 144 apenas 2 foram classificados com «Medíocre».

Poderia o Conselho Superior da Magistratura ter a bondade de explicar porquê um corpo de juízes composto essencialmente por criaturas de grande proficiência produz uma justiça tão ronceira e deixa os tribunais atafulhados de processos?

França a caminho de ser a China da Europa?

Por um lado a Peugeot pretende fechar a fábrica de Aulnay em França, intenção que M. Hollande numa entrevista no 14 Juillet classifica como «inacceptable (et que) l'État ne laissera pas faire», por outro assina um acordo para produzir furgões para a Toyota na fábrica de SevelNord (uma parceria com a Fiat que será terminada).

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Eu diria mesmo mais, que se lixem as eleições

«Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal», disse Pedro Passos Coelho no jantar do grupo parlamentar do PSD.

Pode-se pensar o que se quiser de PPC, mas a verdade é que só há duas possibilidades: ou o homem está a dizer o que pensa ou é burro.

PUBLIC SERVICE: Taking the same medication that made them sick will possibly make them sick again soon

New crash coming before Bernanke leaves Fed by early 2014

The next “collapse will come on Bernanke’s watch.” Warning to investors: Bernanke’s second four-year term as chairman of the Fed ends Jan. 31, 2014. (He will remain a board member until 2020.)

Get it? There will be another crash. The crash will ignite before 2014 when Bernanke’s term ends. The crash will be worse than 2008. Bernanke will be the cause. He will be clueless about the unintended consequences of his policies (like his predecessor Alan Greenspan, who ultimately had to admit to Congress “I really didn’t get it until very late.”)

23/07/2012

Recomendação ao líder do Partido Socialista (uma vez sem exemplo)

Independentemente de não me identificar com os pressupostos da resposta do professor Cavaco Silva à pergunta do SOL «É a favor dos eurobonds?», já aqui deixei uma recomendação a António José Seguro para a ler atentamente porque a sua visão a este respeito não é muito diferente de Cavaco Silva e evitará fazer má figura repetindo as patetices habituais e insultando a inteligência dos seus apoiantes (que, enfim, não será muita). Aqui fica a resposta, na esperança de algum assessor distraído por aqui passar.

«Os eurobonds são uma resposta adequada para a resolução da crise da zona do euro. Só que vão requerer um aprofundamento da integração orçamental e vão eventualmente implicar a alteração da arquitetura institucional da União Europeia. E isso significa alteração dos Tratados. A saber: o que será necessário transferir da competência dos Estados para uma instituição europeia?

Quem determina, por exemplo, a dívida que vai ser emitida para um certo Estado? O que está em causa é uma emissão comum de dívida para a Europa. Portanto, tem de existir uma instituição que diga que a Itália pode emitir 'x', a Espanha 'y' e Portugal 'z'. Com certeza que essa instituição vai exigir garantias muito fortes para que aqueles que emitiram dívida paguem na data adequada os seus juros ou amortizações. Ora, isto significará a transferência, para um nível central, de competências em matéria de emissão de dívida por cada um dos países.

No último Conselho Europeu foram discutidas linhas de orientação para um roteiro a médio e longo prazo para a DE. O presidente do Conselho foi encarregue, juntamente com o presidente da Comissão e o presidente do Banco Central Europeu, de apresentar esse roteiro. Já existe acordo de que a Europa precisa de muito mais integração financeira. É a união bancária, que tem três elementos, mas agora só houve a coragem de avançar com um: a recapitalização direta dos bancos por parte do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira.

Há outros dois elementos nos quais ainda não se tocou: a garantia comum de depósitos e um fundo de resolução de crises. E, para termos eurobonds, é preciso avançar muito mais na integração orçamental, o que significa dar a uma entidade (há quem fale num Tesouro Europeu) competências para interferir mais do que hoje nas políticas orçamentais dos Estados-membros. E isto para garantir que nunca estará em causa o cumprimento das obrigações desses países quanto ao pagamento de juros e amortizações das emissões conjuntas de dívida.

Diz-se agora que esse é um problema a encarar daqui a uns dez anos, quando eu cheguei a ouvir líderes europeus dizer que isso era possível quase no próximo mês... Sou favorável a essa emissão comum da dívida, mas vai levar tempo

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (28)

22/07/2012

CASE STUDY: Estava escrito nas estrelas (2)

[Continuação daqui]

Já se sabia, pelo menos desde 1961 (Robert Mundell, «A Theory of Optimum Currency Areas»), que uma zona monetária para ser óptima precisa cumprir um certo número de condições. Esqueçamos, por agora, todas as outras e concentremo-nos na mobilidade da mão-de-obra que no caso da EU27 apresenta ainda barreiras culturais e administrativas (acesso condicionado a muitas profissões, sistemas de segurança social heterogéneos, etc.), e obviamente linguísticas (mais de 20 línguas diferentes), que constituem obstáculos poderosos.

CASE STUDY: Elefantes brancos em Espanha (19)


Aeroporto de Pamplona-Noain
Foram torrados 44 milhões na modernização de um aeroporto projectado para 2,5 milhões de passageiros por ano que só recebe 33 mil e que registou 200 cancelamentos de voos num ano devido a neve por não estar dotado de um sistema de aterragem por instrumentos (ILS). Mais informação aqui.

[Da colectânea apócrifa «ESPAÑA PAIS DE MILLONARIOS» dos resultados (principalmente, mas não só) do socialismo ibérico em Espanha]

21/07/2012

¿Por qué no te callas? (11) – Convicção ou conveniência?

O que terá levado o professor Cavaco Silva a dizer numa entrevista ao Sol quase tudo diferente, e nalguns casos o contrário, do que tem dito nos últimos tempos? O que o terá levado a suspender a representação do papel de «provedor dos mais fracos, o provedor das angústias e das aspirações dos portugueses», de defensor da «agenda do crescimento»?

O que o terá levado a rejeitar a procrastinação do ajustamento orçamental? A defender o crescimento assente nas exportações e nas empresas privadas, a recusar o crescimento fundado no investimento público, a explicar que o seu discurso da «equidade horizontal» tinha sido na sua «qualidade de professor catedrático de Economia Pública»?

Sem querer ser pobre e mal agradecido ou fazer como Zorrinho que se queixa da doença e do remédio, saúdo este novo discurso do presidente, mas aos meus botões digo baixinho: acredito pouco em conversões e receio que se trate de um ajustamento táctico antecipando o que ele talvez veja como os prováveis resultados a prazo das políticas do governo.

Aproveito para registar a abordagem lúcida, realista e politicamente sustentada da questão das eurobonds que recomendaria ao líder do PS para estudar atentamente, evitando assim dizer as patetices habituais a respeito da mutualização da dívida. Ao lança-chamas não valerá a pena recomendar nada porque é um caso irremediável de esquerdismo senil.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (27)

20/07/2012

Bons exemplos (34) – Rajoy deveria aprender com Portugal, diz a Reuters

Num artigo de análise, a Reuters conclui que Rajoy deveria aprender com Portugal e abandonar o «tom desafiante e nacionalista» e deixar de enviar «mensagens confusas» aos mercados e tornar clara de quem é a responsabilidade pela política económica e orçamental.

O artigo tem implícita uma apreciação positiva do papel do governo, precisamente pelas mesmas razões pelas quais é duramente criticado pela oposição liderada por Mário Soares, o «lança-chamas» como Tavares Moreira apropriadamente baptizou a criatura.

Por falar em Mário Soares, compare-se o seu papel de porta-voz da oposição e o seu chafurdar na pequena chicana política com o papel de ex-presidentes a sério em países a sério. Alguém deveria ajudar o homem a sair disso com dignidade.

CASE STUDY: A supervisão bancária europeia (1)

[Este é o primeiro de alguns posts sobre falhas da supervisão bancária portuguesa e europeia, e os desafios e obstáculos para um supervisor único pôr ordem na caserna]

«The euro zone is belatedly moving to some form of “banking union”. A single supervisor could end the cosseting of banks. Direct recapitalisation by rescue funds would be a big step towards risk-sharing. But why has it taken so long to address the banking crisis? In part, because banks in Europe are treated as national champions. They are large in relation to GDP, and have a bigger share of lending in Europe than in America. Some banks have been a source of patronage and influence for local politicians.

National regulators have too often buried skeletons, not least to avoid intrusion by the commission’s competition watchdog, which demands restructuring of banks that receive state aid. The talk in the commission is that, of 45 banking cases it has looked into, 44 involved overestimation of assets by national regulators, probably to mask the scale of assistance. The new EU-wide supervisor, the European Banking Authority, has not done any better. Its stress tests gave a clean bill of health to banks that were later poleaxed in Belgium, Spain and Cyprus.

It is only now, nearly four years after the collapse of Lehman Brothers, that the commission has issued a proposal for an EU-wide system of restructuring and winding up failing banks, to take effect in 2018. Michel Barnier, the French single-market commissioner, said he did not want to rush his bank-resolution proposal. Yet many think that had such a system been set up sooner, Spain’s banking troubles might have been mitigated

«Euro snakes and ladders», Economist, Jul 14th 2012 | from the print edition

19/07/2012

A maldição da tabuada (11) – se não sabes fazer contas, não devias ser jornalista

Para combater a evasão fiscal, o governo aprovou um novo benefício fiscal de 5% do IVA pago e documentado com facturas em despesas de restauração, manutenção e reparação da habitação e de automóveis, cabeleireiros, etc., até ao limite de 250 euros por ano.

Há duas coisas evidentes nesta medida: primeira, é provavelmente inútil em termos práticos porque equivale a escolher entre escapar ao IVA e pagar 95% do IVA nesse tipo de despesas, como aliás se viu com uma medida similar em 2003 de Manuela Ferreira Leite que foi um fiasco; segunda, é um benefício regressivo porque são as famílias com maiores gastos (e maiores rendimentos) que podem ter um benefício inferior a 5% do IVA pago. De facto, como é fácil verificar, o máximo do benefício de 250 euros é atingido com despesas anuais de 21.739 euros (21.729x23%x5% = 250 euros) ou 1.811,58 por mês.

CASE STUDY: Elefantes brancos em Espanha (18)

Hospital Universitário Central de Astúrias
«É um hospital, mas a verdade é que se trata de construí-lo e demolir o que existe actualmente, na outra extremidade de Oviedo. Além disso, o novo terá menos camas, mas sim, será mais moderno. Do total dos 205 milhões inicialmente orçamentados, incluindo flautas e apitos já vai num custo total estimado de 1.700 milhões…. Diz-se que o PSOE o inaugurou cinco vezes. Em cinco outras vezes foi inaugurado por Cascos (presidente das Astúrias), e vão 10

[Da colectânea apócrifa «ESPAÑA PAIS DE MILLONARIOS» dos resultados (principalmente, mas não só) do socialismo ibérico em Espanha]

Conversa fiada (8) – queixando-se da doença e do remédio

Zorrinho nas Jornadas Parlamentares do PS em Abril:

«Este Governo está cada vez mais isolado e mostra-se arrogante, sem capacidade de diálogo construtivo com os parceiros sociais e com o PS

Zorrinho 3 meses depois, em resposta ao pedido do PSD para apresentar propostas para o OE 2013:

«É no mínimo estranho que um Governo que tem maioria absoluta se sinta incapaz de assumir a realização do Orçamento do Estado, o PS tem sempre dado contributos, … , agora, não seremos coautores do Orçamento do Estado.»

18/07/2012

BREIQUINGUE NIUZ: O doutor Soares foi à pitonisa

O doutor Soares consultou a pitonisa que lhe revelou em primeira e única mão que «a maioria da população está a reclamar» um novo governo e que a «Europa pode sair da crise com a condição de crer em si mesmo». Se tivesse consultado a pitonisa oportunamente, Soares ter-se-ia poupado à humilhação dos 14,3% nas eleições presidenciais de 2006 e teria percebido que o PS perderia as eleições legislativas de 2011.

Falando sobre o passado, sem a ajuda da pitonisa, presume-se, Soares classificou a licenciatura de Relvas como «uma coisa que é inaceitável para qualquer pessoa de bem» - classificação com que só posso concordar. Não se conhece a opinião de Soares sobre a licenciatura de Sócrates na Universidade Independente e a visível falsificação do certificado.

Mito (80) – Os pobres revoltam-se

«Uma das coisas que hoje fica bem é dizer, com ar sério, que os "sacrifícios atingem sobretudo os mais vulneráveis". Com esta expressão, é suposto estarmos a referir-nos aos pobres e desprotegidos. Mas aqueles que vemos a fazer greve, a marchar e a gritar nas ruas nunca são os mais pobres e desprotegidos - são, pelo contrário, aqueles que melhores condições de trabalho têm em Portugal. Profissionais dos serviços públicos de saúde ou de ensino, trabalhadores das empresas públicas de transportes - tirando as manifestações e greves políticas do PCP, têm sido esses os grandes contestatários do regime.

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: A tradição já não é o que era (2)

Actualização deste post.

Desde as suas origens, remontando a 1880, a IBM, durante décadas a maior empresa de tecnologias de informação e ainda hoje uma das maiores, sempre foi dirigida por homens – a IBM e quase todas as empresas, reconheça-se. A partir de 1 de Janeiro (de 2011) o actual CEO Sam Palmisano será substituído por Virginia Rometty a primeira mulher ao leme da IBM, juntando-se a Ursula Burns da Xerox e a Meg Whitman ao volante da HP, onde já tinha estado Carly Fiorino há meia dúzia de anos.

Estamos a atingir o limiar da completa emancipação da mulher no mundo dos negócios, que para Simone Veill seria alcançada quando uma mulher incompetente sucedesse a um homem competente – uma sucessão parecida com a aconteceu na HP em que Mark Hurd, um notável líder corrido por ser femeeiro, foi substituído primeiro por Léo Apotheker, vindo da SAP, e a seguir por Meg Whitman vinda de Ebay.

Agora foi a vez de Marissa Mayer, uma das vice-presidentes da Google, ser nomeada CEO da Yahoo e, acredite-se ou não, grávida de 6 meses. Não sei se aquecerá o lugar, não por falta de competência, mas porque os accionistas da Yahoo parecem não saber bem o que querem – Marissa é a 5.ª CEO nos últimos 5 anos e a 3.ª nos últimos 12 meses.

Não é extraordinário que na Europa das quotas até hoje não se vêem mulheres no topo das grandes multinacionais?

17/07/2012

O barulho do bispo é menos significativo do que foi o seu silêncio (2)

Outros barulhos: (1)

Não me recordo de ouvir o bispo das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, protestar pelos «jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção», nem contra «tipos … equívocos, … [lutando] pelos seus interesses, … [com] o seu gangue, … [e] o seu clube, … [pressionando] a comunicação social».

Não me recordo desses protestos nem podia recordar-me. Segundo o major-general-bispo: «os anteriores [membros do governo], que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer.»

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Ir a buscar lana y volver trasquilado

Secção Albergue espanhol

Depois da experiência de 8 anos de governos socialistas a criar elefantes brancos por toda a Espanha, o governo Rajoy decidiu patrocinar a candidatura de Madrid aos Jogos Olímpicos de 2020 com o pressuposto que ajudará a recuperação económica e social e a combater o desemprego. Ora, como está bastantemente comprovado, até hoje nenhum «investimento» na organização de jogos olímpicos de inverno ou de verão, campeonatos regionais ou mundiais do que quer que seja se mostrou reprodutivo. O impacto na criação de emprego é temporário e usa competências que a seguir à festa não têm procura e o «investimento» em infraestruturas vem a revelar-se completamente inútil e incapaz de gerar retorno. Realizar estes eventos poderia ser substituído por uma fracção do preço por uma solução keynesiana, mais depurada e eficaz, como, por exemplo, contratar uns milhares de desempregados e indignados para abrir buracos nos baldios e de seguida tapá-los – à pazada para dar mais emprego.

Os nossos vizinhos estimam torrar 2 mil milhões de euros, possivelmente esquecendo que Londres começou com um orçamento de 6,7 revisto em 2007 para 11,8 e este ano para 14 mil milhões de euros. Os 2 mil milhões madrilenos a uma latitude mais a norte transformar-se-iam em 5 e dilatados pelo calor de Madrid e pela bazófia espanhola ainda irão bater nos 10 mil milhões de euros, assim haja dinheiro para torrar. Quem se mostrou mais assisado foi Mario Monti que retirou em Fevereiro a candidatura italiana. (Fonte: WSJ)

Nas olimpíadas do (Im)pertinências o governo espanhol ganha 5 chateaubriands por não fazer ideia do tiro que vai dar nos pés do povo espanhol e por, sendo um governo PP, fazer de conta que é um governo PSOE no seu pior. Rajoy ganha ainda 3 bourbons por isto e por aquilo mostrar não aprender nada.

BREQUINGUE NIUZ: Tribunal Constitucional declara estado de sítio e substitui o poder executivo

O TC tinha 2 abordagens lógicas à suspensão do 13.º e do 14.º meses de alguns funcionários públicos e reformados. A primeira que o governo e muita gente esperavam era a de pragmaticamente ignorar a letra (e o espírito) da Constituição, considerar esta medida como indispensável para cumprir um acordo que o governo de Sócrates assinou e o actual confirmou e não declarar a sua inconstitucionalidade.

A segunda seria a de respeitar a letra (e o espírito) da Constituição e considerar inconstitucional essa medida por violação do famoso princípio da igualdade do artigo 13.º da Constituição e, em consequência, deliberar a restituição dos valores não pagos em 2012. Adoptando esta abordagem, para ser consistente, o TC deveria desde logo, baseado nesse princípio, considerar inconstitucional a não aplicação da suspensão a todos os funcionários públicos e reformados.

Em vez disso, o TC escolheu o pior das duas abordagens, como aqui escrevi, equivalente a declarar o estado de sítio em 2012, única situação em que os direitos podem ser suspensos.

Depois de ter tomado o lugar do parlamento, declarando o estado de sítio, o TC pela boca do seu presidente vem agora substituir o poder executivo dando palpites completamente ridículos sobre a despesa a cortar e os impostos a agravar, nomeadamente os impostos sobre os rendimentos dos capitais.

Eu sei que tudo isto parece surreal, mas a verdade é que esta é a Constituição que temos e vejo com dificuldade defender o primado da lei e violar a lei fundamental. De onde se conclui se a revisão da Constituição nas circunstâncias actuais da crise mais profunda das últimas décadas, poderia parecer uma questão exegética, talvez não seja, visto que acabámos de ser atropelados pela falta de exegese.

16/07/2012

Os melhores CEO são os do regime

O diário económico do regime colocou à votação o melhor CEO do PSI 20. Entre os 5 mais votados encontramos 3 CEO do regime e 2 deles com um pé na política e outro nos negócios, ou, como diz o povo, um olho no burro e outro no cigano. O n.º 1 até recentemente era o melhor CEO das empresas com quase-monopólio estatal na área da energia. Soares dos Santos (3.º) e os 3 do grupo SONAE (5.º, 9.º e 10.º) mostraram uma grande displicência a mobilizar os seus empregados para votarem.

NÓS VISTOS POR ELES: Fintar se possível, adiar sempre


«Vocês já sabem a prescrição, mas esperam sempre por outra solução que não requeira a determinação e a coordenação que é necessária

Albert Jaeger, responsável da equipa residente de FMI à Revista do Expresso

Mitos (79) – Juros usurários

Quando se pergunta a um prosélito do «crescimento», naturalmente adversário da «austeridade», quais as medidas que tomaria para substituir a segunda pelo primeiro, todas as medidas apontadas consistem em algo que a Alemanha, ou a União Europeia ou a Zona Euro, ou seja «eles», terão que fazer.

Invariavelmente o que «eles» têm de fazer inclui reduzir os «juros usurários» (professor Louçã, professor Marcelo, constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos, camarada Jerónimo de Sousa) ou os «juros altíssimos» (doutor Mário Soares).

O facto de este mito não resistir a 5 minutos de análise e, apesar disso, ser artigo de fé da maioria dos opinion dealers com lugar cativo nos mídia e, por essa via, possivelmente de muitas pessoas, mostra bem a eficácia dos mecanismos de manipulação e o estado de espírito das massas lusitanas sempre dispostas a encontrar uns «eles» a quem se possa assacar responsabilidades pelas nossas misérias.

Diagrama de LR publicado no post «A factura dos juros» no Blasfémias

15/07/2012

Put your money where your mouth is

«Temos de pôr na agenda, o investimento, o crescimento e mobilizar a sociedade. … Falta pôr na agenda mais investimento produtivo. Há muita coisa que se pode fazer e que não está a ser equacionada» disse ao Expresso José Maria Ricciardi presidente do BES investimento e um dos banqueiros do regime.

Alguns valores que demonstram a agenda de apoio ao investimento produtivo em Portugal do BES: (*)
  • Crédito interno a empresas 13,7 mil milhões, dos quais uma parte não revelada a empresas públicas
  • Obrigações de emissores públicos 6,5 mil milhões, dos quais uma parte não revelada do Estado português
(*) Notas explicativas das demonstrações financeiras consolidadas em 31-12-2011

Pobres, desiguais e imóveis

«Globalmente, a fração de desigualdade que assume uma natureza permanente é assim bastante elevada em todos os países da UE. Portugal é um dos países com menor diminuição da desigualdade quando se agrega informação de rendimento relativa a vários anos. Nos países da UE, não existe uma relação entre o nível de desigualdade e o contributo da mobilidade do rendimento para a diminuição da desigualdade. Portugal é um exemplo extremo neste âmbito, dado que conjuga níveis de desigualdade particularmente elevados com contributos relativamente baixos da mobilidade para a diminuição da desigualdade.»

MOBILIDADE E DESIGUALDADE DO RENDIMENTO NA UNIÃO EUROPEIA E EM PORTUGAL, Nuno Alves e Carlos Martins, Boletim Económico - Verão 2012 do BdeP

Por falar em desigualdade, lembrei-me de uns diagramas de Jorge Vasconcellos e Sá publicados num seu artigo no SOL, providencialmente guardados na minha Torre do Tombo. Apesar de terem 2 anos, os dados não deverão ter tido alterações significativas e o que mostram está em linha com as conclusões do estudo do BdeP.

ARTIGO DEFUNTO: Expresso em formato "broadshit" (2)

«Os “casos” de Miguel Relvas … não … fazem parte de nenhuma conspiração» garante o editorial do Expresso. Esforço-me por acreditar, apesar de uma crescente falta de fé. Em todo o caso, o Acção Socialista de ontem dedica ao caso do diploma facilitado a Relvas pela Lusófona as seguintes peças:
  • Página 3: 90%; «Passos não remodela Relvas sob pressão»; «Os vendedores de passados»
  • Páginas 4 e 5: 100%; «Reitor avaliou Relvas à parte do resto da turma»; «O Expresso, a Lusófona e Miguel Relvas» (Nota de Direcção com Rectificação a branquear as argoladas da semana passada)
  • Página 6: 20%; «Duas cadeiras em falta»
  • Página 7: 100%; «Sábados tranquilos» (coluna de Miguel Sousa Tavares)
  • Página 16: Piadas sobre relvas na «Gente»
  • Página 32: 10%; «Fazer de vítima» (editorial)
  • Página 33: «Refém de Relvas» (1/4 do panfleto de Daniel Oliveira)
Contrastando com esta pletora informativa e sobretudo opinativa sobre este caso, não se encontra uma única linha dedicada ao julgamento do caso Freeport que decorre no Barreiro, onde todos os dias se fala num Pinóquio, em ministros e, frequentemente, in nomine no próprio de cujus ausente em Paris.

14/07/2012

ESTADO DE SÍTIO: Está tudo explicado - é o avental

Segundo a Sábado (*), «Miguel Relvas e Manuel Damásio, presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona, pertencem ao Grande Oriente Lusitano (GOL)». Algumas lojas do GOL têm relações estreitas com a loja Mozart da Grande Loja Legal de Portugal a que pertencem os cabecilhas da Ongoing.

Está explicado o aparente mistério das equivalências a 32 das 36 cadeiras: foi considerada a frequência de lojas e o uso de aventais.

(*) Espero que a Sábado não partilhe o mesmo rigor, independência e apego à verdade do Expresso.

13/07/2012

O SNS poderá falecer dos cuidados intensivos

As greves dos médicos e dos enfermeiros são anunciadas para defesa do SNS. Parece paradoxal mas talvez não seja. Afinal o SNS existe para os médicos e os enfermeiros pela mesma razão que o ministério da Educação existe para os professores: para lhes dar emprego.

E para defender o SNS todas os pretextos são bons. Como, por exemplo, as queixas do bastonário da Ordem dos Enfermeiros da «exportação» de enfermeiros para o estrangeiro ao ritmo de 10 por dia, queixas partilhadas pelo bastonário dos Médicos.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (26)

(Este exemplar ficaria melhor na colecção de arte rural)

12/07/2012

Como resolver o problema dos mineiros espanhóis?

Acossado pela necessidade de contenção orçamental, o governo espanhol pretender cortar 63% dos subsídios o que, segundo os mineiros, causará o fecho de minas de carvão nas Astúrias, Leão, Aragão e Castilha-Mancha.

Porque precisam as minas de carvão de ser subsidiadas? Porque os seus custos de produção são superiores aos preços de mercado actuais do carvão. Fixar preços administrativos para o carvão e construir novas centrais térmicas a carvão ou reactivando as encerradas, obrigando-as a utilizar o carvão dessas minas, além de não ser possível face às regras do mercado único, teria um impacto negativo no aumento dos custos de produção industriais que acabaria por ser transferido para os consumidores, sem falar da redução da competitividade das exportações espanholas.

É claro que a solução óbvia será encerrar as minas, pelas mesmas razões que não faria sentido para manter o emprego dos operários da construção civil, extorquir mais dinheiro aos contribuintes e subsidiar a construção de casas que ninguém compra. Em alternativa, sempre se pode desviar uma parte dos subsídios às energias renováveis para manter as minas de carvão abertas.

Entretanto, a manifestação de mineiros ontem em Madrid fez 76 feridos dos quais apenas 2 mineiros, segundo o insuspeito El País. De onde parece razoável concluir que a manifestação teria mais activistas variados, tais como maninfesteiros e profissionais da indignação, do que mineiros propriamente ditos.


Mineiras em acção (WSJ)

SERVIÇO PÚBLICO: O princípio do princípio (6)

[Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)]

A nossa dívida externa líquida ultrapassa os 250% do PIB, é praticamente igual à da Grécia e a maior dos últimos 120 anos, com a preciosa ajuda de praticamente todos os governos democráticos, com destaque para os 2 governos Sócrates. Chegámos aqui percorrendo um caminho de décadas com défices do comércio externo quase nunca inferiores a 5% do PIB e por vezes ultrapassando os 10%. Durante todos estes anos, poucas foram as almas, e já nem falo dos 200 palhaços que têm lugar cativo na televisão, que apontaram o dedo ao desfecho inelutável do resultado de colecionar défices.

Por devoção à verdade, diga-se que apesar de a «pesada herança fascista» nos ter deixado umas contas públicas de boa saúde e umas reservas de ouro e divisas que nos permitiram pagar as importações durante a baderna do PREC, tal deveu-se essencialmente às remessas dos milhões de emigrantes portugueses. De facto, a nossa balança de bens e serviços tem sido desde 1943 sistematicamente deficitária.

11/07/2012

Adivinha

Que tipo de organização poderia ter divulgado um comunicado onde se lê: «Face à actual situação inadmissível existente no Serviço Nacional de Saúde [a/o ... manifesta] o seu apoio e solidariedade à justa e oportuna acção de luta que as estruturas sindicais representativas dos médicos realizam hoje e quinta-feira»?
  • Célula do PCP no ministério da Saúde
  • Sindicato dos Enfermeiros
  • Sindicato dos Enfermeiros Portugueses
  • CGTP
  • Nenhuma dos anteriores
  • Não sei
Se escolheu uma das duas últimas opções acertou. Se escolheu uma ou várias das restantes, também acertou. No caso de ter escolhido a quinta, talvez saiba que desta vez foi o MUSS que assinou o comunicado.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O princípio de presunção da inocência como princípio de gestão

Secção Musgo Viscoso

Durante as inspecções ao BPN foram identificados 17 quadros suspeitos de práticas irregulares agora sancionados pelo Banco de Portugal. À época o BPN já se encontrava intervencionado com uma administração nomeada pelo ministério das Finanças. O que teria feito uma gestão prudente? No mínimo, suspendê-los das funções que desempenhavam. O que fez a administração, que incluía Francisco Bandeira, eminência parda de José Sócrates na CGD? Decidiu manter em funções esses quadros.

Costa Pina, ex-secretário de Estado do Tesouro e das Finanças de Teixeira dos Santos, tutela do BPN, durante a audição na comissão de inquérito parlamentar explicou que ele não tinha nada a ver com isso por ser matéria «estritamente de gestão … sendo certo que vigora o princípio de presunção da inocência até condenação ou até prova em contrário». Costa Pina não teve oportunidade de explicar se esse princípio também se aplicaria a Oliveira e Costa,  demitido e preso preventivamente apesar de não ter sido ainda condenado.

Saindo tais justificações da boca de um ex-membro de um governo pródigo em intervenções em matérias «estritamente de gestão», é justo premiá-lo com 2 afonsos pela ousadia e 3 ignóbeis pela falta de decência. Em complemento, leva ainda 5 chateaubriands por não ter ainda percebido a diferença entre uma sala de administração e uma sala de audiências, apesar da sua experiência empresarial na Ongoing e na Galp Energia.

10/07/2012

Lost in translation (152) – O ministério da Educação existe para dar emprego aos professores, disse ele por outras palavras

Mário Nogueira, o sindicalista funcionário do PCP em serviço na FENPROF sem dar aulas há 20 anos, criticou asperamente o reagrupamento das escolas que o ministério está a levar a cabo em desrespeito da «vontade das escolas, manifestada pelo seu órgão máximo» (ele próprio), irá eliminar 25 mil horários e «provocar uma catástrofe verdadeira de emprego nos professores». A FENPROF convocou uma manifestação para quinta-feira para estar ao lado dos médicos.

Enquanto isso, que tal concentrar-se nos stress tests…

Na conferência sobre o futuro do euro, Carlos Costa, governador do BdeP, defendeu a criação de uma câmara alta europeia composta por senadores nacionais. Não vou discutir a bondade da ideia, nem mesma a dificuldade de escolher tais senadores entre as múmias paralíticas que costumam ser vistas como tais pelos pensadores do regime. Vou apenas implorar ao actual governador que se concentre na supervisão para não termos outros BPN ou BPP que o seu antecessor ministro anexo nos legou, nem mesmo o Banif cujo colapso estrondoso foi salvo pelo gongo – pelo menos por agora - depois de muito latim a tranquilizar-nos sobre a saúde da banca.

09/07/2012

ARTIGO DEFUNTO: Expresso em formato "broadshit" (Actualizado)

Como aqui escrevi, a falta de decência de Miguel Relvas ao tentar e conseguir obter a licenciatura nas condições em que a obteve não o recomenda nada. O mesmo para a Universidade Lusófona ao conceder-lhe essa licenciatura.

Sendo isso insofismável, fico com dúvidas se a falta de decência do Expresso na manipulação da notícia, apressadamente ajeitada pelo comunicado, não ultrapassa as faltas de decências anteriores pelo que tem de doloso e, eventualmente, com um móbil que parece longe das preocupações de rigor e verdade com que o Expresso constantemente se baba.

[Para informação mais detalhada sobre a notícia do Expresso, ver este post Do Portugal Profundo; ver também este post do porta da loja, para se recordarem as características criminais peculiares do caso das habilitações e do diploma de José Sócrates e se perceber que os dois casos não se podem enfiar no mesmo saco; ver ainda este post de Helena Matos sobre a dualidade de critérios do Expresso a tratar os casos Relvas e Sócrates, onde aquele faz primeiras páginas e este nem sequer é mencionado quando decorre um julgamento em que se fala do ausente em todas as sessões.]

CASE STUDY: Estava escrito nas estrelas


Há 8 anos, 5 anos antes da Zona Euro começar a dar sinais de implodir, escrevia-se aqui no (Impertinências):
Ainda que a teoria económica evidencie que uma zona monetária óptima deverá ter um sistema fiscal único, também é verdade que o «óptimo» da zona monetária depende igualmente duma forte mobilidade do capital e da mão-de-obra, e, todos sabemos, que esta última defronta gigantescas barreiras linguísticas, culturais e corporativas.
Oito anos depois, os dados do desemprego regional relativo a 2011, segundo os números do Eurostat, mostram uma variação numa proporção de 1 para 10, entre um mínimo de 2,5% e um máximo de 30,4%. Uma variação tão extrema não deixa dúvidas sobre a ausência de mobilidade da mão-de-obra e, consequentemente, a falha irremediável de um dos pés do tripé que poderia viabilizar a moeda única.

(Continua)

08/07/2012

DIÁRIO DE BORDO: Number One, again

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A metadona dos bancos centrais

Chegámos à crise baptizada de subprime nos EU essencialmente depois de uma década de taxas de juro artificialmente baixas pela intervenção do FED para espevitar a economia. Essas taxas artificialmente baixas, em conjunto com dinheiro abundante proveniente da poupança chinesa tornaram o crédito artificialmente barato e ainda mais abundante pela alavancagem por instrumentos financeiros criados por aprendizes de feiticeiro. O resultado já conhecido foram as bolhas dos mercados imobiliário e de capitais que começaram a estoirar em 2007.

Nos PIIGS, o mesmo mecanismo de taxas de juro artificialmente baixas, resultante da entrada numa zona monetária artificial com taxas de juro fixadas por um banco central que seriam talvez adequadas para os outros países, mas certamente não para os PIIGS, criou as condições para a bolha de endividamento público e, consoante os países, também privado. Essa bolha estoirou, talvez precocemente, por contaminação da crise americana. Ainda bem, porque, se não fora isso, teríamos continuado o mesmo caminho e estaríamos hoje com uma dívida ainda maior.

Face a situações de desaceleração do crescimento nuns casos, ou de recessão noutros, resultantes da contracção das economias subsequente ao rebentar das bolhas criadas substancialmente pelas políticas seguidas por um banco central, num caso, e noutro caso pela própria existência de um banco central tornada necessária pela criação de uma zona monetária subóptima, o que se propõem fazer esses dois bancos centrais acolitados pelos bancos centrais britânico e chinês (este último possivelmente só a marcar presença)? Mais do mesmo, ou seja continuar a descida das taxas directoras e apimentar essa medida com quantitative easing, um termo convenientemente confuso que designa a compra de activos financeiros pelo banco central com dinheiro electrónico - um equivalente moderno a pôr as impressoras a trabalhar para fazer notas.

Ainda não saímos de uma e já estamos a trabalhar para criar a próxima. Vai acabar mal.

CASE STUDY: Elefantes brancos em Espanha (17)

Museu Pablo Serrano em Saragoça
18,8 milhões de euros para construir a cabeça de um robot do cinema japonês.

[Da colectânea apócrifa «ESPAÑA PAIS DE MILLONARIOS» dos resultados (principalmente, mas não só) do socialismo ibérico em Espanha]

07/07/2012

ESTADO DE SÍTIO: É uma questão de decência

Quanto mais detalhes da licenciatura de Miguel Relvas se conhecem mais se percebe o estado terminal de decomposição da classe política, onde pululam graus académicos tipo «novas oportunidades», de universidades onde predomina o facilitismo e dos mídia frequentemente envolvidos em causas equívocas.

Num país decente um político decente não ficaria obcecado por um diploma e, se ficasse, dificilmente encontraria uma universidade decente que se dispusesse a facilitar-lhe um. E se encontrasse uma universidade sem decência que lhe oferecesse, demitir-se-ia logo que a oferta fosse do conhecimento público.

Num país decente, jornalistas decentes não se colocariam ao serviço de causas, sobretudo causas equívocas e, colocando-se, não encontrariam mídia decentes que lhes dessem guarida. Estou a exagerar? Não me parece. Compare-se a celeridade, o grau de escarafunchamento e o destaque (por exemplo 1.ª página do Expresso de hoje) deste caso com o caso de polícia da licenciatura de Sócrates.

Aditamento:

A decência do Expresso não se reforça com comunicados como este, onde implicitamente parece reconhecer que nem todas as suas especulações são suportados pelos factos, face à ficha de aluno de Miguel Relvas, e para branquear tais especulações felicita-se por ter sido a sua publicação que levou Relvas e a Lusófona a divulgar a ficha.

Relvas e a Lusófona saem pessimamente na fotografia, mas o Expresso não sai muito melhor.

Presunção de inocência ou presunção de culpa? (6)

Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5).

Esta semana foi a vez de Rik Dattani, antigo gestor do projeto do Freeport, testemunhar no Tribunal do Barreiro que Charles Smith lhe disse que havia um pedido de «ministros» de dois milhões de libras para a viabilizar o projecto.

Quem são os «ministros»? Quem é «alguém importante»? Quem é o «Pinóquio»?

06/07/2012

BREQUINGUE NIUZ: Tribunal Constitucional declara estado de sítio


O Tribunal Constitucional respondeu ontem à pergunta retórica de Pacheco Pereira, declarando inconstitucional a suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e aposentados.

Do mesmo passo, o TC ao considerar que a inconstitucionalidade não se aplica a 2012, demonstra a mesma falta de respeito pela lei que impregna o Estado e a sociedade portuguesa. O acórdão é equivalente ao TC suspender o princípio da igualdade do artigo 13.º da Constituição, que expressamente invoca para justificar a inconstitucionalidade, por «colocar em risco o cumprimento da meta do défice público imposta nos memorandos que condicionam a concretização dos empréstimos faseados acordados com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional». Ou, dito de outro modo, é equivalente ao TC declarar o estado de sítio em 2012, única situação em que os direitos podem ser suspensos.

É como se o TC considerasse que o incumprimento da meta do défice pudesse determinar a «agressão efectiva ou iminente por forças estrangeiras, (ou a) grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública», previstas no artigo 19.º. Diria, por absurdo, se calhar poderá tem razão, mas não lhe chega tê-la porque lhe falta a legitimidade para tal decisão.

O que mostra acórdão, além da falta de respeito do TC pela Constituição? Mostra o absurdo de uma constituição que é um panfleto ideológico e um manual de organização política legitimador do statu quo saído do PREC. Statu quo que a esquerda pretende perpetuar para manter um estado colectivista onde possa prosperar e lhe proporcione abrigo para os seus apparatchiks.

Lost in translation (151) – Sócrates interrompe as aulas em Sciences Po, larga o apartamento do 16ème arrondissement e vem cá pedir desculpa ao país, queria ele dizer

«O líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, defendeu hoje que o Governo deve assumir “o mal que fez ao país” ao não prolongar o prazo para as metas do défice e que isso teria evitado medidas tão duras» (SOL), esquecendo-se que as metas do défice fazem parte do Memorandum of Understanding assinado no dia 4 de Maio de 2011 pelo XVIII Governo Constitucional do PS, chefiado por José Sócrates e composto por 37 secretários de estado e entre eles um tal Carlos Zorrinho, lui-même.

05/07/2012

Ideias para resolver o dilema dos bastonários dos médicos e enfermeiros

O bastonário dos Médicos produziu hoje um sound bite que parece funcionar como uma munição na batalha da corporação para manter os direitos adquiridos e a sua posição na teta da vaca marsupial pública, batalha que passa pela greve convocada para os dias 11 e 12. «Ao contrário de outros concursos, o dos médicos não tem um limite mínimo, o que significa que, no extremo, os médicos podem ser contratados a dois, ou três euros à hora», disse.

Na sua bastonada, poderia o doutor José Manuel Silva ter dito 20 ou 30 cêntimos, mas percebendo que o exagero exagerado poderia ter efeitos perversos, preferiu falar em números um pouco abaixo dos enfermeiros, aproveitando o vendaval mediático já desencadeado e induzindo a povinho a pensar coitadinhos dos médicos que ainda vão receber menos do que os coitadinhos dos enfermeiros.

Não me parece que este sound bite seja para levar a sério e, por isso, sugiro que os médicos a quem sejam propostos tais salários, se ofereçam como enfermeiros para receberem 3,96 € e estes se ofereçam como empregados domésticos, cujos salários por hora no mercado estão claramente acima deste valor. Essa oferta adicional de mão-de-obra cobriria assim o défice resultante do regresso en masse das emigrantes brasileiras.

Se fosse para levar a sério, deixaria a seguinte questão aos médicos e enfermeiros e a tutti quanti: como explicar que mercados de trabalho tão regulados, com profissões tão nobres, tão protegidas com ordens e sindicatos, tão cheias de direitos adquiridos e de acordos colectivos, como os dos médicos e enfermeiros, possam ter, pelo menos segundo a lengalenga corporativa, salários mais baixos do que profissionais tão humildes como os empregados domésticos, o mercado de trabalho mais desprotegido e desregulado de todos, esquecido pelos sindicatos, pelas corporações, pelos lóbis e pelo jornalismo de causas?

Lost in translation (150) – ganhar na rua o que perdemos nas urnas, queria ele dizer (II)

A propósito das declarações inflamadas de Jerónimo de Sousa, leia-se este relato de Camilo Lourenço de uma luta de massas:
«12h de 3ª feira, Largo Camões. Alguns (alguns mesmo) manifestantes estão concentrados, sossegados, no Ministério da Economia. De repente irrompem palavras de ordem, apitos e apupos. Tento perceber porquê e ouço uma manifestante dizer ao telemóvel: "Oh filha tenho de desligar; estão aí as televisões e já começaram a filmar...".»

ESTADO DE SÍTIO: Não passou o teste OQOQCP

Não faço a mínima ideia para que serve uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social composta por membros que a propósito do caso Miguel Relvas-Público fazem declarações a uma comissão do parlamento como a que se segue. A não ser que seja para obter um determinado resultado.

«Houve uma tentativa de instrumentalização dos membros do conselho regulador, indireta, triste, através do poder editorial, por quem não faço a mínima ideia, mas por quem queria que a deliberação tivesse um determinado resultado
Num passado já longínquo usou-se uma mnemónica na consultoria para se testar que algo que deveria ser feito estava suficientemente definido. Era OQOQCP significando O quê? Quem? Onde? Quando? Como? Porquê? A tentativa de instrumentalização de que Raquel Alexandra se diz vítima não passou o teste.

Pro memoria (60) – pior é difícil

Ao comentar a derrapagem da execução orçamental do 1.º trimestre, António José Seguro conseguiu de uma assentada mostrar falta de memória, dizer vários dislates e contradizer o seu discurso habitual.

Comecemos pela falta de memória. Terá AJS esquecido o seu silêncio sepulcral face às inúmeras derrapagens de Teixeira dos Santos? Veja-se, por exemplo, o défice de 2009 que começou por 2,2%, foi derrapando e quando se pensava que já teria derrapado tudo ainda teve mais uma derrapagem final para 10%. Ou veja-se o défice de 2010 que no programa eleitoral do PS de Abril de 2011 já era 6,8% e acabou em 9,8%.

04/07/2012

TRIVIALIDADES: Já era o Coelho, arrisca-se a ser também o Sócrates do PSD

Por causa das ligações equívocas entre política e negócios, Miguel Relvas já era conhecido como o Jorge Coelho do PSD. Por causa da licenciatura feita no fast track a la bolognese fez 3 anos num só na Universidade Lusófona e arrisca-se a ser o Sócrates do PSD, apesar de não serem (ainda?) conhecidas circunstâncias como a conclusão ao domingo e documentos forjados.

Tudo isto diz muito sobre esta gente que vai a correr a fazer cursos na secretaria e diz imenso sobre um país onde um diploma - com frequência apenas um atestado que legitima a ignorância - é considerado essencial para a ascensão social.

Aditamento:
Tudo isto diz também imenso sobre os jornalistas de causas e os apparatchiks do PS que ficaram calados como ratos a respeito das ligações equívocas de Jorge Coelho e das graduções na UI de José Sócrates e agora rasgam as vestes de indignação.

Dedicado às luminárias pedantes que sofreram agonias durante o Europeu 2012…

… e que parecem muito incomodadas com os milhões que alguns daqueles rapazes facturam e nada incomodadas por outros milhões. Por exemplo, pelos milhões porque são vendidos os cadáveres em formol do «artista» Damien Hirst.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (25)

03/07/2012

Lost in translation (149) – ganhar na rua o que perdemos nas urnas, queria ele dizer

«A poderosa luta de massas que por todo o país e em praticamente todos os sectores, os trabalhadores e as populações têm desenvolvido, constitui um elemento incontornável da situação em Portugal, uma demonstração do papel insubstituível da luta dos trabalhadores», disse o secretário-geral do PCP ontem no parlamento, apelando a manifestações que habitualmente têm entre umas dezenas de militantes comunistas em serviço nos sindicatos a umas dezenas de milhar de activistas e, quando o rei faz anos, uma ou duas centenas de milhar de populares ou seja entre 0,001% e 2,2% do número de eleitores inscritos, que ninguém sabe exactamente quantos sejam.

Títulos inspirados (7) - «Faculdade quer que alunos se endividem para pagar propinas»

Este é o título de 1.ª página do DN de hoje do artigo sobre uma carta que o director da faculdade de arquitectura escreveu aos alunos que não têm dinheiro para pagar as propinas, aconselhando-os a recorrer ao crédito para estudantes que os bancos oferecem com juro bonificado.

Propinas? Estamos a falar daquela pequena fracção do custo do serviço que a faculdade lhes presta, pago na sua grande parte pelos pais dos alunos que não a frequentam? Dúvidas que me assaltam: qual seria o título do DN numa notícia sobre os estudantes sem dinheiro para pagar a entrada na discoteca serem aconselhados pelo porteiro a irem pedir aos pais ou alguém que lhes empreste ou o facto de os organizadores de festivais ou os gasolineiros ou os caixas da FNAC fazerem o mesmo?

CASE STUDY: Elefantes brancos em Espanha (16)

Cúpula de Barceló na ONU em Genebra

35 mil litros de tinta para borrar o tecto mais caro (20 milhões a cargo do governo espanhol) e mais feio do mundo na sede da ONU em Genebra. Está a cair aos pedaços. Ver mais informação aqui e aqui.

[Da colectânea apócrifa «ESPAÑA PAIS DE MILLONARIOS» dos resultados (principalmente, mas não só) do socialismo ibérico em Espanha]

02/07/2012

Lost in translation (148) – O Passos Coelho sofre da minha doença, queria ele dizer

Quando António José Seguro fala no «seguidismo [de Passos] em relação às políticas da senhora Merkel», ele fala de uma doença que conhece bem: o seguidismo em relação às políticas do senhor Hollande. Seguidismo por seguidismo, parece tudo igual. Mas não é.


A senhora Merkel governa um país que é o segundo exportador mundial, com uma economia liberal sólida, desemprego baixo e finanças públicas solventes. O senhor Hollande governa um país com uma economia em recessão, fortemente dirigista, com um estado pesado, desemprego elevado e crescente e finanças públicas periclitantes e a isto o senhor Hollande está a acrescentar mais dirigismo e mais estado. Terá mais recessão, mais desemprego e piores finanças públicas. Para antecipar o resultado, podemos ver as consequências do primeiro governo do senhor Mitterrand onde aliás o senhor Hollande obteve num incógnito gabinete a sua primeira e única experiência governativa.

Uma questão de fundo


Ana Dulce Félix, campeã europeia dos 10.000 metros, com chip no umbigo

01/07/2012

CASE STUDY: Desalavancagem da dívida das famílias

Recentemente a McKinsey publicou um estudo sobre a desalavancagem da dívida das famílias em seguida à crise do subprime. O gráfico seguinte evidencia os diferentes ritmos de desalavancagem e destaca a experiência histórica da Suécia que reduziu de 32 pontos percentuais o rácio de dívida em relação ao rendimento disponível nos 7 anos seguintes a 1998.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (24)