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16/12/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A insustentável leveza da pesada herança do professor Sousa Franco e as atribulações do casal franco-alemão.

Secção Insultos à inteligência
Numa entrevista à Visão publicada no dia 11, o professor Sousa Franco passou a manteiga no doutor Durão Barroso, apenas para aguilhoar com vara comprida a doutora Manuela Ferreira Leite. Está no seu pleno direito de emitir opiniões.
Se ficasse por aí, não ficava bem, nem mal, ficava. Mas o seu ego intumescido não resistiu a cumprimentar-se, a pretexto da sua suposta pesada herança. Deu razão ao Impertinente que a semana passada recordava o trágico destino dos governantes portugueses que carregam as pesadas heranças recebidas dos seus antecessores.
«Herança pesada teve o governo Guterres quando eu entrei. Sabe qual é a média dos dez défices anuais do professor Cavaco Silva? É de 5,9 por cento. No último ano ainda estava nos 5,7 por cento, quando dois anos depois tínhamos de estar abaixo dos três. E estivemos.», disse o professor Sousa Franco.
Distraído, o professor não referiu alguns factos relevantes, ocorridos durante o seu consolado, que explicam o milagre operado, tais como:
1) a componente juros das despesas públicas diminuiu entre 1995 e 2000 de 6,2% para 3,2%, devido à baixa das taxas europeias, propagada gradualmente para a economia portuguesa;
2) a diferença de 3% do PIB subtraída aos 5,7% da pesada herança do professor Cavaco Silva teria baixado o défice para 2,7%, se o professor Sousa Franco não tivesse aberto a tampa do baú ao engenheiro Guterres para afogar os problemas com dinheiro;
2) assim aumentou a despesa pública total de 44,8% em 1995 para 46,8% do PIB para 2000;
3) significando que as despesas públicas sem juros aumentaram de 38,6% para 43,6%, isto é 5% do PIB;
4) enquanto isso, as despesas públicas da Zona Euro diminuíram no mesmo período de 48,2% para 44,2%;
5) o aumento líquido do n.º de funcionários públicos foi de 50.000, em 5 anos.
É caso para dizer que o professor Sousa Franco se-atolou-se em contradições. Ganha 3 bourbons por não ter aprendido nada desde que saiu do governo, 3 pilatos retroactivos pelo lavar das mãos no assalto ao baú, e 2 ignóbeis porque não é possível que seja tudo distracção.

Secção Res ipsa loquitor
A CIG não conseguiu a aprovação da Constituição Europeia e o eixo Paris-Berlim falhou, pelo menos para já, a sua tentativa de criar os mecanismos para atrelar a Europa à sua carroça, às custas de parcelas da soberania dos outros membros. Ficou, portanto, suspensa a tentativa de instrumentalizar a UE aos desígnios do casal franco-alemão, um casal vivendo numa união de facto construída sobre os cadáveres de dezenas de milhões de mortos em duas guerras mundiais que o casal, outrora desavindo, incendiou.
Três afonsos para a firmeza de José Maria Aznar, que escreveu direito por linha tortas.

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