Ao longo dos tempos, inventariámos no (Im)pertinências várias áreas de causas: o jornalismo de causas, as estatísticas de causas, a ciência de causas, a justiça de causas e a tradução de causas. Todas estas áreas partilhando das características identificadas pelo falecido Armando Baptista-Bastos a respeito do «jornalismo de indignação» que ele praticava e exaltava, jornalismo em que «não há factos. Os factos correspondem à visão do mediador, do repórter». Num certo sentido B-B foi um percursor de Kellyanne Conway, consultora de Trump, e dos seus «alternative facts» - les bons esprits se rencontrent.
Concluí então, e confirmo agora, que deveríamos acrescentar mais uma área de causas na actividade humana: o humor de causas, em que o humor não tem graça e está ao serviço de uma agenda mal disfarçada. Se o jornalismo praticado por muitos jornalistas é jornalismo de causas, o humor de RAP no seu pior, como agora, é um paradigma do humor de causas.
E que causas? Certamente não por coincidência, há algumas semanas no seu actual programa, RAP acolheu numa entrevista Jerónimo de Sousa, como então há cinco anos tinha acolhido, outra vez com visível ternura e respeitinho, tentando disfarçar sem sucesso a falta de independência em relação aos temas e a atitude servil face ao entrevistado. Isto é gozar com quem vê o programa.