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13/12/2003

ESTÓRIA E MORAL: A substituição do instrumento foi-se tornando pesada e impertinente.

Intróito
No Jornal de Seguros de 31 de Abril de 1906 (isso mesmo, “31 de Abril” é a data que está impressa no cabeçalho do periódico) foi publicada esta carta dum assignante que, inacreditavelmente, me passou desapercebida estes anos todos. A carta relata a estória (ou será história?) da filha do dono da casa e do seu instrumento desafinado, que poderia ser dedicada às seguradoras que distraidamente contribuem para o progresso das artes e a felicidade dos povos.

Estória

É digna de registo, pelo ensinamento que encerra, a carta abaixo transcripta recebida d’um nosso estimado assignante:
... Sr. redactor do «Jornal de Seguros»:
Para que conste e possa aproveitar a quem cumpre, permittam V. a narrativa d’um curiosissimo caso cuja authenticidade posso garantir.
Uma familia vulgar de Lineu, residente em Lisboa, havia segurado, por 1.700:000 réis, o seu mobiliario, existindo entre este um estafado piano, pelo valor de 225$000 réis. A sua constante desafinação desgostava a todo o momento a gentil filha do dono da casa para quem a exigencia da substituição do instrumento se foi tornando por fim pesada e impertinente.
Um bello dia, os tres - marido, mulher e filha - por luminosa iniciativa do primeiro, accordaram em que a companhia seguradora é que devia fazer o milagre! Para isso, fez-se um simulacro d’incendio junto do piano - uma explosão de candeeiro - e com petroleo e carqueja, artisticamente aproveitados, deu-se á victima o aspecto desolador do sinistro a que o soalho chamuscado pela chamma lançada, com pericia, a porções calculadas do fedorento liquido, mais negras e tetricas côres infundia.
E desalinhados os moveis proximos, desordenados os bibelots, aspergidos alguns litros d'agua sobre o tablado da farça, com este retumbante scenario, aguardou-se o representante da companhia reclamado ao alvorecer do dia seguinte.
- Podia ter sido uma grande desgraça, dizia commovido o segurado, se promptamente não acudo. As senhoras teriam succumbido se não tenho a felicidade de estar em casa. Foi a primeira vez na minha vida que reconheci ter grande serenidade de animo!
A prova da casualidade do sinistro era palpavel. Porventura poderia duvidar-se? O segurado, se houvesse má fé, deixaria arder tudo! N’esta orientação, o fiscal tomou as suas notas, na informação congratulou-se pela relativa insignificancia do prejuizo e acreditando que o instrumento deveria ter valido, antes de immolado, o preço do seguro, foi de parecer que este se satisfizesse, dando-se mais 50$000 réis para reparações diversas.
A companhia pagou contente e sem demora, registando a diligencia do segurado em extinguir de subito o fogo.
Estava feito o milagre. E dias depois, a visinhança deliciava os pacientes ouvidos com a aria da Somnambula executada n’um delicioso e potente Geissler.
Creia-me sr. redactor
Lisboa, 5 março.


Moral
Confiar no futuro, mas pôr a casa no seguro (ditado popular)

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