Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

18/04/2011

Como pode a cartilha esquerdista explicar estes fenómenos?

De acordo com a cartilha esquerdista, as agências de rating são, entre outras coisas, uma emanação do capitalismo neo-liberal cujo epicentro se situa em Wall Street. Quem diz Wall Street, diz Water Street, a apenas 3 km, onde fica a sede da Standard & Poor’s que acaba de baixar o outlook do rating AAA dos Estados Unidos.

17/04/2011

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Chegámos aqui um dia e um milhão de cada vez

Imagino ser muito traumático para os portugueses embriagados durante 6 anos pelo discurso encantatório do vendedor de automóveis, também conhecido como pastor da IURD, verem-se confrontados com a transição brusca do paraíso socrático para o inferno do mundo real.

Consigo, apesar de tudo, compreender que as legiões de portugueses afogados em dívidas para pagar a casinha, o chaço, o plasma e as merdas todas que a publicidade lhes diz que podem ter sem esforço, tentando acertar o fim do mês com o fim do ordenado, enfiados nos buracos negros informativos dos telejornais, desejosos do alívio das boas notícias, tenham sido vulneráveis à manipulação maciça da máquina mediática de Sócrates.

Não consigo, de jeito nenhum, compreender os pelotões de luminárias, intelectuais de trazer por casa, economistas mediáticos e de palestrantes em geral que durante esse mesmo período não perceberam perceberam bem demais o que se estava a passar e ficaram caladinhos a facturar as suas tenças. Ainda percebo menos os que fizeram isso e agora, mais ou menos disfarçadamente, consoante o seu talento de aldrabões, saltam em andamento do comboio e se preparam para apanhar o seguinte.

Perguntarão as legiões de afogados em dívidas, como chegámos aqui? A resposta é um milhão de cada vez. É parecida com a que costuma ser dada nos projectos que se atrasam anos (um dia de cada vez).

Secção Tiros nos pés
Cinco chateaubriands para os afogados em dívidas desejosos de boas notícias.

Secção Idiotas Inúteis
Cinco bourbons, cinco pilatos ou cinco ignóbeis para os pelotões de luminárias que não conseguem ser de outra maneira (a maioria), que perceberam e ficaram calados por cobardia ou por manha, respectivamente.

ESTADO DE SÍTIO: O FMI nosso amigo – meia dúzia de razões de alívio dos patriotas

Um sério indício de que o povo português é composto maioritariamente por idiotas é aceitação generalizada da demonização do FMI ensaiada por José Sócrates et pour cause. O caso dos jornalistas que propalam a tese socrática e o caso das luminárias, em especial as luminárias económicas, que a avalizam é diferente. A estes é-lhe aplicável o trilema de Žižek na variedade socialista.


  1. Pois não é verdade que o FMI já por cá andou 2 vezes em 1979 e 1983 a emprestar dinheiro e a endireitar (*) com sucesso as exauridas finanças públicas?
  2. Pois não é verdade que os nossos líderes políticos não têm tomates para tomar as medidas indispensáveis sem um diktat exterior?
  3. Pois não é verdade que o FMI irá acompanhar a execução orçamental e as nossas contas e limitará desse modo o risco dos nossos políticos aldrabões e dos nossos técnicos subservientes e sem ética profissional vigarizarem as contas?
  4. Pois não é verdade que o FMI, diferentemente dos nossos amigos da UE, declara pretender compatibilizar as medidas de consolidação orçamental com a necessidade de garantir o crescimento?
  5. Pois não é verdade que o FMI pretende dar-nos um período de carência de 5 anos precisamente nesse sentido?
  6. Pois não é verdade que o putativo demónio FMI nos quer emprestar dinheiro a uma taxa (3,25%) 35% a 45% mais baixa do que a taxa (5% a 6%) que os nossos amigos da UE nos querem aplicar?
Rapazes do FMI, sejam bem-vindos!

(*) Endireitar é algo que, por definição, não pode ser feito pela esquerdalhada, a não ser em estado de necessidade e, ainda assim, em outsourcing, como foi o caso de, com o país sem divisas, o Dr. Soares ter adjudicado a Ernani Lopes a pasta das Finanças para pôr de pé as medidas preconizadas pelo FMI.

16/04/2011

A caminho dos amanhãs que choram os pastorinhos abandonam o barco (5 Bis)

[Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)]

Não consigo deixar de me surpreender com as conversões nos últimos tempos. Uma das mais surpreendentes é a de Daniel Amaral. Como já aqui escrevi, só os burros não mudam, eu sei, mas serão precisos 4-anos-4 para perceber onde nos iria conduziria o governo de José Sócrates? Chamar agora «ilusionismo» aos seus golpes de teatro, a propósito das exportações, não será um pouco tarde? E desde quando o défice da balança corrente anda pelos 10% e é o mais alto da Zona Euro?

Há um mês e meio escrevi este post que, como se vê por este artigo do mesmo Daniel Amaral, continua actualíssimo. Como quase todas as conversões, também esta tem períodos de dúvida e fraqueza e o risco do convertdo cair em pecado outra vez. Lá vem o discurso de Bruxelas ter alegadamente alterado as regras a meio do jogo, quanto ao BPN e BPP e à inclusão das empresas de transporte no perímetro do orçamento, impedindo assim o governo de ajeitar o défice de 2009 e 2010. Acontece que as regras há vários anos estavam definidas e a única coisa que aconteceu a meio do jogo foi o governo ter que cumprir o que até agora fingia ignorar. Não há razões para o pastorinho Amaral irresponsabilizar o governo. Poderá haver razões para responsabilizar o Eurostat por ter andado a dormir na forma ou, pior ainda, ter andado a assobiar para o lado.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (39) – o pior de tudo é ser verdade

Como se não fosse suficientemente mau para a gente honrada sobrevivente no PS, ler um editorial de jornal (José António Saraiva no SOL) baptizar de pastor da IURD o secretário-geral do seu partido e de encontro dessa seita o congresso do PS em Matosinhos, o pior de tudo é isso constituir uma imagem rigorosa do homem e do congresso.

Como foi possível a um partido tão cheio de tradições, com tantas luminárias e tantos egos sensíveis, tantos intelectuais orgânicos, tantos lutadores anti-fascistas, descer tão baixo? Será a sofreguidão do poder?

15/04/2011

De vitória em vitória até à derrota final

Silva Pereira, ministro-adjunto, felicitou-se com a redução da despesa pública no 1.º trimestre «como nunca aconteceu no Estado». Sabendo-se, como se sabe, o que têm dado estas auto-felicitações, quando os factos forem conhecidos, expurgados do nevoeiro contabilístico profusamente produzido pelo governo, será provavelmente mais uma realização «como nunca aconteceu» a juntar à dívida pública mais elevada nos últimos 160 anos, à dívida externa mais elevada dos últimos 120 anos, ao desemprego mais elevado dos últimos 80 anos e a segunda maior vaga de emigração desde meados do século XIX.

Post scriptum
Constato que a minha dúvida metódica está em boa companhia. Também Vítor Bento não acredita em milagres e João Duque diz que «essas despesas estão todas camufladas, são uma mentira».

14/04/2011

Um país de rabo entre as pernas

Ou pelo menos os líderes políticos deste país enfiaram definitivamente o rabo entre as pernas. Se bem percebo o que se passou, quer o governo quer o presidente da República foram mandados calar pelo comissário Olli Rehn. Um por não querer negociar com a oposição e outro por estar a pedir «imaginação às instituições europeias» para mandar a grana sem condições.

Isto é apenas o começo das humilhações. E não nos queixemos. Pusemo-nos a jeito e neste momento nenhum país nos respeita. Somos vistos como irresponsáveis e aldrabões inconfiáveis, que falam, falam, não resolvem nada e esperam ajudas e subsídios. É merecido? Podem tentar desculpar-nos com os políticos, mas quem escolheu os políticos que nos representam?

Com a nossa proverbial falta de virilina que nos leva a falar grosso para dentro e a ser atentos, veneradores e gratos para o exterior, não se admirem da Óropa nos vir a tornar num paradigma de país relapso e falhado e nos puna para servir de exemplo e de vacina.

Grau zero da insolvência

Se vendidas aos preços actuais de mercado as participações do Estado, incluindo a CGD, valeriam 12 mil milhões. A situação financeira actual do Estado é a de uma família que tem dívidas maiores do que o seu rendimento de dois anos e os bens de que pode dispor para vender não são suficientes para pagar as prestações dos próximos 6 meses.

O que têm o neo-liberalismo ou a crise mundial, ou as agências de rating, ou os especuladores, ou a Sr.ª Merkel ou a oposição ou a sofreguidão da oposição a ver com isto?

13/04/2011

NÓS VISTOS POR ELES: O nosso fa®do

«Novo governo em Portugal não fará grande diferença», Marcel Thieliant, economista do Credit Suisse.

Demissão de Sócrates «só adiou o inevitável» - Andrew Balls, analista da Pimco.

SERVIÇO PÚBLICO: A obra feita de José Sócrates

Quadro extraído de «O "orgulho" (!?) de Sócrates» de Miguel Frasquilho no Negócios online


Dívida pública 1850-2010 (Gráfico extraído do Quarta República)


Desemprego 1932-2011 (Gráfico extraído do Quarta República)

O radical chic não se entende

Perante o anúncio dos banqueiros do regime de que não comprariam mais dívida pública e o conselho de mandar vir o FMI, o deputado berloquista Pureza disse que é «um golpe de estado palaciano que pretende ditar, fora da democracia e contra ela, o destino do País no próximo futuro». A deputada socialista Ana Pasionaria Gomes, por seu turno, condenou-os por terem comprado dívida pública e assim «ajudarem a esmifrar o Estado e viverem à sua conta».

Sabendo-se que os bancos têm 40 mil milhões de dívida pública com um juro médio múltiplo do juro que pagam ao BCE nos empréstimos em que dão como colateral a dívida pública, se tivesse que escolher, escolhia a versão da pasionaria substituindo o Estado por contribuintes.

BREIQUINGUE NIUZ: A guerra dos economistas

A semana passada foram os economistas berloquistas que fizeram queixa das agências de rating ao PGR. Esta semana são economistas (e juristas) alemães que avançam com uma providência cautelar no tribunal Constitucional tentando impedir o resgate a Portugal.

As minhas simpatias vão mais para o lado dos economistas alemães, que estão a tentar que o dinheiro deles não seja mal gasto pelos portugueses, do que para o lado dos berloquistas que estão a tentar que as agências de rating abençoem a utilização do dinheiro alemão pelos portugueses.

12/04/2011

Lost in translation (98) – nós já sabíamos, mas é sempre reconfortante ter a confirmação

«Esperamos que os portugueses percebam que, se não virem a TVI, ficam mal informados», disse José Alberto de Carvalho o actual director de informação da TVI, acabado de chegar da RTP, reconhecendo ter andado vários anos a informar mal os portugueses como porta-voz da câmara de eco do governo.

Pro memoria (25) – o euro dos amanhãs que cantariam, segundo o ministro anexo

«...Sem moeda própria não voltaremos a ter problemas de balança de pagamentos iguais aos do passado. Não existe um problema monetário macroeconómico e não há que tomar medidas restritivas por causa da balança de pagamentos. Ninguém analisa a dimensão macro da balança externa do Mississipi ou de qualquer outra região de uma grande união monetária...», garantiu ufano Vítor Constâncio na tomada de posse como Governador do BdeP, em 23 de Fevereiro de 2000.

DIÁRIO DE BORDO: Um exercício de pactologia nacional – ainda o equívoco da crise mundial

aqui tinha escrito sobre o equívoco do chamado Compromisso Nacional acerca do papel da crise mundial nas nossas desgraças, que vieram para ficar, quando se assiste à China, à Índia e ao Brasil a crescerem a dois dígitos ou quase, a África a 4 ou 5%, os Estados Unidos a 3%, a maior parte da Europa ao redor dos 2%, a OCDE a 2,9% e a economia mundial a crescer 4,5%, segundo a estimativa do FMI.

Agora ficámos a saber que o mesmo FMI, prestes a emprestar-nos uns dinheiros para nos conseguirmos arrastar nos próximos anos, também prevê que Portugal será o único país do mundo em recessão em 2012. Continuar a tese da crise mundial é um exercício de ignorância ou de má fé, além evidentemente de um exercício perigoso pela irresponsabilização implícita da clique socrática, por esconder num nevoeiro analítico a génese da nossa crise e por induzir medicinas erradas – as mesmas de sempre que nos trouxeram até aqui.

SERVIÇO PÚBLICO: A mentira sem fronteiras



Prime minister, did you lie to me?

I feel cheated. Big time. And by the leader of a Western European nation no less!
A few months ago, Jose Socrates, the prime minister of Portugal, was in Doha and made an appearance on Al Jazeera's business programme Counting the Cost, which is fronted by yours truly.
Obviously I wanted to talk about Portugal's precarious debt situation, and all the talk from markets and analysts that the country's visit to the EU and IMF for a financial bailout was a foregone conclusion.
There's a link to that specific programme and interview here.
Watch it, if you've got 10-15 minutes spare, and tell me if you think Mr Socrates was being genuine when he told me "we don't need any kind of help but confidence". And when he assured me that a financial bailout wouldn't be necessary.
Because two weeks ago he was forced out as prime minister. Predictably so, I have to say, because garnering support for more austerity measures was always going to be politically difficult.
But now, in what's amounting to a parting shot, he's ended up going to the EU and IMF for the very bailout which he told me he didn't need!
Now I'm trying to figure out, Mr Socrates... (if you're reading this)... did you lie to me, or did you just not know how bad the situation really was?
Did you deceive, or were you delusional? Or were you just putting a brave face for the TV cameras?
See, now I'm confused as well as feeling cheated! Argh!!
Okay, I'll dispense with the personal dramatics now and get to the point.
Europe is still in bad economic shape. No one can deny that. So would a leader like Mr Socrates have been better served coming clean earlier?
Perhaps he didn't have to fully admit during that interview back in January that Portugal would definitely need a bailout... but maybe he could have acknowledged the market's concerns, and conceded that he would in fact go to the EU and IMF if the situation warranted, and if it was in Portugal's best interests.
Wouldn't the market and analysts and investors have liked that better?
Yes there'd have been some immediate bad press, but in the long run I wonder if it would have served people better?
And by people, I mean politicians AND the public.
It is the eternal conundrum of business and economics. Say nothing, and risk the destructive power of rumour. Tell all, and risk people not liking the truth of the situation.
But if there's even a chance of that 'awful truth' emerging later on down the road, isn't it better throwing up a few signposts ahead of time, so it's not such a shock when it does happen?
I'm not a politician or an economist. I'm a journalist who observes and questions such people and their actions.
I can't put myself in Mr Socrates' shoes - leading a country and having to make decisions which affect so many millions of people.
Frankly I think it takes an extraordinary type of person to even want to do that.
But while I'm pretty confident he did what he thought was best for Portugal at the time, and in going to the EU and IMF now is doing the very same... I also wonder if Mr Socrates himself were to watch that interview again, would he still think he said the right thing on that January afternoon in Doha?


Kamahl Santamaria, apresentador da Aljazeera que entrevistou José Sócrates em Janeiro deste ano [enviado por AB]

11/04/2011

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (38) – silêncio apenas brevemente interrompido por sussurros quase inaudíveis

«Estes seis anos de governação não foram perfeitos (e os eleitores farão o seu julgamento), mas o estado a que chegámos tem uma explicação mais longa no tempo e não se resolve apenas com mais austeridade. Sem demagogia, considero que um futuro mais digno exige políticos que sirvam o País. Pode parecer irrealista mas não tenham dúvidas que pode ser possível, um dia
[Manuel Arcanjo, no Negócios online]

À atenção dos senhores dos compromissos: tomem nota deste nome, porque não há muitos mais com quem se possa fazer um princípio de conversa.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O estado simplex

10/04/2011

DIÁRIO DE BORDO: Um exercício de pactologia nacional

Ao ler o texto do Compromisso Nacional (com maiúsculas para acentuar a transcendência da iniciativa) assinado por 47 personalidades, a memória faiscou-me e recordei o inefável professor Carrilho e o neologismo que há uns anos inventou, por mim diligentemente preservado no Glossário das Impertinências:

Pactologia
«Recurso à conversa dos consensos para ocultar a incapacidade de se assumirem posições difíceis, em nome das quais, justamente, se foi eleito».

O professor Carrilho não se deu ao trabalho de definir «consenso» e deixou-me o encargo de o fazer também no Glossário:

Consenso
Um acordo virtual, sobre matérias que não se sabe exactamente quais são, mas sobre as quais se suspeita existirem opiniões muito diferentes, que nenhuma das partes está muito interessada em conhecer. Durante o processo de procura do consenso todos se sentem obrigados a fingir boa vontade para chegar a resultados práticos que, em definitivo, ninguém quer chegar. Há dois desfechos possíveis para o consenso: o positivo e o negativo (em rigor equivalem-se nos efeitos finais). No consenso positivo concorda-se com «grandes princípios», o que entre gente sem princípios não significa o que significa. No consenso negativo concorda-se que não se concorda, por a outra parte estar de má fé como se demonstrou durante o processo negocial (quem está de má fé é afinal o único ponto insusceptível de consenso).

Esclarecidas estas questões metodológicas, constato que o amplo consenso conseguido no Compromisso Nacional é, como não podia deixar de ser, baseado em equívocos, o menor dos quais não é o de esperar que o próximo governo seja «suportado por uma maioria inequívoca».

Os equívocos começam no diagnóstico onde predomina a tese oficial da esquerdalhada, agora convertida em tese de bloco central, de que na génese da crise portuguesa está a crise financeira e económica mundial cuja origem foi nos Estados Unidos (where else?). O facto da China, a Índia e o Brasil crescerem a dois dígitos ou quase, a África a 4 ou 5%, os Estados Unidos a 3%, a maior parte da Europa ao redor dos 2%, a OCDE a 2,9% e a economia mundial a crescer entre 3 e 4% 4,5% segundo a estimativa do FMI, não parece abalar o diagnóstico do compromisso. Só faltou dizer que a crise se deveu à ganância do capitalismo neo-liberal. Por cá teríamos talvez uns problemazitos, coisa de pouca monta, e por fatalidade, pelo fado ou pelo destino somos «mais vulneráveis».

Para usar a síntese de Carlos Abreu Amorim, «hoje, a nossa média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos. Temos a maior dívida pública dos últimos 160 anos e a dívida externa mais alta dos últimos 120. O desemprego é o mais elevado dos últimos 80 anos e conhecemos a segunda maior vaga de emigração desde meados do século XIX». Como e porquê chegámos aqui? Não há responsáveis por isto? Somos todos responsáveis? [vou escrever sobre a minha responsabilidade, um dia destes]

Dirão os «pragmáticos», os diagnósticos não interessam. O que interessa são as medidas. Ah é? E as medidas não são soluções para os problemas que os diagnósticos pretendem identificar? E como se consegue o milagre de chegar a acordo quanto às soluções quando não há acordo sobre os problemas? Concretizando, se a nossa crise resulta da crise financeira criada pela ganância do capitalismo neo-liberal americano, só temos que esperar que o camarada Obama trate do assunto. Nós por cá todos bem. Vamos continuar a insuflar a ficção do Estado Sucial, a engordar o «monstro» do doutor Cavaco, a alimentar as corporações que o habitam e a abençoar a promiscuidade entre este Estado e o empresariado do regime.

Os equívocos continuam na medicina dos compromissos. Compromisso entre o presidente, o governo e os principais partidos para mais um PEC - o PEC 4.1, uma versão melhorada do rejeitado pelo parlamento que agora aprovará o que antes rejeitou. Compromisso entre os principais partidos, com a bênção presidencial, para assegurar o suporte por uma «maioria inequívoca».

Além de equívocos potencialmente nocivos, como todos os equívocos o são, estes compromissos são inúteis porque em matéria de medidas de curto prazo, isto é em matéria de PEC, o que se fará é o que o eixo Paris-Bruxelas-Frankfurt-Berlim mandar que seja feito. A curto prazo, qualquer governo fará o papel de gestão do protectorado portucalense. A diferença são as reformas a médio e longo prazo que o país precisa para sair do buraco onde o conduziu a presença asfixiante do Estado omnipresente. E nesta matéria não há compromissos – haverá alternativas, se as houver, o que também não é certo se o PSD continuar a ser um PS com outra gente e os mesmos hábitos.

09/04/2011

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Simplesmente governador. Não é ministro e muito menos anexo

Secção Res ipsa loquitur

Tiremos o chapéu ao governador do BdeP por, perante a ameaça de submersão da banca pelos 40 mil milhões de euros de dívida pública, ter dado corda aos sapatos e tomado uma atitude firme perante os bancos, o governo e o presidente, levando a fechar a torneira que vinha alimentando o financiamento do estado falido e empurrando a declaração de falência para a frente.

Cinco afonsos (inclui estes dois de reserva) pela firmeza de Carlos Costa, que assim envergonhou, mais uma vez, o ex-ministro anexo Constâncio.

As agências de rating são como os alcatruzes – umas vezes para cima, outras vezes para baixo

Quatro economistas ligados ao ao berloquismo, tele-evangelismo e causas fracturantes vão apresentar uma denúncia ao PGR contra a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor’s por «violações ao dever de apresentação objectiva e imparcial de recomendações de investimento a que estão obrigadas» as quais, segundo eles, configuram «comportamentos presumivelmente criminais» criando «um conflito de interesses na actividade destas agências de notação financeira, em particular quando baixam os ratings a estes países [Portugal, Espanha, Grécia ou Irlanda, entre outros], fazendo aumentar os juros das suas dívidas e influenciando a evolução de um mercado em que actuam os fundos financeiros que são seus proprietários».

Se eu investisse em dívida pública portuguesa, adicionaria outra denúncia: a da manutenção do rating da dívida portuguesa, fazendo diminuir os juros numa altura em que aqui no (Im)pertinências já era evidente o nível de junk. Para citar um único exemplo, a Standard & Poor’s só em Abril do ano passado baixou o rating de longo prazo da dívida portuguesa de A+ para A-, numa altura em que a Grécia já era BBB+, o que constitui uma clara violação «ao dever de apresentação objectiva e imparcial de recomendações de investimento a que estão obrigadas».

08/04/2011

BREIQUINGUE NIUZ: Espera-se a todo o momento o anúncio da rodagem do docudrama «Realengo, uma Columbine tropical» dirigido por Michael Moore

«Um homem armado invadiu uma escola da zona de Realengo, no Rio de Janeiro, disparando indiscriminadamente, sendo relatadas as mortes de 13 pessoas, 12 delas crianças

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A batota como política orçamental oficial

Montagem da Infografia do Negócios online

Pro memoria (24) - José Sócrates, de animal feroz a pedinte, em apenas 18 dias

  • 19-03-2011 «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI»
  • 04-04-2011 «Entre nós e o FMI há 10 milhões de portugueses»
  • 06-04-2011 «O Governo decidiu dirigir à Comissão Europeia um pedido de financiamento»
Lembrete aos distraídos: o «pedido de financiamento» à CE vai ser atendido pelo FEEF o qual, como se sabe, só fará um empréstimo em conjunto e sob as condições acordadas com o FMI.

07/04/2011

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: É também uma questão de incompetência (2)

Como se pode ver no gráfico, a concentração da dívida a vencer a curto prazo é tão grande que conseguir a sua renovação nas condições actuais exigiria um custo tão elevado que engoliria a poupança, aniquilaria o investimento e liquidaria a economia. Ou então nos obrigará a um bailout do FEEF-FMI (já se viu que a FMI virá sempre no pacote – felizmente), a uma reestruturação da dívida com reescalonamento e muito provavelmente a um haircut e à renegociação dos juros, como aqui no (Im)pertinências se vem prescrevendo há muitos meses.

O parágrafo anterior foi escrito há duas semanas e também se aplica, palavra por palavra, ao gráfico do WSJ aqui ao lado.

Ó Luís vê lá na … se … como é que fico … vou olhar prós …


Se o homem convertesse um módico das suas competências mediáticas e manipuladoras em competências de governação e perseguisse o interesse do país e não o da sua clique, outro galo cantaria e não estaríamos onde nos conduziu.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (37) – ainda haverá gente honrada no PS?

«O socialista Narciso Miranda defendeu hoje que o Governo caiu porque José Sócrates quis, considerando que foi um "golpe de mestre"» e considera Sócrates «parte do problema e não de qualquer solução». Ainda haverá gente honrada no PS? A pergunta é (im)pertinente porque, salvo erro, a nomenclatura socialista não parece considerar um paradigma de honradez Narciso Miranda, um dos raríssimos socialistas a expressar opiniões heréticas.

Conversa fiada (4) – aldrabice até ao fim

«O factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado», disse uma «fonte governamental» à agência pública Lusa central de manipulação da clique socrática.

BREIQUINGUE NIUZ: Seis em cada dez portugueses têm aquilo que merecem

Segundo a sondagem da Católica:
  • 57% dos portugueses não consideram o governo socialista responsável pela bancarrota do Estado;
  • 61% não perceberam ainda que chegámos ao fim da linha e o bailout é indispensável.

Os amigos hermanos são para as ocasiões

Elena Salgado, a ministra espanhola da Economia diz que «não há risco de contágio e que a economia espanhola é “mais competitiva” e tem um “maior potencial” do que a economia portuguesa».

A memória dos banqueiros é mais curta do que a dos povos


Fernando Ulrich (BPI)
29 Outubro – “Entrada do FMI em Portugal representa perda de credibilidade”
26 Janeiro – “Portugal não precisa do FMI”
31 Março – “por que é que Portugal não recorreu há mais tempo ao FMI”

Santos Ferreira (BCP)
12 Janeiro – “Portugal deve evitar o FMI”
2 Fevereiro – “Portugal deve fazer tudo para evitar recorrer ao FMI” 4
 Abril – “Ajuda externa é urgente e deve pedir-se já”

Ricardo Salgado (BES)
25 Janeiro – “não recomendo o FMI para Portugal”
29 Março – “Portugal pode evitar o FMI”
5 Abril – “é urgente pedir apoio .. já”

[Do Cachimbo de Magritte - cheguei lá pelo Insurgente]

06/04/2011

BREIQUINGUE NIUZ: Já por lá passámos a correr há um mês e meio

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (50) – read my lips or see my leaps?

Como que a dar razão ao WSJ, quando escreveu «no one has done more to revive the reputation of Bush-era antiterror policies than the Obama Administration», vários anos depois de ter anunciado o encerramento de Guantanamo e de ter prometido julgar os detidos em tribunais civis, o presidente Obama decidiu que Khalid Sheikh Mohammed e outros acusados terão um julgamento militar em Guantanamo. Com dois anos e meio de atraso e depois de muita demagogia o obamismo converte-se ao bushismo.

Felizmente vamos ter a oportunidade em breve de agradecer ao senhor engenheiro o que tem feito por nós

«Hoje, a nossa média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos. Temos a maior dívida pública dos últimos 160 anos e a dívida externa mais alta dos últimos 120. O desemprego é o mais elevado dos últimos 80 anos e conhecemos a segunda maior vaga de emigração desde meados do século XIX.» (Carlos Abreu Amorim no JN)

05/04/2011

Chamem os bombeiros. A casa está a arder

Segundo Pedro Santos Guerreiro do Jornal de Negócios, houve ontem uma reunião secreta no BdeP dos presidentes dos maiores bancos, presume-se que sejam Caixa, BES, BCP, BPI e Santander. Nessa reunião os presidentes informaram que não comprarão mais dívida pública. Uma pergunta e uma dúvida. Pergunta: se a reunião foi secreta como ficou o JN a conhecer o que lá foi dito? Dúvida: se o que lá foi dito é mesmo o que disserem que foi, onde irão os bancos buscar as belas margens (entre 3% e 5% conforme os prazos) que estavam a obter entre as taxas dos leilões e as taxas do BCE?

CASE STUDY: O que esperar do Mecanismo Europeu de Estabilidade?

Um dos propósitos das manobras dilatórias de José Sócrates era arrastar-se sem bailout até ao Conselho Europeu de 25 de Março onde supostamente seria criado (e foi) o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). O MEE, esperava ele, viria a comprar abundantemente dívida pública no mercado primário a taxas de juros para amigos em troca das suas promessas envelopadas em PECs.

Erro dele, má fortuna. O MEE só funcionará a partir de 2013, em qualquer caso muito para além do adiamento possível da insolvência portuguesa, e, pior do que tudo, os empréstimos do MEE terão preferência no reembolso e obrigarão os Estados devedores a incluir nas novas emissões de dívida a colocar nos mercados uma cláusula que obrigará os investidores a participarem na eventual reestruturação da dívida incluindo haircut, perdão e/ou redução de juros, e o mais que for necessário. Imagine-se a que preços irão ser colocadas estas emissões e que yield irão ter.

Além disso, o acesso ao MEE terá como condição a adopção de programas de consolidação orçamental que farão inveja ao FMI.

Pior a emenda do que o soneto.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: O que nos teria acontecido se não fosse o senhor engenheiro? (3)

[Continuação (1) e (2)]

Por umas contas de merceeiro, cheguei a uns hipotéticos 190 milhões de euros relativamente só aos leilões no 1.º trimestre torrados pelo governo patriótico por não ter negociado um bailout em devido tempo.

Se as contas do Diário Económico estiverem certas, com os leilões previstos para o 2.º trimestre, o custo da propaganda do PS , para evitar o inevitável e recomendável, sobe para 330 milhões de euros, a adicionar aos 190 milhões que estimei para o 1.º trimestre.

Se eu fosse um economista novo situacionista deveria aplicar aos 520 milhões de juros adicionais o multiplicador de (des)investimento que esses economistas costumam aplicar ao dinheiro torrado na despesa pública (a que chamam investimento público) e chegaria a facilmente a uns mil milhões de euros.

04/04/2011

Em 2005 Medina Carreira era quase tão optimista quanto José Sócrates em 2009

Em 2005, Medina Carreira previa:
«Como não vamos ter [um crescimento acentuado da] economia tão cedo, corremos o risco, se não tratarmos do Estado, de acabar por estoirar com o Estado porque, com a economia a crescer 1,3 por cento [do Produto Interno Bruto] anualmente, nós vamos falir antes de 2015». (*)
Falimos 5 anos antes do previsto pelo mais notório pessimista ou, vá lá, 4 anos se considerarmos a versão oficial.

Em 2009, no vídeo de propaganda do PS (aos 25 s), José Sócrates pela boca do locutor garantia:
«Este foi o rumo adoptado pelo governo do PS para enfrentar a maior crise económica mundial dos últimos 100 anos. Esta foi a estratégia que possibilitou que Portugal fosse um dos primeiros países europeus a sair da recessão».
A saída de Portugal da crise foi um flop ainda maior do que a inexistente crise mundial de José Sócrates com a China, a Índia e o Brasil a cresceram a dois dígitos ou quase, a África a 4 ou 5%, os Estados Unidos a 3%, a maior parte da Europa ao redor dos 2% e a economia mundial a crescer entre 3 e 4%.

(*) Muito bem lembrado no post «Delírios de um optimista» do Blasfémias, com um título que é um rótulo só possível de aplicar a Medina Carreira pelas acções resultantes do génio de José Sócrates.

O rugido do tigre vs o miado do gato (2)

Fizeram o favor de me lembrar que aqui foi esquecida a referência ao indicador que definitivamente potencia o miado do gato e silencia o rugido do tigre: Portugal têm 3,7 vezes mais polícias por 100.000 habitantes do que a Irlanda (520 contra 140). O que não admira, porque já há 4 anos aqui se registou ser Portugal o quarto estado mais policiado do mundo – apesar de não parecer, porque os nossos polícias não são vaidosos e não andam por aí a exibir-se, preferindo descansar nas esquadras.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O clube mais português de Portugal

Imediatamente após terem perdido em casa e confirmado o título do FêCêPê, os lampiões fizeram uma demonstração do porquê alegam ser o clube português com mais adeptos: desligaram a electricidade (a Luz já estava desligada) e ligaram o sistema de rega. Melhor não é possível.

03/04/2011

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: O que nos teria acontecido se não fosse o senhor engenheiro? (2)

[Continuação daqui]

Felizmente Portugal tem tido a sorte de dispôr vai para 7 anos de um governo patriótico e competente. Patriótico porque se tem batido tenazmente contra a intervenção do par FEEF/FMI, em grande parte justificada pelo resultado da governação nesses 7 anos. E competente porque assim tem conseguido evitar o descalabro financeiro que resultaria dessa intervenção, segundo a narrativa oficial.

Quereis exemplos? A Grécia um país quase falido, que se não fosse a hábil manobra dos nossos timoneiros Sócrates & dos Santos nos teria contaminado, pede emprestado ao FEED a uma taxa de 4,2% e ao FMI a uma taxa de 3,3%. A taxa ponderada (1/3 FMI, 2/3 FEEF) é 4,45% 3,90%.

Desde o princípio do ano, o IGCP colocou 3,9 mil milhões de OT a uma taxa ponderada de 5,92%, ou seja mais 147 202 pontos base ou mais 25%  52% do que se tivesse as condições da Grécia. Os 5,5 mil milhões de BT este ano foram-no apenas para fugir às taxas dos prazos mais longos e criarão uma pressão tremenda no curto prazo. Se considerarmos a totalidade de 9,4 mil milhões das emissões de OT e BT, Portugal vai pagar mais 140 190 milhões de juros por ano do que teria pago se tivesse as condições de Grécia. É só fazer as contas, como um dia disse o inimitável Guterres.

Correcção:
Demonstrando que o inimitável Guterres é, afinal, imitável, e que ninguém está imune à maldição da tabuada, as contas estavam erradas. Os números correctos são os agora indicados.

O rugido do tigre vs o miado do gato

No passado sábado o Expresso publicou mais um número da série Portugal vs outro país. Depois da Bélgica, da República Checa e do Chile, foi a vez da Irlanda. A Irlanda com menos de metade da população tem um PIB quase igual ao português, uma carga fiscal das empresas metade da portuguesa, está 17 lugares acima de Portugal no ranking da competitividade, tem um excedente de 15% do PIB na balança comercial, contra um défice português de 8%, tem uma desigualdade menor do que a de Portugal, sem esquecer que em 20 anos partiu de um PIB per capita quase igual ao português para ter actualmente o dobro. O seu sistema bancário está de rastos enquanto o nosso lá vai rastejando muito à custa do negócio de emprestar ao Estado a taxas de 4 a 6% e pedir emprestado ao BCE a 1%.

Face a este versus o que concluem os pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam do Expresso? «O tigre já não ruge» e nada dizem sobre os miados do tareco lusitano. E o que pensa disso o grande pensador do regime Freitas do Amaral? «A Irlanda, hoje, não é exemplo para ninguém». Para ninguém? Para Portugal ainda pode ser um exemplo?

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Admiramos secretamente os grandes aldrabões

«No nosso país, uma pessoa que trabalhe todos os dias e que tenha de assinar ponto é visto como um falhado.
Caricaturando a coisa, pode dizer-se que em Portugal só quem não sabe fazer mais nada é que trabalha, isto é, tem uma rotina, cumpre horários, produz e presta contas.
Os portugueses, além de europeus, são culturalmente mediterrânicos, o que não nos afasta muito dos gregos, dos italianos e dos espanhóis do Sul, com todas as influências que são ditadas pela geografia, pelo clima e pela religião. Sermos judaico-cristãos é muito diferente de sermos calvinistas e protestantes. Além disso nunca corremos o risco de morrer de frio e estamos na periferia, não tivemos guerras e ninguém nos chateou. Na verdade, somos muito individualistas e estamos mais próximos dos norte-africanos do que dos povos do Norte da Europa.
Somos um país mais mediterrânico do que atlântico, com todas as implicações que isso tem até na nossa produtividade.
A diferença entre nós e os nórdicos não está nos genes, é fruto da cultura e da educação, da geografia, do clima e da religião. Eles tinham frio, era-lhes difícil cultivar cereais e não tinham vinho. Para sobreviverem tiveram de estimular a inovação e a cooperação. Ao contrário de nós, que tínhamos um bom clima, uma agricultura fértil e peixe com fartura. E depois tivemos África, a seguir o Brasil e logo os emigrantes. Não precisámos de nos organizar e não precisámos de nos esforçar. Não era preciso. Não planeávamos, desenrascávamos. Continuamos assim, gostamos de resolver catástrofes.
Não é só com a desgovernação do actual governo, é com o desnorte dos últimos vinte e tal anos. O que nos está a acontecer não resulta apenas da desorientação dos últimos dois anos, já há muito que gastamos acima do que podíamos e devíamos. E o mais grave é que demos sinais errados às pessoas. Agora, vamos ter de evoluir de novo para uma sociedade com capacidade de produção real, com agricultura e pesca.
Desde o tempo do Dr. Salazar que o Estado faz questão de proteger os seus e nós temos aprovado esse amparo. Mas os nossos cidadãos não têm grandes conhecimentos e perguntam pouco, até temos aquela afirmação extraordinária que é «se não sabes porque perguntas?». Ora quando temos dúvidas é que devemos perguntar. Por estas e por outras, nas últimas décadas, dominado por ciclos eleitorais curtos, o Estado passou a viver acima das suas possibilidades e a substituir-se à realidade. E, de repente, a realidade caiu em cima do povo.
Podemos ofuscar o real durante algum tempo, mas não para sempre. As imagens da Grécia, com reformas aos 55 anos ou até mais cedo para as chamadas profissões de desgaste rápido, permitiram-nos perceber que se eles tinham entrado em colapso também nós corríamos o risco de vir a acontecer-nos o mesmo. Até essa altura, creio que muitas pessoas acreditavam, lá no seu íntimo, que nem os países, nem a segurança social, nem o Serviço Nacional de Saúde (SNS), nem as câmaras municipais podiam entrar em bancarrota. Agora já perceberam que isto pode mesmo entrar em ruptura. Para já reduziram até dez por cento o ordenado dos funcionários públicos, mas no ano que vem pode vir a ser necessário chegar aos vinte por cento. E que é que adianta andar a papaguear que é inconstitucional e que mexe com os direitos adquiridos? Se não há dinheiro o que é que se faz? Esta questão é que tem de ser respondida.
Os nossos líderes e os seus partidos vivem mais para ganhar eleições do que para servir o país e os interesses da nação. Na administração pública até os directores-gerais cessam funções quando há mudança de governo. Ora é óbvio que, assim, qualquer um quer que o seu partido continue no governo, se não corre o risco de ir para a rua. O nosso individualismo militante e a fragilidade organizativa contribuem também para a ingovernabilidade.
E quando ouço os economistas falarem ainda fico espantado. Como é que eles não se aperceberam de que aumentando progressivamente o défice tínhamos uma receita para o desastre? Sei que vamos ter de mudar de vida. Se tivermos de o fazer num contexto de protecção da Europa e do euro prefiro a solução FMI a ter de saltar do euro e ir para soluções do domínio da magia, com a desvalorização da moeda, altivos e sós.
Nós somos mal governados em parte por culpa própria, em parte pela escassez de líderes exemplares. Pior, nós admiramos o sucesso do aldrabão. Em Portugal não há censura social para a esperteza saloia nem para a corrupção a que passámos a chamar informalidade. Pelo contrário, admiramos os esquemas, os expedientes. Vivemos deles.
A nossa tragédia é que somos um povo pré-moderno. Não perguntamos, não responsabilizamos, não exigimos nem prestamos contas. Não temos a literacia nem a numeracia necessárias. Outro problema é a falta de transparência, a opacidade. Olhe o que se passou com o BPP e com o BPN, histórias tão mal contadas.
Não metemos ninguém na cadeia, deixamos os problemas eternizarem-se sem punições, mas também não recompensamos ninguém. O Estado é burocrático, não nos deixa avançar, mas dá-nos segurança. A nossa tradição é empurrar os problemas com a barriga esperando que se resolvam por si. Quando as coisas dão para o torto somos injustos ou por excesso ou por defeito. Quem tem muito poder económico pode recorrer a expedientes e a mecanismos dilatórios que são usados de maneira desproporcionada. Quem não tem esse poder é totalmente vulnerável. Somos demasiado tolerantes, somos condescendentes, no mau sentido, aderimos mais ao tipo que viola a lei do que ao polícia. Temos afecto pelo fulano que faz umas pequenas aldrabices, admiramos secretamente os grandes aldrabões, não punimos os prevaricadores. Na verdade somos contra a autoridade.»

[Excertos da entrevista de Célia Rosa a Sobrinho Simões, Notícias Magazine, 5 de Dezembro de 2010]

Falando da minha própria experiência, eu acrescentaria que nosso país, uma criatura trabalhadora, pelo menos medianamente competente, diligente e responsável tende a ser vista, na melhor hipótese, com benevolência, como alguém pouco inteligente que ainda não percebeu como as coisas funcionam - o que pode um sujeito íntegro com um QI 130 face a um chico esperto com um QI 90? Na pior hipótese, se tiver um saco pequeno para aguentar os songamongas e os chico espertos, como é o meu caso, será visto como um problema e uma ameaça ao bem-estar da coligação songamongas-chico espertos.

É por tudo isto que temos as elites que temos e é por isto que essas elites desprezam a populaça e ao mesmo tempo lhes dão graxa, pressentindo que só com esta populaça podem ser elites.

02/04/2011

De boas intenções está o inferno cheio (6)

«Um inquérito levado a cabo pelo Negócios, pela Inteli e pela CEIIA (Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel) revela que mais de metade das pessoas inquiridas ponderam adquirir um veículo eléctrico.» (Ver notícia devidamente ilustrada com uma foto do melhor gestor de empresas incumbentes quase-monopolistas em mercados regulados e fortemente subsidiados de quem um dia posso vir a ser admirador) O mesmo inquérito poderia ter revelado, se as perguntas pertinentes tivessem sido feitas, que mais de metade das pessoas inquiridas ponderam passar férias nas Seychelles, ter uma casa na Quinta da Marinha e passar uma noite com o Brad Pitt / Angelina Jolie.

CASE STUDY: quem é o deus ex machina da Ongoing? (12)

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10) e (11)]

Já se sabe quem é a Ongoing, o seu deus ex machina (os Espíritos) e, pela boca de Armando Vara, o que podemos esperar dos seus timoneiros (Nuno Vasconcelos e Rafael Mora). Também se sabe que, durante muitas semanas, o Expresso teve várias páginas de publicidade paga, que ninguém leu, a mostrar a «verdura» dos Espíritos - uma boa ajuda para as degradadas finanças da Imprensa.

E ficou-se a saber que o conúbio dos Espíritos com o polvo socialista através dos corpos da Ongoing continua, desta vez via José António Pinto Ribeiro (ex-ministro da Cóltura do 1.º governo Sócrates) e Diogo Pereira Duarte (um sócio de Pinto Ribeiro na sociedade de advogados), dupla de onde sairá um administrador da Imprensa em representação de Nuno Vasconcelos o elo de ligação entre o deus BES e a machina Ongoing.

A defesa dos centros de decisão nacional (5) - a procissão continua a sair do adro

[Continuação de (1), (2), (3) e (4)]

«Eletrobras estuda compra de 10% da EDP»

01/04/2011

Pro memoria (23) – não precisa, não quer ou não tem legitimidade para pedir?

  • 25-03-2011 «José Sócrates garante que Portugal não precisa de ajuda e vai defender-se dos especuladores»
  • 27-03-2011 José Sócrates: «Lutarei com todas as minhas forças para que isso não aconteça»
  • 29-03-2011 José Sócrates: «O governo não tem nenhuma intenção de fazê-lo»
  • 31-03-2011 Teixeira dos Santos: «O Governo não tem legitimidade, nem condições, nem poder, nem a credibilidade necessária para poder merecer a confiança das instituições internacionais que nos podem ajudar»
  • 01-04-2011 «Bruxelas garante que Governo pode pedir ajuda»

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Um exemplo para o patriota inquilino de Belém

[Recebido sem indicação da fonte original. Pela crítica simplista ao “rotativismo” parece-me que o autor seja um monárquico.]

Quando José Dias Ferreira, bisavô de Manuela (Dias) Ferreira Leite, chega a chefe do Governo em 1892, encontrou um país de "tanga", por força de elevados investimentos ferroviários e em estradas e portos. A dívida pública representava 81% do PIB e o défice orçamental era de 2%. Juntamente com o Ministro da Fazenda - Oliveira Martins, tio-bisavô do actual presidente do Tribunal de Contas - toma medidas drásticas: subida de impostos, corte até 20% dos vencimentos dos funcionários públicos, suspensão de admissões no Estado, paragem das grandes obras, saída do padrão-ouro e desvalorização cambial.

Durante dez anos, não foi possível recorrer a empréstimos no estrangeiro, dada a situação de bancarrota verificada. O desenvolvimento das infra-estruturas no "fontismo" baseou-se num modelo que se pode considerar como a génese das parcerias público-privadas. Eram concessões dadas a particulares que, muitas vezes, garantiam um determinado rendimento ao investimento e, se este ficasse abaixo desta garantia, havia compensação do Estado.

[Nesse mesmo ano…]

Em 1892 o rei D. Carlos doou 20% (!) da sua dotação anual para ajudar o Estado e o País a sair da crise criada pelo rotativismo dos partidos (nada de novo, portanto).


(Um belo exemplo, enviado por AB, para o patriota que em Belém defende a nação com a batota das contas)

SERVIÇO PÚBLICO: O dia das mentiras é quando o ministro quiser

Na véspera do dia das mentiras, um dia adiantado para o tipo de comunicação que fez, Teixeira dos Santos justificou «a revisão em alta do défice para os 8,6 por cento com as mudanças metodológicas do Eurostat e que levaram à inclusão de três empresas de transporte e à consideração dos impactos da intervenção do Estado no sistema financeiro, nomeadamente nos casos do BPN e do BPP», como «alterações metodológicas [equivalentes a] mudar o marcador muito depois do jogo ter acabado».

Segundo o Eurostat, estas regras foram definidas em Fevereiro de 2000, isto é cinco anos antes do ministro Teixeira dos Santos começar o seu jogo.

Não. Não é mentira

Segundo o estudo de opinião da Eurosondagem, quatro em cada dez portugueses sofrem de socratinismo provavelmente incurável.

O coronel já foi condecorado. E o amigo? Estão à espera de quê?


O coronel-presidente Hugo Rafael Chávez Frías foi condecorado na Argentina com a medalha da liberdade de imprensa (*), uma merecida honra pelo encerramento de dezenas de estações de rádio e vários canais de TV e a constante interferência na mídia venezuelana. Pergunta óbvia: e o amigo José não merece uma medalha? Sócrates tem um curriculum notável e para sermos justos, tirando o caso da TVI que foi um faux pas, conseguiu um (nem sempre) subtil controlo da mídia sem encerrar nada, apenas com um exército de «abrantes» - para os não iniciados abrantes é cognome da legião de assessores incansáveis que promovem a imagem do Chefe, dia e noite na blogosfera e não só.


(*) Apesar de hoje ser dia das mentiras, a notícia é de ontem.

31/03/2011

O animal feroz pedinte tenta sem sucesso hipotecar o país

Instada por José Sócrates a dar alguma coisinha para o peditório da dívida pública, a presidenta Dilma, como ela se auto-proclama, enxotou o vendedor de automóveis do país, explicando que «a única alternativa que nós vemos para esse caso é a possibilidade de comprar títulos que não são triple A [mas] com garantia. Ou garantia real ou de algum activo que supra essa deficiência».

Como a dívida soberana pública portuguesa está apenas um notch acima do junk, a presidenta Dilma se (um grande SE) emprestasse só poderia fazê-lo com um colateral tipo hipoteca. Algumas sugestões de bens (e males) a hipotecar:
  • Convento de Mafra, afinal foi construído com ouro do Brasil
  • Submarinos
  • Estádios de futebol do Euro 2004
  • Auto-estradas
  • Troço Poceirão-Caia do TGV
  • Terceira travessia do Tejo
  • Acções do BCP detidas pela CGD
  • Acções da Oi detidas pela PT

BREIQUINGUE NIUZ: As portagens nas SCUT CCUT vão ser introduzidas «o mais depressa possível» (11)

Actualizando a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, a sétima, a oitava, a nona  e a décima retrospectivas e confirmando a espantosa incapacidade de realização dos governos de José Sócrates que constantemente se empluma precisamente com a sua alegada capacidade de realização.
  • 06-11-2004 Mário Lino revela que portagens nas Scut irão financiar todas as estradas
  • 20-05-2005 Mário Lino, ministro das Obras Públicas, admitiu que em breve se tenha que proceder à cobrança de portagens nas Scut
  • 07-11-2005 Mário Lino está já a desenvolver um novo modelo geral de financiamento da rede rodoviária nacional, que inclui as Scut, e que deverá ficar concluído em 2006.
  • 19-01-2006 Mário Lino revela que portagens nas Scut irão financiar todas as estradas
  • 18-10-2006, pouco depois das 11h, Mário Lino tornava-se o quarto ministro consecutivo a anunciar o fim das chamadas auto-estradas Scut
  • 30-08-2007 portagens pagas nas ... Scut, anunciada pelo ministro Mário Lino em Outubro do ano passado, só será concretizada, na melhor das hipóteses, em 2008
  • 02-05-2007 negociações para introdução de portagens nas Scut retomadas há um mês
  • 10-10-2007 Mário Lino: Governo vai introduzir portagens nas Scut até ao final do ano
  • 13-11-2007 a implementação de portagens nas três Scuts - até ao fim deste ano - poderá ser adiada para o primeiro trimestre de 2008.
  • 15-01-2008 o processo está «bastante avançado», devendo «estar concluído brevemente»
  • 27-02-2008 Negociações para introdução de portagens «bem encaminhadas», garante Mário Lino
  • 01-03-2008 as negociações com as concessionárias estão bem encaminhadas.
  • 27-05-2008 entrarão em funcionamento «o mais depressa possível».
  • 30-06-2008 «Se pudesse ter amanhã portagens nas SCUT eu fazia»
  • 06-07-2008 «o Governo está a implementar a introdução das portagens nas três SCUT já referidas»
  • 02-10-2008 as portagens nas chamadas SCUT`s vão ser introduzidas «o mais depressa possível» 
  • 27-01-2010 «Há condições para introduzir portagens nas SCUT no 1º semestre»
  • 22-04-2010 «serão introduzidas portagens nas Scut já a partir do próximo dia 1 de Julho» disse Teixeira dos Santos.
  • 29-06-2010 «O Governo tomou a decisão de adiar por trinta dias, até 1 de Agosto, a introdução de portagens nas SCUT Costa de Prata, Norte Litoral e Grande Porto»
  • 24-07-2010 O Governo «não pode aplicar as portagens nas SCUT a 1 de Agosto»
  • 09-09-2010 «Portagens em todas as SCUT até 15 de Abril» 
  • 14-10-2010 «É muita confusão … há um desconcerto …» diz Loreta Fernandez, uma jornalista espanhola da TVE que veio a Portugal para «tentar perceber» o que devem fazer os estrangeiros nas SCUT
  • 16-10-2010 «Portugal implanta el peaje más caro y caótico del mundo», titula El Mundo
  • 16-10-2010 «O processo de cobrança de portagens é caótico», diz a ANTRAM
  • 10-03-2011 «Governo avança com portagens em todas as SCUT a 15 de Abril»
  • 31-03-2011 «O governo decide hoje se avança com cobrança, mas são vários os indícios que apontam para a suspensão.»
Para o governo, «o mais depressa possível» significa pelo menos 6-anos-6 e a baderna que se viu e se vê, isto é o mais devagar possível e o pior possível. Estas portagens de José Sócrates são uma espécie de portagens de Santa Engrácia.

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (8)

[Actualização deste, deste, deste, deste e deste posts]

17-12-2008
O ministro das Finanças (MF) diz que o défice em 2009 será de 3% do PIB e não 2,2% .

05-02-2009
É aprovado pelo PS o Orçamento suplementar com uma previsão 3,9% do défice.

21-04-2009
O MF diz que «a despesa está perfeitamente controlada» e que o défice se mantém (3,9%)

15-05-2009
O MF diz que o défice será 5,9% em vez de 3,9%

04-07-2009
O MF mantém que o défice será 5,9%.

22-07-2009
José Sócratez diz que «está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor no défice do que eu».

09-10-2009
O MF mantém a previsão de 5,9%.

03-11-2009
A CE anuncia uma previsão de 8% e o MF admite a revisão da estimativa anterior (5,9%).

24-11-2009
Défice do Estado dispara para 8,4% do PIB em 2009, em resultado do orçamento rectificativo redistributivo apresentado à AR.

12-01-2010
O ministro admitiu que o défice de 2009 será superior a 8% do PIB.

26-01-2010
Responsáveis do PSD, que tiveram com o Governo negociações sobre o OE, garantiam que o défice iria passar de um valor próximo de 8,7 por cento em 2009.

27-01-2010
Teixeira dos Santos revelou ... que o défice de 2009 atingiu o valor histórico de 9,3% do PIB.

01-02-2010
«Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias», disse José Sócrates, sem explicar porque não tinha o governo sido capaz de antecipar o défice que resultou das suas decisões, nem como tendo as ajudas sido de menos de 2% do PIB causam um aumento do défice de 2,2% para 9,3%.

27-10-2010
«Sim, sou inflexível. O défice de 2011 tem de ser 4,6%» disse Teixeira dos Santos justificando a ruptura da negociação do OE 2010 com o PSD.

31-03-2011
Em consequência da inclusão no perímetro do OE dos défices das empresas públicas que cobrem os custos com menos de 50% de receitas próprias, segundo os critérios do Eurostat desde há vários anos não cumpridos pelo governo socrático, o INE corrigiu os défices de vários anos:
  • 2009 - 10,0%
  • 2010 - 8,6%

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Fogueira com eles, insinuou ele

«Antes de se recolher no seu castelo para escrever os Ensaios, o grande Montaigne (século XVI) fez uma viagem a Roma, e foi recebido pelo Papa.

Nos seus relatos de viagem escreveu que naquele tempo fora descoberta em Roma uma seita de portugueses, imagine-se!, que se casavam na igreja entre eles (homem com homem) com todo o formalismo.

O Papa não esteve com meias medidas e mandou oito ou nove para a fogueira.

Cavaco e Sócrates - com o apoio de Louçã - só não quiseram deixar de honrar as boas tradições de certa sociedade portuguesa. Só é pena que o Papa tenha entretanto perdido o poder temporal sobre os reinos cristãos.»

[Do mesmo passarinho caído do ninho, recebi esta evocação subliminar e nostálgica da falta de poder temporal papal para enviar esses cristãos transviados para a fogueira. Não nos identificamos aqui no (Im)pertinências com essas punições bárbaras. Como castigo, consideramos suficiente a sodomia.]

30/03/2011

CASE STUDY: Uma aplicação do efeito Lockheed TriStar ao TGV – desfazendo a mistificação técnica

No meu post anterior, não pretendia fazer uma abordagem técnica das micro-turbinas eólicas a montar nos carris do TGV. Fiz apenas uma abordagem irónico-económica-financeira superficial usando uma argumentação do tipo reductio ad absurdum para evidenciar o disparate da coisa. Apesar do desconfiómetro técnico me ter piscado o olho, e daí a piada ao engenheiro Sócrates e à sua putativa capacidade para driblar o princípio da conservação da energia, dificilmente poderia ir mais longe neste domínio.

Por um email da leitora AP, chegou-me a referência a este post do prof. Pinto de Sá onde se demonstra a mistificação técnica da T-Box e se conclui que «as ventoinhas, ao rodarem como indicado, funcionam como travão do TGV e que a energia que este tem de dispender para vencer essa travagem é sempre maior que a que as ventoinhas poderão produzir, visto que nenhum processo de transformação de energia tem rendimento maior que 1! Pelo que o TGV gastará sempre mais energia com este processo do que se gerar directamente a electricidade (para a iluminação interna) a partir dos seus motores...»

CASE STUDY: Uma aplicação do efeito Lockheed TriStar ao TGV

O professor Avelino de Jesus explicou à Comissão de Obras Públicas que se demitiu do grupo de trabalho de reavaliação das parcerias público-privadas por falta de informação (até um CD vazio o governo lhe enviou) e condições de trabalho. Aproveitando a ocasião, afirmou que os estudos do TGV estavam «empolados» no que respeita às previsões de passageiros porque «os consultores dizem o que as pessoas que fazem a encomenda querem ouvir» - o que é verdade e é por isso que os consultores são caros porque não é barato fazer as pessoas felizes.

Vamos admitir que Avelino de Jesus tem razão e que os passageiros não chegam para pagar o TGV e que o projecto deveria por isso ser abandonado. E o efeito Lockheed TriStar? Terá sido considerado? Dito de outro modo, terá Jesus considerado que podemos sempre continuar a investir num projecto inviável para recuperar o investimento realizado?

Por exemplo, terá sido considerado que se os passageiros não pagam o TGV poderá sempre investir-se na produção de electricidade com o aproveitamento da deslocação do ar por micro-turbinas eólicas entaladas entre os carris? Terá sido considerada esta fonte energética? Segundo os inventores da coisa, um comboio ao passar por cada uma dessas micro-turbinas pode produzir 2,6KWh e podendo ser montadas 150 por cada km de carris isso perfaz 390KWh por km o que poderá valer a preços actuais uns 43€ por km e 30 mil euros por comboio numa viagem de Lisboa a Madrid. Falta só considerar o custo do investimento numas cem mil belas micro-turbinas e suportar o custo da sua manutenção que deverá incluir a reposição das roubadas pelos bandos de especialistas que actualmente trabalham nos condutores de cobre.

Pelo aspecto da coisa, é obra para umas centenas de euros cada turbina; adicionando a infra-estrutura para o transporte da electricidade chega-se facilmente a um investimento total na ordem das centenas de milhões de euros – nada que uma outra parceria pública-privada não resolva. Como diria o inefável Guterres, é só fazer as contas.

Em caso desesperado, falem com o senhor engenheiro Sócrates. Ele é homem para subverter o princípio da conservação da energia e conseguir mais output de electricidade do que o input.

29/03/2011

Se os juros sobem porque a oposição chumbou o PEC 4…

… os juros descem porque o governo se demitiu? Ou será porque, como nos ensina José Sócrates, «um discurso e uma palavra – verdade … [é] um sério problema porque é absolutamente inadequado na política»?

Por falar em verdade, eis uma estimativa (por baixo - aposto singelo contra dobrado) das necessidades de financiamento nos próximos 3 anos deixadas por herança dos 6 anos de governo de José Sócrates.

Segundo José Sócrates estas misérias devem-se: à Grécia, aos especuladores, às agências de rating, à Irlanda e à oposição. E também à crise mundial com a China, a Índia e o Brasil a cresceram a dois dígitos ou quase, a África a 4 ou 5% , os Estados Unidos a 3%, a maior parte da Europa ao redor dos 2%.

DIÁRIO DE BORDO: Dr Jekyll and Mr Hyde in OPorto

O fim-de-semana passado dei um salto até ao Porto, uma cidade de que gosto bastante e não conheço o suficiente, para assistir ao concerto Anne Sofie Von Otter & Brad Mehldau, na Casa da Música. Foi também um pequeno contributo (30 euros por assento) para ajudar a pagar o tsunami de 228% que varreu o valor de adjudicação deste convento de Mafra do regime socialista.

Não estou arrependido pelos 30 euros. Quer a Von Otter quer Mehldau são dois magníficos executantes, pelo menos para o nível primitivo da minha cultura musical. Como alguém escreveu no folheto que a Casa da Música preparou para o evento, o Mehldau tem uma «personalidade com duas vertentes – o formalista e o improvisador – digladiando-se, e o resultado é algo semelhante a um caos controlado» e isso levou-me, a mim que só o conhecia como músico de jazz, a sentir-me como um Mister Utterson e a vê-lo e às suas duas personalidades com um Dr Jekyll diurno convivendo com Mr Hyde nocturno.

Dei então comigo a cogitar, que também os tripeiros têm duas vertentes aparentemente antagónicas à altura de o médico e o monstro. Por um lado, é a única cidade do país onde qualquer indígena se dispõe bondosa e espontaneamente a ajudar uma criatura alienígena com ar perdido nas suas ruas em triângulo escaleno. Por outro lado, é também talvez a única cidade do país onde, num concerto de música semi-erudita, dezenas de labregos endinheirados entram atrasados na sala com a cumplicidade da organização, sob o olhar genuinamente surpreendido do Mehldau. Como se fosse pouco, outras, ou as mesmas dezenas de labregos, abandonaram a sala durante a segunda parte do concerto, quando podiam tê-lo feito no intervalo onde já deveriam - se não fossem labregos - ter percebido o engano.

28/03/2011

NÓS VISTOS POR ELES: Uma nação de desistentes

The state of Portuguese education says a lot about why a rescue is likely to be needed, and why one would be costly and difficult. Put simply, Portugal must generate enough long-term economic growth to pay off its large debts. An unskilled work force makes that hard.

Cheap rote labor that once sustained Portugal's textile industry has vanished to Asia. The former Eastern Bloc countries that joined the European Union en masse in 2004 offer lower wages and workers with more schooling. They have sucked skilled jobs away.

Just 28% of the Portuguese population between 25 and 64 has completed high school. The figure is 85% in Germany, 91% in the Czech Republic and 89% in the U.S.


[Recomenda-se a leitura de todo o artigo A Nation of Dropouts Shakes Europe, Charles Forelle,Wall Street Journal]

Do pântano cavaquista emana o patriotismo da batota nas contas

Pode alguém comprometer-se a estar num determinado sítio ao fim de um determinado tempo não sabendo onde está no momento da partida? A resposta a esta pergunta parece fácil, até para um deolindo com uma daquelas licenciaturas sem saídas profissionais.

Pode um partido comprometer-se a atingir determinados défices orçamentais ou determinados níveis da dívida pública no final de determinados anos não sabendo qual é o défice e a dívida reais? Pode, foi a resposta a esta pergunta dada por um doutorado em Economia por York. Resposta aceite por um licenciado em Economia pela universidade Lusíada.

Sabendo-se a imensa batota (*) que os governos Sócrates têm feito com as contas públicas, alguma da qual já identificada pela missão do Eurostat, a única certeza que se pode ter é que nem o défice nem a dívida pública são o que o governo mostra. Como é que isto é possível? Perguntarão os ingénuos. Veja-se o défice de 2009 que Teixeira dos Santos começou nos dois e acabou nos nove. Vejam-se os défices gregos que depois da queda do governo de Karamanlis foram multiplicados várias vezes pelo PASOK.

Esqueçamos por um momento que, até em política, a verdade e a integridade têm valor por si. Vejamos só a face utilitária da coisa. Face a isto, quem é que o doutorado em York e o licenciado no Lusíada pensam que o seu «patriotismo», ou conformismo no caso do segundo, vai enganar? O Eurostat? As agências de rating? Os «especuladores»? Puro engano. No máximo aliviou o BdeP do dilema do ministro anexo. O impacto líquido da divulgação do défice real e do nível real de endividamento confirmado pelo Eurostat seria muito provavelmente positivo pelo acréscimo de confiança dos credores e dos cidadãos a quem seria possível explicar melhor a extorsão de que vão ser vítimas.

A cumplicidade com a batota só pode ajudar os batoteiros a ganharem uma nova oportunidade de continuarem a batota. Passos Coelhos disparou no próprio pé a arma que Cavaco Silva lhe meteu nas mãos, sob o aplauso das instituições europeias e do casal Sarko-Merkel nada interessados em escândalos comprometedores.

(*) Para quem tenha dúvidas, os 21 posts da subsérie Rigor? da série Lost in translation são um repositório incompletíssimo da batota identificada sem auditoria nenhuma.

27/03/2011

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: É também uma questão de incompetência

Não são só doutrinas erradas, estratégias erradas e políticas erradas e engenharia contabilística (um eufemismo para trafulhice). É também pura incompetência na gestão financeira do Estado pela clique socrática que nos conduziu à pré-insolvência.


Como se pode ver no gráfico anterior (extraído daqui, via Insurgente), a concentração da dívida a vencer a curto prazo é tão grande que conseguir a sua renovação nas condições actuais exigiria um custo tão elevado que engoliria a poupança, aniquilaria o investimento e liquidaria a economia. Ou então nos obrigará a um bailout do FEEF-FMI (já se viu que a FMI virá sempre no pacote – felizmente), a uma reestruturação da dívida com reescalonamento e muito provavelmente a um haircut e à renegociação dos juros, como aqui no (Im)pertinências se vem prescrevendo há muitos meses.

Chegámos aqui conduzidos pela estratégia de avestruz de Sócrates, um misto de incompetência e de mistificação e falta de seriedade para lidar com uma situação que, se não na sua génese, partilhada pela maioria dos governos dos últimos 30 anos, é da sua total responsabilidade pelo menos no agravamento contínuo nos últimos 6 anos, fazendo-a evoluir de uma situação de risco para uma situação de quase colapso financeiro.