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21/01/2014

CASE STUDY: A deriva «liberal» de François Hollande vista pelo pensamento socialista doméstico

A explicação mais simples para a recente deriva «liberal» de François Hollande é a de uma tentativa de sobrevivência face à sua consciência tardia do falhanço das receitas socialistas numa Europa envelhecida e endividada - na Europa e noutros sítios, mas por agora ficamos pela Europa. Hollande será tudo menos um precursor. Mitterrand, de cujo governo Hollande foi «chargé de mission» em 1981 na área da economia, quando se deu a grande leva das nacionalizações, também meteu mais tarde o socialismo na gaveta, como son ami Soares em 1983.


É claramente esperar demasiado do pensamento socialista doméstico compreender, aceitar e explicar estas involuções no caminho para os amanhãs que cantam. Não espanta, por isso, que um apparatchik do PS, como João Galamba, se atire como gato a bofe ao pobre Hollande que acusa de querer resolver os problemas da França pela produção.

Quando Hollande diz «Temos de produzir mais, temos de produzir melhor. É sobre a oferta que temos de agir. Sobre a oferta! Isto não é contraditório com a procura. Na verdade, a oferta cria procura», Galamba classifica a nouvelle doctrine como «não é um mero recuo ou uma inflexão, é a total capitulação de Hollande» e continua com a ladainha que não reproduzo por ser assaz conhecida.

Apenas destaco na prosa de Galamba uma crítica distraída às manobras soaristas que em boa verdade salvaram o país da falência em 1983: «Um partido que para sobreviver adere às teses dos seus adversários não terá nunca grande futuro, porque os eleitores preferem o original à cópia.» Talvez tenha razão. Falta acrescentar que um partido que só tem soluções para deitar dinheiro em cima dos problemas e endividar o país só tem o presente das vacas gordas enquanto não as emagrece.

Já pelo lado do pensamento socialismo «independente» tenta-se deitar fora a água do banho e salvar o bebé François. É o caso do consultor e comentador ocasional Nuno Cunha Rolo que faz uma tradução da nova doutrina de Hollande numa espécie de newspeak: «não li austeridade como "fim em si mesmo", "custe o que custar", em prejuízo das classes médias e baixas, dos rendimentos destas face às classes mais abastadas, com "enorme aumento de impostos", pelo contrário. Só por cegueira ou ignorância se pode colar Hollande, ou este plano, ao quadrante ideológico hegemónico na Europa e patrono da austeridade

Escolhei entre as duas correntes do pensamento socialista a que melhor vos convier.

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