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19/09/2012

SERVIÇO PÚBLICO: A nossa crise é um palco para o coro de lamentações

Passados 18 meses da assinatura do Memorandum of Understanding pelo governo de José Sócrates, representado no acto por Teixeira dos Santos e Silva Pereira (é sempre conveniente recordar), e de pouco mais de um ano depois da adopção das primeiras medidas, ouve-se já há meses em várias salas de espectáculos do país um coro de lamentações.

No coro, para citar só os solistas, destacam-se Mário Soares (o pai das duas anteriores intervenções do FMI em 1977e 1983), António José Seguro (o da folga que afinal se transformou um agravamento do défice) acolitado por Zorrinho, Cavaco Silva (a bocca chiusa), a soprano e os seus tenores favoritos, barítonos todo-o-terreno como Miguel Sousa Tavares e Marcelo Rebelo de Sousa, o professor Louçã, Jerónimo de Sousa, entre outros. A peça preferida do reportório é «Austerità non funziona» e entre as árias com maior sucesso encontramos «Disoccupazione cresce a macchia d'olio», «Le persone sono sempre più poveri», «Abbiamo bisogno di più soldi».

Os diagramas seguintes, extraídos de «This time is different» (*) ilustram o padrão de crises bancárias recentes desde a Europa até à Ásia, em termos de desemprego (aumento médio de 7%, duração média 5 anos), queda do PIB per capita (9% por cento na média de 2 anos), aumento da dívida pública de 86% nos 3 anos seguintes.



Se considerarmos esse padrão das crises e nos lembrarmos que a crise portuguesa é uma crise da dívida pública e privada que culmina mais de 10 anos praticamente sem crescimento com crédito abundante e barato, e se a tudo isto, que é imenso, adicionarmos um governo que é mau no género bom (segue-se a vários maus no género mau e foi o menos mau que conseguiram arranjar), talvez se perceba que no nosso caso as coisas estão para lavar e durar.

Lamentavelmente, entre as dezenas de palhaços da economia mediática a quem é oferecido tempo de antena, não me lembro de ter lido, ouvido ou visto algum a esclarecer o povo ignaro que os apertos do cinto vieram para ficar e tanto mais ficarão quanto mais os adiarmos e às reformas indispensáveis e dolorosas para a maioria das corporações que parasitam através do Estado quem produz riqueza neste país.

(*) «This Time Is Different – Eight Centuries of Financial Folly», Carmen Reinhart & Kenneth Rogoff, Princeton, 2009

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