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13/05/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (187)

Outras avarias da geringonça e do país.

A pantomina

Tão subitamente quanto surgiu, desapareceu a crise da demissão do governo, uma pantominice em que cada farsante fingiu fazer o papel do outro. Sem surpresa, contra os pantomineiros amadores da oposição, ganhou o maior pantomineiro, o chefe do partido que levou o país à bancarrota, cujos deputados votaram há uns meses uma recomendação ao governo para contarem os 9A4M2D dos professores, pantomineiro que agora ressuscita encarnando a rectidão orçamental, depois de 3 anos a distribuir prebendas pela sua freguesia eleitoral. Uma única medida (a redução do IVA da restauração) custou mais do que do que o bodo que agora o governo nega os professores que fizeram o papel de idiotas úteis. Pelo caminho, o ministro das Finanças excedeu-se nos gastos de demagogia e aumentou o seu défice de credibilidade, aplicando o multiplicador à estimativa do custo de recuperação dos 9A4M2D.

Surpreendente? Nem por isso. Todos fizeram o papel que se esperava que fizessem, incluindo o venerando Chefe do Estado (era assim que se chamava ao Almirante Américo Thomaz), que ficou praticamente recluso no mais recolhido silêncio. Infelizmente receio que tenha malbaratado todo o seu limitado stock de contenção num só evento.

Todos fizeram o seu papel? Se não é literalmente todos, é uma multidão que inclui quase metade dos inquiridos na sondagem da Aximage que aprovaram a pantomina de Costa.

Boa nova

Para quem pense que o governo de Costa só reage aos acontecimentos, aqui vai um desmentido: o governo de Costa é até capaz de criar acontecimentos, e não me estou a referir à ameaça de demissão. Veja-se como durante a preparação do OE 2018 construiu tabelas de retenção do IRS que permitiram agora, um ano e meio depois, reembolsar um valor médio mais de mil euros, reembolso que deve estar a fazer a felicidade de uma multidão de distraídos que não repararam que esses mil euros lhes são devolvidos por terem sido extorquidos a mais.

Se os alunos que seguem a via profissional no ensino secundário quiserem ser admitidos numa universidade têm actualmente de fazer exames nacionais que incluem disciplinas que não frequentaram. Como resolver segundo a fórmula-padrão do facilitismo socialista? Simples abolem-se os exames e substituem-se por um «concurso local».

A família socialista é numerosa e muito unida

Não passou desapercebido a presença na reunião do governo, a pretexto da crise inventada pelo Dr. Costa, de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS, que não faz parte do governo salvo por parte do irmão que é o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.

A mesma coesão familiar deve ter levado a presidente da câmara de Góis a nomear chefe de gabinete o seu marido, antigo motorista e mais tarde secretário.

A página a seguir à austeridade

Vários doentes em hospitais do Algarve morreram porque as análises feitas pelo IPO não chegaram a tempo de ser iniciado o tratamento por falta de garantias financeiras dos hospitais, devido a constrangimentos orçamentais.

Grávidas, bebés e doentes em risco de vida no Hospital Amadora-Sintra por falta de anestesistas. A GNR só consegue disponibilizar um militar para cobrir mais de 2 mil km2 e 25 mil habitantes e não será por falta absoluta de efectivos porque somos um dos Estados mais policiados do planeta.

Paz social

Apesar de nos aproximarmos da época baixa em matéria de greves, está anunciada uma dos médicos para Junho e uma outra dos motoristas de matérias perigosas, apesar do governo ter usado a sua arma secreta para abortar greves - o secretário-geral in waiting que no passado remoto se estava nas tintas para os banqueiros alemães e os ameaçava com o não pagamos.

A vida para além do orçamento

Graças talvez à distracção do governo que a nomeou, Nazaré Cabral, a nova presidente do Conselho das Finanças Públicas (CFP), está a mostrar-se à altura de Teodora Cardoso em matéria de independência e vem espiolhando a cartola de onde o Ronaldo das Finanças tira os seus coelhos. Foi o caso com a revisão em alta das despesas com pessoal que num ano foram aumentadas em mais de mil milhões de euros - manter sossegada a clientela custa caro. Como foi o caso do CFP ter reparado que para acomodar mais uma injecção no Fundo de Resgate dos bancos não só a receita fiscal foi aumentada como, uma vez mais, o investimento público foi reduzido. Quanto ao investimento público, a coisa já é tão notória que o venerando Chefe do Estado admitiu numa entrevista de há dois meses, agora transmitida, que para conseguir baixar o défice o governo optou por «cortar nalgum investimento público», sendo o «nalgum» um insólito understatement numa criatura sobretudo conhecida por overstaments».

A este propósito, veja-se no quadro seguinte como o Ronaldo das Finanças conseguiu reduzir a despesa total de 2017 para 2018, às custas da despesa de capital, apesar da despesa corrente ter aumentado quase dois milhões de euros.

INE, Destaque de 26-03
O Estado sucial é um caloteiro

Se não vivesse de extorsão, o Estado sucial entraria em falência permanente e não apenas 3 vezes em 45 anos. Qual é a instituição que conseguiria sobreviver pagando aos seus fornecedores a 533 dias, como o ministério de Cultura, ou 439 dias como a UTAP, 317 dias como a DAEGP com 317 dias ou 203 dias como GPEARI?

E a produtividade que não pára de descer

Expresso, 11-05
Ao invés de procurar incentivar o aumento da produtividade, o governo adopta a agenda esquerdista do aumento do salário mínimo, imaginando que aumentando os salários a aumentará, como na anedota do visconde de Chateaubriand de quem se diz imaginar que a divina providência tinha feito passar os rios pelo meio das cidades. O resultado é que a produtividade continua a baixar, e o salário mínimo em Portugal está cada vez mais próximo do salário mediano (é o segundo mais próximo depois da França).

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

Negócios
O consumo continua pujante com o segundo maior aumento do comércio a retalho na UE. O consumo aumenta e, inevitavelmente, as importações aumentam e défice comercial de bens do 1.º trimestre triplica para 1,8 mil milhões em relação a 2018. Quando é que já vimos este padrão? Nos anos que precederam o resgate, pois claro.

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