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04/09/2012

CASE STUDY: Estava escrito nas estrelas (3)

Continuação de (1) e (2)

Pode não se concordar com a visão e as soluções propostas por Mario Draghi ou duvidar da sua viabilidade, como eu duvido, mas a sua entrevista ao «Die Zeit» é uma peça imperdível sobre o seu (e do governo alemão) pensamento para o futuro da Zona Euro e da União Europeia.

Para Draghi o futuro da Zona Euro e da União Europeia não depende, pelo menos a médio prazo, de uma união política, exigindo apenas um aprofundamento gradual da integração económica, de políticas fiscais comuns e supervisão central dos orçamentos nacionais, de políticas financeiras também comuns e de uma regulação central.

Segundo Draghi, tudo isso será possível «by calmly asking ourselves which are the minimum requirements to complete economic and monetary union. And in doing so», no final a União Europeia será uma «comunidade de fé». Não certamente por acaso, Draghi usa o termo Schicksalsgemeinschaft em entrevista a um jornal alemão e toca uma corda sensível dos alemães que parecem dispostos a abdicar de uma parte substancial da sua soberania se tiverem garantias que as instituições da união asseguram a adopção de políticas e valores consentâneos com a Deutschland über alles. Também não certamente por acaso, nem uma palavra sobre a mutualização da dívida, essa vaca sagrada dos PIGS, sem a qual ela onde Draghi diz Schicksalsgemeinschaft eles ouvem schadenfreude.

Dando de barato a bondade dessas medidas e políticas, está longe de ser evidente que sejam suficientes para transformar a Zona Euro numa zona monetária óptima com países tão heterogéneos, mercados de trabalho inflexíveis, sem mobilidade da mão-de-obra, barreiras linguísticas e culturais muito fortes como as existentes.

Talvez a visão de Draghi tivesse sido realizável na década de 80 quando foram lançadas as pedras fundamentais da construção do mercado único e se vivia um período de prosperidade e um élan pró-europeu. Agora isso é história e a urgência de soluções que evitem o afundamento dos PIGS no mar da recessão não se compadece com gradualismos.

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