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26/11/2010

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (2)

Pelas razões que tentei expor no post anterior, o tele-evangelista Louçã está, infelizmente, completamente equivocado no seu «já se vê para onde vamos, vamos a caminho da desgraça irlandesa». O equívoco é tão evidente que confrontado com o trilema de Žižek sou forçado a considerar o professor de economia Louçã desonesto ou burro, isto é desonesto se inteligente e burro se honesto.

Ao elenco das diferenças entre Portugal e Irlanda, a cujo propósito remeto para este artigo de Miguel Frasquilho (espero que os Espíritos seus patrões não lhe puxem as orelhas por escrever heresias),  ainda acrescento as seguintes:
  • À dívida pública portuguesa é preciso adicionar pelo menos 30 mil milhões de dívidas das empresas públicas e 50 mil milhões de compromissos com as PPP, tudo por junto 50% do PIB;
  • O salário mínimo irlandês será reduzido de 12%, e ainda assim ficará a valer 2,7 vezes o salário mínimo português;
  • Em vez de engenharias orçamentais para reduzir o défice comprometendo a sustentabilidade da segurança social (transferência do fundo de pensões da PT), o governo irlandês apresenta ao parlamento medidas que envolvem cortes efectivos e significativos da despesa (despedimento de 25 mil funcionários públicos e 3 mil milhões de benefícios sociais a menos); e last but not least
  • «Portugal is the victim of an orchestrated calumny intended to divert attention from a bankrupt Britain, or America. The rating agencies are deemed agents of Anglo-Saxon hegemony
Em desespero de causa, para melhor percebermos a diferença entre a Irlanda e Portugal, ajudará recordar a profundidade da crise financeira de 1997 na Coreia do Sul, a sua rápida recuperação nos anos seguintes e o vigor actual da sua economia. Ao fazê-lo, cedendo à facilidade em benefício dos distraídos, poderíamos caricaturar a comparação e fazer equivaler a Irlanda de 2010 à Coreia do Sul de 1997, o Portugal de 2010 à Coreia do Norte de 1997, ou qualquer outro ano, e José Sócrates ao querido líder Kim Jong-Il.

Moral da estória das diferenças: a desgraça irlandesa faria a nossa felicidade.

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