Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

26/04/2014

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: MST teve outro surto de lucidez. Oxalá dure.

Já por aqui tenho zurzido bastas vezes Miguel Sousa Tavares pelos seus acessos de tudologia. E também, menos vezes, tenho louvado algumas ideias e opiniões num ou noutro dos seus escritos. Nenhuma vez, porém, que me recorde, me dispus, como agora, a assinar por baixo praticamente tudo o que escreveu no seu artigo «Peço desculpa…» no Expresso.

Sumo sacerdote dos bonzos do 25-04
Praticamente tudo, mas não tudo – por exemplo, não pediria desculpa e esperaria que, ao invés, a legião de bonzos que se apresentam como proprietários do 25 de Abril e se tomam por pais da pátria pedisse desculpa, a mim e aos muitos agoniados com tal abuso.

Apesar de demasiado extenso para os padrões de um blogue, vou reproduzi-lo na totalidade para eu próprio poder relê-lo para me compensar das costumeiras (e inevitáveis?) recaídas de MST na tudologia.

«1 Vou repetir que o 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida. A tal ponto que nem sequer consigo entender o significado e a seriedade da pergunta "o 25 de Abril valeu a pena?". É como se me perguntassem se prefiro ser saudável ou doente. Mas percebo que a pergunta faz sentido para aqueles portugueses (e são bem mais do que se imagina) para quem a liberdade não é o principal valor da vida em sociedade.

Porém, e dito isto, estou a ficar cansado do discurso dos que se consideram donos do 25 de Abril. Da sua autoproclamada legitimidade e estatuto de excepção, da sua suficiência, do seu desprezo pelos factos, pelos números e pela realidade, da sua rejeição em tentar perceber que o mundo mudou e que há novos desafios, novos problemas e novas gerações para quem não basta ou nada significa remeter tudo para os "valores de Abril". Peço desculpa.

2 No muro de lamentações onde se instalaram os donos do 25 de Abril, não há sequer curiosidade para reparem que por aí fora, num Portugal que de todo desconhecem, há gente que faz, que inventa, que se desenrasca, que cria riqueza e conhecimento sem nada exigirem do Estado ou do 25 de Abril, sem fazerem vida profissional das falsas baixas ou dos subsídios de desemprego em que apenas se quer trabalhar 15 dias para sacar o carimbo no papel que lhes permite regressar ao desemprego e ao subsídio. Conheço uma aldeia (um de muitos exemplos) em que um dono vindo de fora pegou num restaurante morto há décadas na pasmaceira e inovou, investiu e trabalha 12 horas por dia para atrair clientes e que, num concelho com 18% de desempregados oficiais, apenas encontrou para o ajudar uma emigrante espanhola. E conheço um miúdo de 20 anos (um de muitos) que há dois anos vive, estuda e trabalha nas horas livres no estrangeiro para depois poder fazer por si e pelo país muito mais do que reparei que o coronel Vasco Lourenço tenha feito nos últimos 30 anos, em que ocupou a sua reforma militar com lamúrias e ameaças de golpes contra a democracia. Peço desculpa.

3 Como todos os que amam a liberdade, tenho um dever de eterno respeito e gratidão pelos capitães de Abril. Mas não ao ponto de os achar donos do 25 de Abril e marajás da democracia. Aliás, convém recordar que o golpe militar do 25 de Abril resgatou, antes de mais, a honra deles próprios, que tinham sido o suporte armado da ditadura. E que o que primeiro os motivou não foi a liberdade ou o socialismo mas sim uma reacção corporativa e imoral contra os milicianos que combatiam e serviam lado a lado com eles - e que foi só com a intervenção de Melo Antunes que um movimento de pura caserna se transformou numa revolução democrática. E que esta, até à extinção do Conselho da Revolução, foi capturada e condicionada por um direito de tutela que eles exigiram sobre o regime democrático que haviam jurado implantar em 25 de Abril de 197 4. Peço desculpa por lembrar.

4 Não conheço várias formas de democracia: conheço esta, que não é perfeita, mas não conheço outra. Por isso, prefiro mil vezes viver sob o mando de um Governo e de um Presidente que eu não elegi mas que uma maioria de portugueses elegeu do que viver sob um regime com cujas políticas eu até possa concordar mas que não foi eleito mas sim imposto por via de golpe de Estado sugerido pelo coronel Vasco Lourenço ou qualquer outro autodesignado salvador da pátria. E o que me choca é pensar que seja preciso voltar a dizer isto 40 anos depois do 25 de Abril.

Portanto, se o coronel Vasco Lourenço e a Associação 25 de Abril não aceitam participar nas comemorações da data na Assembleia da República porque não lhes foi consentido o uso da palavra, para ir lá, à sede da democracia, achincalhá-la ou apelar ao seu derrube, eu acho, como a presidente da Assembleia, que o problema é deles. E o que me choca é que Assunção Esteves vá depois, em penitência e em nome do "afecto" e do "carinho", visitar o coronel e a Associação, assim subalternizando o seu cargo, o parlamento que representa e a democracia em que eu quero continuar a viver. E choca-me que Mário Soares, a quem a democracia portuguesa tanto deve, ache que isto - não permitir um discurso de apelo ao derrube da democracia na sua sede- equivale a "excluir os capitães de Abril" das comemorações.

5 Muita demagogia, muita irresponsabilidade e muito egoísmo têm sido vertidos a propósito do 25 de Abril e por parte dos seus representantes oficiosos. Dá vontade de lhes perguntar se já ouviram dizer que o Estado português foi à falência em 2011 e, na iminência de cessar pagamentos aos seus funcionários e pensionistas, teve de chamar a troika para nos emprestar 78 mil milhões de euros, que nós e os nossos filhos teremos de pagar. E não sei se sabem que, ao contrário do que proclamava esta semana o deputado comunista Miguel Tiago, hoje não são "os Goldman Sachs e os Deutsche Banks que abocanham a dívida portuguesa": são os bancos portugueses e os fundos de pensões da Segurança Social, a quem os nossos governos impuseram a compra de dívida, e são os pequenos aforradores que confiaram na seriedade do Estado e lhe emprestaram dinheiro para sobreviver. Que o capitalismo moderno está transformado num casino sem regras e num jogo viciado, eu acho que está. Mas, se alguém conhece uma solução para que Portugal sozinho consiga passar entre os pingos da chuva, por favor diga qual é. Não se limitem a lamuriar o passado que não regressa e os "valores de Abril". Talvez se a esquerda perdesse menos tempo com o saudosismo e a demagogia e olhasse antes para o mundo de hoje não estivéssemos a assistir ao crescimento da extrema-direita em toda a Europa, perante a ausência de alternativas politicamente sérias, a indiferença crescente de uma população que já nem se dá ao trabalho de votar e uma nova geração que se está nas tintas para os "valores de Abril" e que o que sabe ao certo é isto: não têm trabalho, não vão ter quaisquer reformas e não têm nada a esperar do Estado, a não ser pagar impostos.

6 Se não me engano, Mário Soares, primeiro-ministro, chamou duas vezes o FMI para nos resgatar. Pela mesma razão que agora: porque o Estado estava falido. Mas o "país destruído", de que ele agora fala, não é o país do Estado, ao contrário do que os sectores que têm influência nos media fazem crer: é o país dos que não são pagos pelo Estado e não dependem dele. Esses é que foram destruídos para sustentar o custo do Estado: 4000 milhões, em impostos, roubados à economia em 2013 apenas para reduzir o défice público em 400 milhões. O país que sofreu e sofre a sério não é o que o Tribunal Constitucional protege nem o dos reformados de luxo do Banco de Portugal, da magistratura ou de outras corporações públicas. São os 500 mil verdadeiros desempregados "civis", os 250 mil emigrados "civis" e os "civis" que sobraram e estão no activo, pagando impostos insustentáveis para sustentar "direitos adquiridos" de que uns agora beneficiam e de que eles nunca beneficiarão. Quem fala em nome deles?

7 Este Estado que se sustenta nos poucos que trabalham, que criam riqueza e que pagam impostos gasta todos os anos 8000 milhões a mais do que tem. E, por isso, tem de pedir dinheiro emprestado todos os anos e, por isso, vai acumulando dívida para as gerações seguintes. Podemos sempre dizer, como eu ouvi esta semana à socialista Gabriela Canavilhas, que "não vejo onde está o problema de haver défice!". Pois não: é uma boa tese para vender aos nossos filhos e netos.

8 Diz Pacheco Pereira que, "historicamente", nunca houve um ataque aos velhos como agora. Não sei se é um ataque aos velhos ou uma defesa dos novos. Mas sei que nunca tivemos um pensionista por 1,4 activos, nunca tivemos uma esperança de vida de 80 anos e uma taxa de natalidade que é a terceira mais baixa do mundo e que nunca voltaremos a ter, como tivemos, reformados com uma média de idades de 60 anos e uma pensão equivalente ao último vencimento recebido. E que também nunca ouvi tanta gente a queixar-se da reforma ou a dizer, paradoxalmente, que só pensa em "meter os papéis para a reforma". De facto, "historicamente", o problema nunca existiu e não estava previsto nem na Constituição nem no programa do MFA. E, então, finge-se que não existe?»

4 comentários:

IO disse...

Meu Deus e que se passou com o MST
o senhor acordou!

JSP disse...

Redimiu-se,o homem.
Esperemos que continue com os olhos abertos...

Anónimo disse...

Estes comentadores, MST, VPV, JPP, etc, gostam de estar no contra, de sobressair com o seu ponto de vista, de provocar e agitar irresponsavelmente. Assim se explica por que às vezes falam acertadamente, como MST faz agora, mas logo a seguir se contradigam. Não são de confiança, dizem mal da classe política, mas eles são ainda piores.

tina

Rui C disse...


O 25 de Abril foi um dia marcado essencialmente pela surpresa, agitação, expectativa e para os mais conscientes também por alguma preocupação. Com o evoluir da situação, confirma-se a impreparação dos revoltosos e a anarquia vai-se instalando. A descolonização exemplar justifica por si só, a par da reivindicação profissional e salarial, razão mais do que suficiente para lamentar a dramática ocorrência. A transição pacífica, à espanhola, dar-se-ia mais tarde ou mais cedo, pelo que a liberdade para alguns mais importante que o País, só teria ganho com a demora.
Não me sinto absolutamente nada em dívida para com quem irresponsavelmente criou uma situação da qual só em 25 de Novembro iniciaríamos a saída. Ainda hoje a liberdade não é total, para quem não é de esquerda. O País foi arruinado três vezes.
Considero a pergunta sobre se valeu a pena não só legítima, como de resposta negativa.