Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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13/09/2026

CASE STUDY: O Estado liberal dinamarquês é uma boa solução para os dinamarqueses

Pedro Santa Clara, uma mente liberal na academia portuguesa - uma espécie não protegida mais rara do que o lince da Serra da Malcata num ambiente hostil -, publicou há dias no jornal Eco o artigo «Muito mais liberais do que nós», onde descreve com compreensível admiração o sistema político dos países nórdicos, em especial o dinamarquês. 

Cito, a seguir, uma curta amostra da sua argumentação e remeto para a leitura integral do artigo. 

«A Dinamarca não tem salário mínimo legal. O despedimento faz-se por carta, com aviso prévio, sem tribunal. A maioria dos funcionários públicos tem um contrato igual ao do sector privado. A idade da reforma sobe automaticamente com a esperança de vida desde 2006 e o parlamento votou em maio de 2025 fixá-la em 70 anos para quem nasceu depois de 1970. Dois terços da despesa pública são decididos e executados pelos municípios e não pelo governo central. O IVA é de 25% sobre tudo, sem taxa reduzida para o restaurante nem para a eletricidade. O orçamento teve um excedente de 2,9% do PIB em 2025 e a dívida pública é de 28% do PIB. A Suécia aboliu o imposto sucessório em 2004 e o imposto sobre a fortuna em 2007, e desde 1992 paga a escola que os pais escolherem, pública ou privada, com fins lucrativos ou sem eles. (...)

O consumo final das administrações públicas, que é a medida do que o Estado produz diretamente em escolas, hospitais, tribunais e polícias, é de 26,5% do PIB na Suécia e 23% na Dinamarca. Em Portugal é 16,9%. Em contrapartida, Portugal gasta 13% do PIB em pensões, contra 8 a 9% na Dinamarca e 7 a 8% na Suécia, e passou uma década a pagar juros que os nórdicos não tinham. O Estado nórdico é uma máquina de produzir serviços de qualidade. O Estado português é uma máquina de transferir dinheiro de uns bolsos para outros, com uma comissão elevada pelo caminho.»

Subscreveria sem dificuldade a demonstração de Pedro Santa Clara da superioridade do modelo nórdico para oferecer aos cidadãos uma sociedade livre e próspera. Só não subscrevo a conclusão implícita de que esse modelo é viável num Portugal dos Pequeninos, e não subscrevo por considerar qualquer característica atávica dos portugueses, mas porque os portugueses são eles e a sua circunstância, como notou Ortega y Gasset em relação ao eu.

A circunstância dos portugueses são séculos de história que caldearam uma cultura colectivista e avessa ao risco, como constatou o modelo 6-D de Geert Hofstede (recorrentemente citado neste blogue) e destilaram elites medíocres, como o próprio Pedro Santa Clara implicitamente reconhece num outro artigo (A oferta de estadistas), em que descreve o sistema político português e constata a sua incapacidade para gerar líderes que escapem ao estigma da mediocridade. 

Sendo assim, perguntarão, como é que se chega lá? E eu respondo, não sei se, e não sei como. Não está escrito em parte alguma que todas as nações tenham de ser sempre livres e prósperas e o que não faltam são exemplos de Estados mais ou menos falhados entre os cerca de 200 existentes. Não sei como se chega e suspeito que não se chega com recurso ao pensamento milagroso, por exemplo.  

19/01/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (71) - A selecção social fez dos portugueses os mais ansiosos (e avessos ao risco)

Outros portugueses no topo do mundo.

Cruzei-me acidentalmente com este vídeo de Mark Manson, uma criatura que os produz com regularidade sobre os temas mais variados, alguns deles, como este, sobre certas características dos nacionais de alguns países. No caso do Portugal dos Pequeninos sobre a ansiedade - o título do vídeo publicado em Novembro de 2024 é «Understanding the Most Anxious Country in the World» - uma emoção exacerbada - um transtorno - que segundo as estatísticas assalta os locais muito mais intensamente do que em qualquer outro país do mundo.

Mark Manson, um observador perspicaz, ficou tão intrigado com a prevalência da ansiedade entre nós que visitou Portugal e falou com um certo número de pessoas e concluiu que na génese do fenómeno se encontra a selecção resultante da saída maciça a partir do século XV dos mais afoitos, ambiciosos e inconformados deixando para trás os conformados e o seu receio patológico das mudanças e a baixa tolerância ao risco.

Concordo, isso mesmo venho escrevendo há duas décadas (por exemplo neste post de 2006 precisamente sobre a aversão ao risco) baseado nos estudos e no modelo de Geert Hofstede, desenvolvido nos princípio da década de 70, e em particular num post desta série onde escrevi sobre o «processo de selecção social dos últimos cinco séculos que fez sair os inconformados de Portugal nos Descobrimentos e os fez e faz sair pela emigração».

06/11/2024

Vitimizar e vitimizar-se são os verbos mais conjugados no Portugal dos Pequeninos

O modelo 5-D de Geert Hofstede (várias vezes citado neste blogue) inclui a dimensão feminilidade / masculinidade em que o Portugal dos Pequeninos obtém um score que o posiciona no sétimo lugar mais feminino nas cinco dezenas de países que foram estudados. Este estereotipo feminino (que existe, como existem os cromossomas sexuais X e XY), inclui a simpatia pelo desafortunado, a valorização da vítima e o ciúme pelo sucesso. Ocorreu-me esta epifania laica ao ler o artigo de opinião «República das “vítimas”» de Pedro Gomes Sanches do qual não resisto a citar o seguinte excerto:
«Se és “racia­lizado”, és vítima de racismo, se és mulher, és vítima de machismo, se és imigrante, és vítima de xenofobia, se não tens casa, és vítima do turismo, se não te identificas com o sexo com que nasceste, és vítima de transfobia, se gostas de alguém do mesmo sexo, és vítima de homofobia, se não tens bom desempenho escolar, és vítima da meritocracia, se vives, és vítima das alterações climáticas.

Sempre que se pergunta a uma destas “vítimas” por que não rompe com essa condição ouve-se a mesma resposta: a sociedade capitalista, liberal, branca e heteropatriarcal é opressora e não deixa.»

E, já que estou com a mão na massa, e a propósito do Dia Mundial do Cuidador Informal que se comemorou ontem, remeto para com um artigo com o saboroso título “De que vale ter o estatuto?” Cuidadores pedem que cuidem deles em que se dá voz aos 15 mil cuidadores recenseados pela Segurança Social que esperam eles próprios terem um cuidador formal que, como se adivinha, é o Estado sucial, afinal o cuidador em cujo colo quase todos os portugueses ambicionam acolher-se.

17/10/2024

Não há valores universais. Há os valores ocidentais que apelam à universalidade

Baseado nos World Values Surveys realizados em cada cinco anos que entrevistam dezenas de milhares de pessoas em países de todo o Mundo (130 mil em 90 países no último inquérito), a Economist publicou o ano passado um estudo (*) onde compara os valores predominantes nesses países e a sua evolução entre 1990-98 e 2017-22.

Esses valores são organizados em dois eixos: Tradicional-Secular, onde é avaliada a influência da família e religião e o respeito pela tradição, por um lado, em oposição às crenças não religiosas e ao pensamento mais científico; Sobrevivência-Autoexpressão, onde é avaliado a ligação a um grupo, etnia, nação ou raça, ou seja valores colectivistas, por um lado, em oposição ao individualismo.

Os resultados representados nos diagramas seguintes são muito sugestivos e mostram diferenças notáveis e uma evolução distinta em três décadas, representada nos diagramas seguintes correspondendo os pontos a países individuais.

O primeiro diagrama mostra uma evolução contraditória que esconde a evolução diferente entre as regiões, diferença que os diagramas seguintes confirmam.


Nestes três últimos diagramas torna-se visível que a evolução entre 1990-98 e 2017-22 foi muito diferente nos três conjuntos de países: Língua inglesa/Protestantes que se tornaram mais seculares; Ortodoxos que se tornaram mais tradicionais e Latino Americanos que se tornaram ligeiramente menos tradicionais e menos colectivistas.

No diagrama seguinte representa-se a situação actual de três conjuntos de países em três grandes regiões (os inquéritos não abrangeram os países asiáticos).


E a conclusão é que, no conjunto, os valores dominantes na Europa, que os europeus tomam como valores universais, são completamente distintos dos latino-americanos e africanos-islâmicos que têm em comum um forte tradicionalismo, ainda que partilhem em graus muito diferentes os valores colectistas-individualistas, estando os latino-americanos mais próximos dos europeus a este respeito.

___________

Desde há 20 anos que cito regularmente (por exemplo aqui) os estudos do antropólogo holandês Geert Hofstede que comparou as culturas de dezenas de nações, usando um modelo que considera quatro dimensões na cultura dominante de uma sociedade, entre as quais a dimensão individualismo / colectivismo. Desses estudos resultam conclusões compatíveis com e complementares às retiradas dos World Values Surveys.

20/04/2023

Mitos (328) - A lenda do macho português

A propósito das desventuras do Dr. Boaventura, já aqui e aqui tratadas no (Im)pertinências, foram gastos rios de tinta para o condenar. Menos tinta foi gasta para lhe limpar a folha e muito menos para o desculpar, não por falta de vontade, mas por falta de tomates, digamos assim, que o tema pede.

Entre as tentativas de lhe limpar a folha, conta-se uma do jornalista de causas Paulo Baldaia relativizando o alegado assédio à pala do Portugal dos Pequeninos ser, segundo ele, um «país profundamente machista». Ora, esquecendo o Dr. Boaventura, era aqui que eu queria chegar.

Na verdade, por muitos sujeitos que por cá vivem se autoconsiderem machistas não acredito que sejam mais do que uma pequena proporção do homo Lusitanicus. Mas o que entre as muitas coisas que Portugal não é, não é um país machista do ponto de vista da cultura dominante.

Aqui no (Im)pertinências pela mão do outro contribuinte, foram citados dezenas de vezes os estudos do antropologista holandês Geert Hofstede, baseados em  milhares de entrevistas em dezenas de países, comparativos das culturas desses países, que mostraram que na vertente masculinidade / feminilidade (*) Portugal é um dos países mais "fêmea" do mundo, de acordo com a predominância dos estereótipos comportamentais associados à masculinidade e à feminilidade.

(*) Isto foi explicado em vários posts, incluindo este, em que o Impertinente contraditou o Dr. Pacheco Pereira por uma declaração semelhante.

08/03/2023

CONDIÇÃO FEMININA: O mulherio português tem cada vez menos razões de queixa (2)

Continuação de (1)

The Economist

O ‎glass-ceiling index da Economist mede o papel e a influência das mulheres na força de trabalho abrangendo dez factores. O diagrama mostra os valores do índice para 29 países da OCDE. Com valores mais elevados estão os países nórdicos e com valores mais baixos o Japão e Coreia do Sul, onde as mulheres têm de escolher entre família e carreira profissional. A Suíça continua com alguma surpresa em 26.º, sobretudo devido aos factores "Higher education" e "Net child-care costs".

Portugal foi o país que mais subiu entre 2016 e 2021 de 12.º para 5.º lugar, onde se mantém em 2022, só superado pelos países nórdicos. É difícil encontrar algum outro índice onde Portugal esteja mais bem colocado, com excepção dos indicadores relativos à dívida pública e privada ou da produtividade, em ambos os casos numa escala invertida.  

Nos dez factores considerados, Portugal está acima da média, excepto em "Paid leave for mothers". A maior progressão foi em "Gender wage gap" e "Women in managerial positions". 

Vem a propósito citar os estudos, várias vezes aqui referidos, do antropologista holandês Geert Hofstede, comparativos das culturas de dezenas de países, usando um modelo que desenvolveu e que distingue 4 dimensões na cultura dominante numa sociedade. Uma dessas dimensões é a masculinidade / feminilidade, definida com base nos estereótipos comuns a quase todas as culturas (confronto/consenso, simpatia pelo sucesso/simpatia pelo desgraçadinho, grande e rápido/pequeno e lento, orientação para as coisas/orientação para as pessoas, performance/qualidade de vida, concorrência/cooperação, etc.). Num país que alimenta a mitologia de ser muito "macho", na verdade é o oitavo país mais "fêmea" do mundo, logo atrás dos países que precisamente no glass-ceiling index estão à nossa frente.

Enquanto o mulherio (entenda-se o mulherio da classe média-alta) progride, o facilitismo, a orientação dos métodos para os estereótipos femininos de aprendizagem e a infecção do sistema de ensino pelo politicamente correcto estão a avariar irremediavelmente o elevador social e, em consequência, a reduzir as oportunidades de progressão social dos pobres, principalmente dos homens pobres. Ninguém parece incomodar-se com isso.

05/08/2021

CASE STUDY: A coragem da desistência ou o culto dos desgraçadinhos e os portugueses na vanguarda

A propósito da decisão da ginasta Simone Biles - a melhor do mundo, diz-se -  não competir em várias provas, alegando que estava a enfrentar problemas mentais, uma comovente onda de solidariedade percorreu os mídia nacionais e internacionais e, ao que parece, as redes sociais (não tenho a certeza porque não consumo o produto) enaltecendo frequentemente a «coragem de uma desistência».

É claro para mim que, não havendo nada a censurar à mocinha por ter sucumbido ao peso da responsabilidade e à enorme expectativa dos fãs, também não haveria nada a exaltar. Afinal trata-se de uma atleta profissional de alta competição em dedicação exclusiva que deveria estar preparada para enfrentar estas situações. Mostrou que não estava e, no seu pleníssimo direito, desistiu, mas daí a legiões de jornalistas de causas várias e patetas de várias outras profissões se curvaram perante o feito, ou melhor perante o não feito, vai uma grande distância.

O assunto não justificaria gastar tinta com ele, não fora o facto da unanimidade à volta da exaltação da desistência ser em si mesmo muito revelador das mudanças ideológicas e culturais introduzidas pelos movimentos politicamente correctos, da identidade de género, etc., em suma pelo chamado marxismo cultural que contamina uma boa parte da intelectualidade (mais uma batalha que a direita está a perder na guerra das ideias). A unanimidade foi tão evidente que as únicas vozes dissonantes que encontrei foram, et pour cause, de dois humoristas (José Diogo Quintela e Tiago Dores).

E, já que estou com a mão na massa, sempre acrescento que um fenómeno induzido por essas mudanças é a crescente feminização das sociedades, feminização caracterizada pela prevalência do estereotipo feminino (sim isso existe, como existem os cromossomas sexuais X e XY), o que, como mostra o modelo 5-D de Geert Hofstede (amplamente citado neste blogue) inclui a simpatia pelo desafortunado, a valorização do underdog e o ciúme pelo sucesso. É nesta matéria das sociedade femininas que podemos dizer com toda a propriedade que os portugueses estão desde há muito no topo do mundo entre os países mais femininos (ver em especial este post).

07/05/2021

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Vamos todos fingir que o problema não existe? Sim, vamos (4) - A leveza insustentável do sistema público de pensões

 Continuação de (1), (2) e (3)



Segundo o estudo «Finanças Públicas – Uma Perspetiva Intergeracional publicado pela Fundação Gulbenkian e citado pelo Jornal Económico, «o atual modelo de pensões é insustentável e a sua manutenção levaria a um desequilíbrio corrigível com um aumento de impostos na ordem dos 22% ou uma perda dos benefícios de reforma de 19%» . 

É apenas mais um estudo a antecipar as consequências de uma população crescentemente envelhecida e do aumento da esperança de vida no aumento número de reformados com pensões a serem financiadas por cada vez menos activos. Na década de sessenta havia dezenas de activos por reformado, hoje há 1,5 activos por cada reformado.

Os portugueses, sobretudo os 4 milhões de portugueses que se reformarão nos próximos 20 anos, deveriam estar preocupados, mas tudo indica que não estão para se maçar com o seu futuro o que se explica pela conjugação de vários factores como a ignorância e uma cultura ancestral de dependência do Estado (segundo os estudos de Hofstede, Portugal é o país europeu mais colectivista), dependência alimentada pelos vários socialismos que disputam o eleitorado. 

Vai acabar mal porque o horizonte de sustentabilidade do sistema de pensões é de várias gerações e nenhum governo está preocupado para além das próximas eleições. É aparentemente paradoxal que este tema permaneça na sombra e um tema como o das alterações climáticas, que tem um horizonte ainda mais distante, mobilize as atenções das elites e de uma parte cada vez maior da opinião publicada.

15/11/2019

ARTIGO DEFUNTO: Desigualdade da riqueza - se os factos não confirmam as teses, tanto pior para os factos

A divulgação de dados sobre a distribuição da riqueza e dos rendimentos é sempre uma oportunidade para confusões por ignorância e por má-fé.

Desta vez, com a divulgação recente dos resultados do Inquérito à Situação Financeira das Famílias  do INE, não foi excepção e podemos encontrar em diversos jornais a confusão entre riqueza, isto é o património das famílias, e rendimento, ou seja uma confusão entre um stock e um fluxo, equivalente a confundir o caudal de uma torneira que corre para um tanque o volume de água existente no tanque.

A divulgação desses dados é também uma ocasião para as lamentações ditadas por uma inveja secular que é dominante na cultura do Portugal dos Pequeninos e convenientemente sublimada pela ideologia igualitária da esquerdalhada.

De facto, como já por várias vezes referi, as análises de Geert Hofstede mostram os portugueses como um dos povos mais femininos do mundo e também um dos mais colectivistas, de onde a extrema sensibilidade à desigualdade (corolários: direitos adquiridos e progressão automática nas carreiras independente do desempenho) e a forte expectativa que o governo trate disso (corolários: tendência esquerdizante e preferência pelo nanny state). Isso mesmo ficou patente no Eurobarómetro «Fairness, inequality and inter-generational mobility» em que a «Percepção sobre as desigualdades de rendimento» mostram que os portugueses na UE28 são os mais sensíveis às desigualdades (apesar de Portugal não ser o país mais desigual) e os que mais esperam que o governo intervenha para as reduzir.

Mas a verdade é que não há assim tantas razões para a lamentação. Segundo os dados do INE, entre 2013 e 2017 a riqueza líquida média por família (é disso que se trata e não do rendimento) medida pelo valor de todos os seus activos (imóveis e financeiros) líquido das dívidas, aumentou 13,2% e a mediana (isto é o valor da riqueza que divide as famílias em dois grupos com o mesmo número) aumentou 10,0%. Por isso, não surpreende que a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini tenha diminuido ligeiramente de 68,4% para 67,9% (0 corresponderia à igualdade absoluta e 100 à concentração numa única família de toda a riqueza).

Note-se que a redução da desigualdade dá-se na fase final da crise de 2011 o que contraria a tese muito popular entre a esquerdalhada e o jornalismo de causas que a crise e o governo de Passos Coelho agravaram as desigualdades. A este respeito, leia-se o post «A mitologia esquerdista do agravamento das desigualdades em Portugal durante o governo PSD-CDS» que deita por terra essa tese.

16/10/2019

O PS aproveita o pior do socialismo e o pior do Portugal dos Pequeninos

O socialismo é de esquerda e a esquerda, escrevi aqui há mais de uma década, mas voltaria a escrevê-lo hoje, é para mim o credo que sacrifica a liberdade em nome da igualdade, na dúvida (esquerda «democrática») ou sempre (a «outra» esquerda).

Para prosseguir a igualdade, o socialismo democrático usa em doses variadas o Estado Social como instrumento das suas políticas. As doses variadas vão desde a dose mínima da social-democracia nórdica até à dose máxima do socialismo mediterrânico, nomeadamente do luso-socialismo encarnado no Partido Socialista.

Por outro lado, a sociedade portuguesa segundo o modelo 5-D de Geert Hofstede, frequentemente citado no (Im)pertinências (aqui, por exemplo), é entre as muitas estudados por ele uma das menos individualistas ou, por outras palavras, uma das mais colectivistas em todo o mundo. É uma sociedade em que assume um papel primordial a pertença ao grupo, ao clã, seja a família, o clube, o partido, grupo do qual o indivíduo depende emocionalmente e com o qual se identifica e no qual se apoia e a que é fiel. Daí a forte tendência para a endogamia nas universidades, nas empresas, nos partidos e o nepotismo, como especialidade do colectivismo.


E assim chegamos ao Partido Socialista com a sua tendência para fazer crescer o Estado, a pretexto das suas políticas, e a sua tendência para o ocupar com gente pertencente ao clã socialista e, sempre que possível, ao clã familiar ou ao pequeno círculo de amizades baseadas na cumplicidade.

05/03/2019

O colectivismo imanente e o juiz-sociólogo vítima da violência pública da manada

Os portugueses têm uma fortíssima tendência para se comportarem em manada. A primeira vez que me dei conta disso foi por alturas do 25 de Abril, ao ver nos tempos agitados que se seguiram conversões em massa de indígenas, durante anos submissos ou mesmo activamente aderentes ao Estado Novo, que de um dia para o outro se transmutaram em ruidosos democratas e até em revolucionários.

Mais tarde, tive oportunidade de conhecer o modelo 5-D de Geert Hofstede, bastamente citado no (Im)pertinências (por exemplo aqui), e constatar que os portugueses são entre os países estudados por Hofstede um dos povos menos individualistas ou, para dizer o mesmo por outras palavras, um dos povos mais colectivistas em todo o mundo.

Colectivismo que explica imensa coisa, a começar pelo desvelo pelo Estado e a continuar pelo pendor esquerdizante que ainda hoje alimenta instituições bizarras já extintas em outros países como o Partido Comunista, como também dá pasto a agremiações pós-modernas do politicamente correcto, como o Bloco de Esquerda, a que, por paródia, aqui chamamos frequentemente de Berloque de Esquerda.

Um exemplo em curso deste comportamento de manada é a indignação obsessiva (a manada é sempre obsessiva) e a condenação violenta do juiz Neto Moura por ter produzido uns acórdãos que a polícia de costumes da esquerdalhada, potenciada pelo megafone do jornalismo de causas, condenou com violência, chegando em certos casos ao insulto como o rolo de papel que Ricardo Araújo Pereira, um conhecido humorista também de causas, sugeriu fosse introduzido no ânus do juiz ou o jogo escatológico que apresentou no seu programa de televisão.

Leiam-se com a devida distância as partes mais polémicas desses acórdãos, como por exemplo as seguintes citadas pela Visão:
«O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) (e por isso a dita sociedade) vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher».
Repare-se que sendo certo que se pode reconhecer no autor uma mente um tanto atormentada por um passado de seminarista e comunista, por esta ordem, não é menos certo que também, se aumentarmos a distância, é possível vislumbrar uma vocação perdida de sociólogo, profissão que, se prosseguida, o teria protegido da manada esquerdista, ainda que dissesse alarvidades como as do professor doutor Boaventura de Sousa Santos.

Pois não é verdade que os preconceitos atribuídos pelo juiz Neto Moura à sociedade são partilhados por grande número de portugueses e portuguesas fora do Bairro Alto ou, vá lá, de alguns bairros de Lisboa e, vá lá outra vez, também do Porto? Que disso se faça um princípio moral é outra coisa, mas não parece ser o caso da criatura que até disse à revista Visão não ser tolerante com a violência doméstica.

Postfácio: por coincidência, este post é publicado no dia de Carnaval, mas isso não o torna necessariamente numa paródia. Dependerá de quem o lê.

30/08/2018

CONDIÇÃO MASCULINA / ESTADO DE SÍTIO / CASE STUDY: O homem português é um queixinhas, a CIG é um zingarelho inútil e o Estado Sucial português está contaminado pelo parkinsonismo

«Em 2017, apenas cinco pessoas se queixaram à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) de terem sido discriminadas no acesso a bens e serviços. Mas quem o fez foram sobretudo homens, assinando quatro das cinco participações. A quinta queixa foi enviada por uma mulher, só que com o mesmo motivo: alegando prática discriminatória em relação a homens.» (Público)

Conclusões:

1.ª Confirma-se que, ao contrário da lenda, os portugueses do sexo masculino são em média criaturas meio-efeminadas, pouco másculos e com os tiques característicos do sexo feminino, por exemplo queixinhas - o último índice de masculinidade conhecido de Geert Hofstede era um dos mais baixos em todo o mundo colocando a cultura portuguesa como uma das mais femininas.

2.ª A CIG é um pesado e inútil zingarelho que proporciona dúzias de tenças a dúzias de apparatchiks para tratar cinco queixas por ano.



3.ª A CIG, como todos os organismos do Estado Sucial português, é mais um case study das leis de Parkinson, comparável por exemplo ao da Câmara Municipal de Lisboa (o locus socialista por definição).

27/04/2018

CASE STUDY: A luso-sensibilidade à desigualdade e a luso-expectativa que o governo trate disso

O Eurobarómetro «Fairness, inequality and inter-generational mobility» permitiu comparar a percepção dos 28 países em três dimensões. Em duas delas («Justiça e igualdade de oportunidades» e «Progressão temporal») não há diferenças assinaláveis entre as percepções dos portugueses e as médias europeias. Como se pode ver nos diagramas seguintes, onde se encontra um verdadeiro abismo é na «Percepção sobre as desigualdades de rendimento» em que os resultados de Portugal mostram que os portugueses: (a) são os mais sensíveis às desigualdades (apesar de Portugal não ser o país mais desigual) e (b) os que mais esperam que o governo intervenha para as reduzir.


Não há razão para surpresa. Já por diversas vezes citei as análises de Geert Hofstede que mostram os portugueses como um dos povos mais femininos do mundo (com um baixo score na dimensão cultural masculinidade do modelo de Hofstede) e também um dos mais colectivistas (com um baixo score na dimensão cultural individualismo), de onde a extrema sensibilidade à desigualdade (corolários: direitos adquiridos e progressão automática nas carreiras independente do desempenho) e a forte expectativa que o governo trate disso (corolários: tendência esquerdizante e preferência pelo nanny state).

14/06/2015

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: O ónus da prova

As reacções dos opinions dealers, incluindo comentadores e jornalistas de causas, e de uma parte muito significativa da opinião pública à privatização da TAP (só 40,6% dos inquiridos pela Eurosondagem concordam) e à concessão dos transportes públicos mostram uma vez mais porque somos um dos povos mais colectivistas e mais avessos ao risco do planeta (ver os índices de Hofstede para Portugal já aqui muitas vezes citados).

A maioria dos portugueses tem uma desconfiança tão grande da iniciativa privada e a sociedade civil aceita ser tão sufocada pelo Estado que, diferentemente de um povo com maior apreciação da liberdade (liberdade e não baderna), para quem é preciso provar a necessidade ou o benefício da intervenção do Estado, nomeadamente a apropriação de um empresa tornando-a estatal (o que entre nós se chama eufemisticamente “pública”), no caso dos portugueses o “ónus da prova” está do lado de quem preconiza a empresa privada.

E isso faz toda a diferença.

01/03/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Portugal-Grécia, iguais mas diferentes e diferentes mas iguais

Há mais de 11 anos que intermitentemente aqui no (Im)pertinências se recorre ao modelo 5-D de Geert Hofstede para compreender a cultura (no sentido sociológico) dos indígenas e de outros povos. Pois bem, o modelo é igualmente adequado para compreender a diferenças entre países.

Vejamos o caso Portugal-Grécia à luz das reacções à intervenção da troika, agora rebaptizada de «instituições», e mais recentemente à luz da visão dominante nos mídia e nos opinion dealers domésticos do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) conduzido pelo governo Syriza-Anel.

Enquanto por cá a “resistência” à troika foi bastante pacífica com manifestações de indignados que em poucos meses se cansaram e voltaram às suas vidinhas, na Grécia a coisa foi bastante violenta e durou bastante mais tempo.

Quando o Syriza, com pouco mais de 1/3 dos votos teve quase a maioria dos deputados e se coligou com o Anel, um partido xenófobo de extrema-direita, e iniciou o PREC grego com a tentativa de chantagem dos outros 18 países da Zona Euro, o jornalismo de causas, muitos opinion dealers e vários dirigentes políticos portugueses começaram por enfunar as velas dos amanhãs que cantariam, hoje em Atenas, amanhã em Lisboa e depois de amanhã em Berlim.

Gorada a tentativa de chantagem, o «movimento» lusitano reconverteu os cânticos tentando criar uma onda de simpatia piedosa para com as desgraças gregas, onda que, reconheça-se, está a ter muito mais sucesso do que os cânticos circunscritos a umas centenas de oficiantes.

Dito isto, vejamos no diagrama seguinte a comparação de Portugal com a Grécia no modelo de Hofstede.


Como se vê, não são muito diferentes, salvo no que respeita à masculinidade. Vejamos agora a posição de ambos no desconcerto das nações a respeito de 3 dimensões: individualismo-colectivismo, masculinidade-feminilidade e aversão ao risco, nos dois diagramas seguintes (estes diagramas são mais antigos do que o primeiro e podem apresentar pequenas diferenças de score).



E pronto. Está quase tudo explicado. Dois países muito próximos no que respeita à aversão ao risco e ao colectivismo e daí a falta de gosto comum pelo empreendedorismo, a dependência do Estado e o capitalismo de compadres – um ersatz do «verdadeiro» socialismo. Dois países colectivistas, mas bastante diferentes no que respeita à dimensão masculinidade-feminilidade: uma Grécia de machos batendo-se contra a polícia e, agora, dedurando os traidores (Portugal e Espanha) e um Portugal de fêmeas, apiedado dos desgraçadinhos, e daí as diferentes formas e intensidades da «luta contra o governo ao serviço da troika».

18/12/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Uma revolução francesa … à portuguesa?

«Como, para não sairmos da matriz francesa, percebeu o malogrado Luís XVI. Isto não vai acabar bem para o TC e muito menos para o parlamento: provavelmente iremos assistir a uma tentativa de presidencialização do regime que no seu messianismo só agravará os nossos problemas. Mas o esfrangalhar das instituições inquieta bem menos a pátria do que uma tentativa falhada de negociação.


18/03/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Não estamos mal, mas já estivemos melhor

Foi publicado há dias pelo United Nations Development Programme o «2013 Human Development Report» com os índices de desenvolvimento humano calculados para 185 países. No índice são ponderados vários indicadores: esperança de vida à nascença, número médio de anos de escolaridade, PIB per capital, RNB per capita.

Depois de ter melhorado o índice de desenvolvimento humano ano após ano, sobretudo nas décadas de 80 e 90, Portugal desceu 3 lugares no ranking em 2012 e em relação a 2007 desceu um lugar e ocupa agora globalmente a 43.ª posição.

Em contrapartida, no índice de desigualdade de sexos Portugal situa-se no primeiro decil, ocupando a 16.ª posição, no primeiro terço do pelotão da frente onde se encontra a maioria dos países europeus. Em termos relativos, as nossas mulheres não deveriam ter muitas razões de queixa, o que é não é surpreeendente já que somos um dos países mais femininos em todo o mundo, segundo os estudos de Geert Hofstede.

12/10/2011

DIÁRIO DE BORDO: Já não era sem tempo

Desde há meia dúzia de anos e uma dúzia de vezes, o (Im)pertinências vem recorrendo aos estudos do antropologista holandês Geert Hofstede para explicar as nossas desgraças. Já agora, é interessante esclarecer que Hofstede não desenvolveu o seu modelo das 4 dimensões culturais numa torre de marfim duma qualquer universidade. Em vez disso, assentou as bases empíricas desse modelo no seu trabalho durante vários anos no departamento de recursos humanos da IBM, onde teve a oportunidade de ter acesso e analisar mais de 100.000 questionários de empregados provenientes das sucursais da IBM em mais de 70 países.

Finalmente, alguém na blogosfera se apercebe da importância desses estudos para compreender a influência da cultura dominante numa sociedade e, em particular, para compreender como boa parte das nossas fatalidades são explicadas pelas características da sociedade portuguesa nas 4 dimensões consideradas por Hofstede: um dos países menos masculinos do mundo, com grande distância ao poder, profundamente colectivista e com enorme aversão ao risco. Está lá tudo.

04/05/2011

CASE STUDY: Colectivismo e corrupção

Não deveria novidade nenhuma para quem conheça as sociedades colectivistas, como a portuguesa, em que o espírito de grupo, seja a família, o sindicato, o clube, o partido ou a corporação, predomina sobre a responsabilidade individual, concluir serem estas as sociedades mais vulneráveis à corrupção pela diluição da responsabilidade e pela interdependência entre os membros dos grupos sempre fortemente presentes no colectivismo.

Para quem tenha dúvidas sobre a relação colectivismo-corrupção, pode ler o estudo Greased palm psychology: Collectivism and bribery de Nina Mazar e Pankaj Aggarwal, publicado pela Association for Psychological Science, ou pelo menos ler um resumo razoavelmente elucidativo aqui. O estudo analisou 21 países e os resultados de um trabalho de laboratório com 140 participantes e concluiu que não se trata apenas de correlação estatística entre colectivismo e corrupção: os indivíduos com mentalidade colectivista sentem-se menos responsáveis e mais propensos a corromperem e serem corrompidos.

Para quem tenha dúvidas sobre o colectivismo da sociedade portuguesa recomendam-se os estudos de Gert Hofstede, há anos amplamente citados no (Im)pertinências, que mostram ser Portugal de longe o país mais colectivista (ou menos individualista) da Europa.

26/06/2010

ÉTUDE DE CAS: L’exception française et la toxoplasmose

O toxoplasma gondii é um agente patogénico que causa a toxoplasmose, uma doença bastante comum que atinge 60% da população mundial e que até agora parecia ter apenas consequências benignas não mais graves do que uma vulgar gripe. O agente é transmissível para os humanos através das fezes dos gatos domésticos, os quais frequentemente a contraem quando papam um rato. Nos ratos a coisa tem consequências mais drásticas podendo o toxoplasma g. formar quistos no cérebro e no fígado.

Também já eram conhecidos outros possíveis efeitos subtis e mais deletérios do agente patogénico nos humanos: por exemplo a esquizofrenia, quatro vezes mais frequente nas pessoas com anti-corpos ao toxoplasma g. Estudos mais recentes citados aqui mostram outros possíveis efeitos, como a propensão significativamente maior dessas pessoas para sofrer acidentes rodoviários, propensão aparentemente resultante de maiores tempos de reacção e menores capacidades de atenção.

Muito mais interessante pelo seu potencial explicativo dos padrões de comportamentos sociais é a elevada correlação estatística observada entre taxas de incidência da toxoplasmose e frequências de neurose. O caso mais interessante é o da França com altíssimos valores do score de neurose (1,8) e da taxa de infecção (45%), quando comparada, por exemplo, com a Grã-Bretanha, com valores muito mais baixos: -0,8 e 6,6%, respectivamente. Eventualmente isso explicará as dimensões culturais esquizofrénicas da França que os estudos de Geert Hofstede mostram com um índice de distância hierárquica duplo do britânico, explicação possível da conhecida propensão gaulesa para manifestações violentas e mudanças revolucionárias do poder por oposição às reformas graduais. Se tivesse que dar um conselho ao presidente Sarko e à sua bela Bruni para contribuírem para a pacificação da sociedade francesa e a promoção do espírito reformista seria: cuidem melhor da higiene sanitária dos franceses, exterminem os ratos e, em caso desesperado, como último acto de mudança violenta (revolucionária), exterminem também os gatos.

[Informação eventualmente útil para dona Carla do bomba inteligente e o seu gato Varandas]