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07/12/2003

ESTÓRIA E MORAL: Poderão os nossos alunos voar?

Estória
Era uma vez um engenheiro que foi a um congresso de aerodinâmica (qualquer coisa que trata dos fluídos elásticos, explicou ele com ar enfastiado). Não um daqueles congressos turísticos promovidos pela Bayer para os médicos que receitam a sua medicina, mas um congresso à séria, com comunicações, painéis, discussões públicas, privadas, mesas redondas, e toda a parafernália imaginável nesses eventos.
A comunicação duma sumidade presente, um tal professor Jay Beetleson, versava sobre a aerodinâmica do voo do besouro. No final da torrente de demonstrações com fórmulas, gráficos, diagramas, diapositivos, etc., o professor Beetleson, concluiu que o estúpido insecto pesava demais, tinha as asas demasiado pequenas, um abdómen e umas patas disformes, cobertas de pelos, um cérebro microscópico, incapaz de enfrentar as complexas tarefas do voo, pelo que teoricamente não poderia voar. As demonstrações da luminária arrasaram a plateia que se quedou num recolhido e admirativo silêncio.
O meu amigo engenheiro, nessa altura no começo da sua carreira, ainda sem a vergonha, que vem a reboque da ciência, de parecer ignorante, perguntou à sumidade como explicava que, sendo irrefutáveis as suas demonstrações, não era menos irrefutável a prova circunstancial, o flagrante delito, do voo do besouro.
O silêncio da plateia, se já era denso, engrossou ainda mais.
Simples, meu caro congressista, respondeu amavelmente o professor Beetleson. O besouro voa porque não sabe que não pode voar.

Moral
Isto vinha a propósito do meu amigo engenheiro me explicar que, ao contrário do que eu supunha, a falta de qualidade do nosso ensino, em particular na área da matemática e das ciências, não era um mal em si mesmo. Pelo contrário, ele via riscos no aumento da exigência, nessa e noutras áreas, que afectando a auto-estima dos alunos e incutindo-lhes a perda de confiança os transformaria em besouros inviáveis, isto é invoáveis.

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