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19/12/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (62)

Outras avarias da geringonça.

Tivemos a semana passada mais um exemplo das políticas sociais da geringonça ao prometer distribuir aos pobres 280 milhões a extorquir no final aos contribuintes. Neste caso, os pobres são cerca de 2.500 embarretados em 550 milhões com o papel comercial dos Espírito Santo comprado ao BES, onde detinham 1,8 mil milhões, em média mais de 700 mil euros de património financeiro por cabeça.

Nas suas reversões Costa têm-se esquecido do reverter a herança dos swaps a maioria dos quais contratados pelas empresas públicas nos tempos dos governos Sócrates (de um dos quais Costa fez parte). Vem a propósito lembrar que o tribunal inglês deu razão ao Santander, a quem continua a ter de se pagar 440 milhões, e lembrar igualmente que os swaps do Santander somam 1,7 mil milhões e só estão provisionados 10%. No total, segundo a Unidade Técnica de Acompanhamento e Monitorização do Sector Público Empresarial (UTAM), são mais de 2,5 mil milhões em risco.

Lá se vai o défice engolido pelo passado. E pelo futuro, porque o preço do petróleo projectado no OE 2017 é 44,40 dólares com o câmbio a 1,12 dólares, Com o preço do petróleo a subir e o dólar a ficar mais forte, os 39,64 euros não vão chegar.

Falando de empresas públicas, o seu endividamento no final do 1.º semestre estava em 32 mil milhões de euros, mais de 2,4 mil milhões acima do orçamentado. Está tudo a descoser-se.

Parece que os geringôncios ficaram muito contentes pelas revisões da previsão de crescimento de 2016 da Bloomberg de 1,0% para 1,2% e do Banco de Portugal de 1,1% para 1,2%. O que faz lembrar a estória do auto-estrada mexicano porque a previsão do documento dos 12 sábios da Mouse School of Economics era de 2,4% e a do OE 2016 de 1,8%.

A lista das reversões (à parte os esquecidos swaps de Sócrates) é infindável e a imaginação de comunistas e berloquistas é imensa. O próximo passo será reverter o regime de mobilidade dos funcionários públicos para «valorizar e dignificar o exercício de funções públicas pelos trabalhadores da Administração Pública». Traduzindo o geringoncês em português, lá se vai afundar o buraco do défice futuro, apenas adiado pelo congelamento das despesas de capital e a crescente paralisia a prazo da máquina administrativa e camuflado pela engenharia orçamental. A propósito, leia-se o que escreveu Helena Garrido em «O problema dos défices para a estatística».

Para ajudar, o BCE decidiu prolongar o programa de compra da dívida mas a um ritmo inferior. Em qualquer caso, Portugal está perto de atingir o máximo e daí a reacção dos mercados com os yields a 10 anos a subirem de 3,5% para cada vez mais próximo dos 4%. Recorde-se que no Verão de 2015 os yields a 10 anos chegaram a descer a 1,56% e o spread em relação a Espanha que era 50 bp é agora de quase 200 bp.

Num relatório sobre a Grécia (recorde-se: «não somos a Grécia») em que antecipa a sua recuperação, o Credit Suisse escreve «Portugal pode tomar o lugar da Grécia como novo foco dos receios dos investidores em obrigações dados os riscos orçamentais», Bem dizia Costa «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha».

Fechando esta crónica, sublinho que, nos intervalos de arruinar o país, o governo de Costa com o aplauso da geringonça esforça-se por arruinar as mentes das crianças do 5.º ano a quem o ministro factótum da Educação pretende apresentar as técnicas de aborto. É caso para dizer que foi pena que à progenitora do factótum não tivesse sido instruída in illo tempore sobre tais técnicas.

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