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12/12/2003

ESTÓRIAS E MORAIS: A endemia prescritiva e a autofagia da vaca marsupial.

Estória nº 1
Quando o Impertinente chama tansos aos contribuintes cumpridores, onde se inclui, não é uma figura de estilo, é o lamento duma alma esportulada duma parte das suas grilhetas terrenas que tanta falta lhe fazem, em benefício duma súcia de relapsos.
Veja-se esta progressão dos processos em execução fiscal em percentagem do PIB:
1985 - 2,5% (vésperas da adesão à CEE e da chuva de subsídios; nesta época os portugueses ainda se consideravam pobres e gente séria)
1993 - 2,6% (nesta época os portugueses começavam a pensar que eram ricos, e estavam a começar a ficar fartos do professor Aníbal e ansiavam por um engenheiro Guterres que lhes desse boas notícias e, sobretudo, os besuntasse de diálogo)
1997 – 10,0% (agora sim, os portugueses empanturrados de diálogo, começavam a deixar de pagar impostos para começar “a cagar” para os impostos, usando a colorida expressão do doutor Ferro Rodrigues)
2001 – 10,7% ou 12,7 mil milhões de euros (tudo na vida tem um limite e não se podem deixar de pagar mais impostos do que os devidos)
2003 – 10,5% ou 13,9 mil milhões de euros (uma ligeira redução à custa do perdão dos juros de mora)
Em Março deste ano existiam 2,6 milhões de processos de execução fiscal, correspondentes a uma bela percentagem de relapsos. Dos 13,9 mil milhões de euros de dívidas fiscais 1,56 mil milhões de euros estão ameaçados de prescrição.

Moral
A prescrição é a endemia nacional.


Estória nº 2
Segundo as conclusões dum relatório da Inspecção Geral de Finanças sobre o diagnóstico da administração central, metade dos serviços prestados pelo Estado têm como cliente o próprio Estado. Com a licença, mais uma vez, do doutor Ferro, o Estado está-se “a cagar” para si próprio.

Moral
A vaca marsupial pública sofre de autofagia.

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