Fazendo o costume, a imprensa do costume celebra as referências elogiosas de vários jornais estrangeiros o modo como os portugueses estão a combater na guerra contra o Covid-19, para usar a linguagem bélica do Dr. Costa e dos seus ministros que a imprensa adoptou com entusiasmo.
«Le mystère portugais face au covid-19», «Le Portugal, exception latine face au coronavirus», «Das portugiesische Wunder», «Pourquoi le Portugal semble épargné ?» são alguns dos títulos que celebram o sucesso dos portugueses na guerra contra o Covid-19, para citar outra vez o Dr. Costa e sua referência elogiosa à sua suposta disciplina («Os portugueses são tão disciplinados que a repressão é inútil»).
Peço desculpa por discordar e pelo aparente anti-patriotismo que, em rigor, é mais um patriotismo desalinhado que entende ser um insulto à inteligência dos portugueses que têm alguma as patetices como o «somos muito bons, somos dos melhores dos melhores» de S. Ex.ª. E entende que, em vez disso, as elites deveriam exortar os portugueses a aproveitar as oportunidades para fazer o melhor que podem, um melhor que muitas vezes não é suficientemente bom. E é aqui, nas elites, que está o maior problema, porque essas elites são predominantemente medíocres e engraxam o povo como forma de se enaltecerem a si próprias.
E discordo porque, em minha opinião, neste caso, o aparente sucesso resulta de várias causas, umas que não dominamos, e por isso não temos que celebrar, e uma, provavelmente a causa determinante, que resulta da nossa atitude medrosa que levou muitos de nós ao confinamento, ainda antes do estado de emergência, e no confinamento continuar com uma aparente disciplina que na verdade resulta do medo. Sim, porque os portugueses não são nem nunca foram disciplinados. E também não são nem nunca foram prudentes porque a prudência resulta de uma ponderação racional dos riscos e uma antecipação das suas indesejáveis consequências. Se fossemos disciplinados e prudentes seriam uma espécie de alemães desenrascados do sul, coisa que estamos longe de ser e não estaríamos onde estamos.
Em conclusão, o "sucesso" resulta do medo irracional instrumentalizado pelos mídia infectados de esquerdalhada com sonhos húmidos com pandemias e catástrofes em geral. Não apenas do medo inscrito no ADN humano por centenas de milhares de anos de selecção natural (os psicólogos evolucionistas explicam que os medrosos sobrevivem mais do que os corajosos), mas do processo de selecção social dos últimos cinco séculos que fez sair os inconformados de Portugal nos Descobrimentos e os fez e faz sair pela emigração.