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04/06/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (138)

Outras avarias da geringonça.

Unamuno escreveu que «o idioma português é o castelhano sem ossos», mas poderia ter dito o mesmo em relação ao indígenas dos dois lados da fronteira. Filipe II de Espanha, I de Portugal, disse que as leis em Portugal são duras mas a prática é mole. Se não disse, poderia ter dito porque é isso mesmo.

Veja-se o que acontece quando a nomenclatura não cumpre a lei - já com a ralé não é a mesma coisa. Por exemplo, quando o amigo Siza Vieira coloca o chapéu de «ministro adjunto da EDP», o que faz Costa? Assobia para o lado e manda um apparatchik anunciar que vão mudar a lei e fazer uma lista de obrigações legais que os membros do governo deverão respeitar.

Recordam-se da indignação que assolava a esquerdalhada de cada vez que alguém dizia que os desempregados ou mal empregados deveriam procurar oportunidades de trabalho no estrangeiro? Pois bem, entre 2015 e 2018 emigraram 3108 enfermeiros e 478 médicos (fonte) e ninguém rasgou as vestes.

Recordam-se de Costa ter deixado cair o programa VEM do governo anterior, lançado em 2015 para reintegração dos trabalhadores emigrados? Pois bem, no congresso do PS na Batalha, Costa anunciou ufano que irá lançar um programa com o mesmo propósito - com outro nome, já se vê.

Recordam-se das garantias de Costa sobre as medidas atempadas de combate aos incêndios florestais? Pois bem, tudo derrapou e acabaram a fazer ajustes directos dos helicópteros que ficaram 47% mais caros e com penalizações por indisponibilidade que são um quinto do normal. Em contrapartida, o governo criou um «grupo de trabalho para acompanhar cabras sapadoras».

Entretanto, já não são apenas os sindicatos a fazer ultimatos ao governo. A ANTRAM – Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias também fez o seu dando um prazo de quatro dias para o governo aceitar as suas exigências.

Enquanto o FMI recomenda ao governo que diminua o peso dos salários da função pública, o governo prepara-se para contratar mais 3.500 professores ampliando assim, mais uma vez, a sua freguesia eleitoral. Enquanto isso, o número de alunos matriculados no ensino básico e secundário desceu cerca de 300 mil (20%) desde 2010, o ano anterior ao início do resgate. Registe-se que para as 3.500 vagas de professores concorreram quase 100 mil candidatos o que dá a medida da pletora de licenciaturas em «ogias» sem saídas profissionais e da apetência dos licenciados por uma vida sossegada, sem avaliações, sem stress, num emprego para toda a vida.

E, por falar em recomendações, a CE também recomenda muita coisa em termos orçamentais (ver aqui a análise de Miranda Sarmento), incluindo a entrada em vigor da nova Lei do Enquadramento Orçamental proposta pelo governo anterior, já aprovada e diferida pela geringonça sucessivamente para 2017 e por último para o segundo semestre de 2020 - depois da eleições de 2019, pois claro.

Passemos ao crescimento, essa grande realização que Costa atribui a si próprio - por enquanto, porque quando a derrapagem for impossível de esconder irá garantir, na melhor hipótese, que isso é culpa da conjuntura, isto é da procura externa e do turismo que o têm levado ao colo. Na pior hipótese e se o diabo chegar - e ele chegará, só não se sabe quando - repetirá os chavões que os socialistas têm de reserva (menos Merkel e a Alemanha, por agora), tais como as agências de rating, o neoliberalismo, etc., refrescado agora com o trumpismo, o populismo, etc.

A OCDE reviu em baixa o crescimento de Portugal em 2018 e 2019 e o INE confirma o abrandamento no 1.º trimestre devido à quebra das exportações. Se as previsões de várias instituições para 2018 são razoavelmente coincidentes com as do governo, as de 2019 estão abaixo entre 10 e 50 pontos base o que ilustra a lei que postula crescer a fantasia nas previsões do governo aceleradamente à medida que se dilata o horizonte temporal.
Jornal Eco
Se procuramos boas notícias devemos olhar, como é costume, para o consumo onde o indicador de confiança dos consumidores atingiu o máximo desde que foi criado em 1997. Como o aumento do consumo tende historicamente a dirigir-se a bens transaccionáveis (popós, telelés, aifais, electrodomésticos e electrónica de consumo em geral e o resto da quinquilharia que faz a nossa felicidade) quem agradece a confiança dos consumidores portugueses são os produtores estrangeiros.

Há quem encontre também muito boas notícias do lado do emprego, mas o certo é que os empregos criados são sobretudo temporários e de baixas qualificações e, embora a taxa de desemprego continue a baixar, desde há dois meses o emprego está a diminuir.

Multiplicam-se, pois, os sinais de que o balão pode estar a esvaziar, coincidindo com uma redução do maná de Bruxelas, de onde não chegam boas notícias no que respeita aos fundos estruturais para o período 2021-2027. Na proposta da CE, Portugal receberá menos7%, o equivalente a 1,6 mil milhões. Para quem, como eu, não acredita nas propriedades miraculosas dos fundos estruturais para desenvolver o país, não será por aqui que o gato vai às filhoses.

Bloomberg
O gato irá mais facilmente às filhoses com a bagunça que se adivinha na vizinha Espanha e sobretudo numa Itália que é há mais de 10 anos o homem doente da Europa. A propagação dessa bagunça à UE, tem virtualidades de apressar a chegada do diabo de Passos Coelho, apanhando a geringonça de calças na mão ainda na fase das celebrações. Exagero? Veja-se no diagrama anterior o comportamento dos yields das OT a 10 anos que em 4 dias úteis subiram 29 pontos em reacção aos acontecimentos em Itália, particularmente entre 24 e 29 de Maio.

E, não esqueçamos, que o diabo de 2011 - cortesia do PS de Sócrates - chegou com uma dívida de 170 mil milhões, e o diabo de 2018 chegaria com uma dívida que atingiu em Abril 250 mil milhões - cortesia do PS de Costa.

2 comentários:

Francisco disse...

...250 mil milhões...

Pertinente disse...

Claro que só podem ser 250 mil milhões. Obrigado pela correcção.