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20/05/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (188)

Outras avarias da geringonça e do país.


A carga fiscal aumentou? Depende do que seja, como a democracia norte-coreana para o Sr. Jerónimo

A carga fiscal subiu 0,3% em 2017 para 34,4% e em 2018 subiu 1% para 35,4%. Pelo menos é o que dizem o INE e os economistas que não se licenciaram na Mouse School of Economics. O Dr Centeno indigna-se e discorda criando uma fórmula alternativa que tem em conta o défice e os impostos futuros, fórmula que é até hoje a sua criação teórica mais original. O que, vá-se lá saber porquê, me fez lembrar a boutade da auto-estrada mexicana aqui recontada pelo outro contribuinte impertinente.

Boa nova

O anúncio da redução do IVA da electricidade e do gás natural a partir de 1 de Julho já foi feito várias várias vezes e continuará a sê-lo até lá passando de seguida ao capítulo da obra feita. O facto de essa redução não significar mais do que uns míseros 2 euros mensais por cada uma das famílias que têm uma potência contratada que não dá para usar as máquinas de lavar roupa e louça ao mesmo tempo não impede que o governo tenha sempre ligada a máquina de propaganda.

Não descurando nenhum sector do eleitorado, foram anunciados subsídios de 60 milhões de euros para projectos de regadio financiados pela Óropa. Nada mais oportuno quando se está em eleições europeias em cujas campanhas se fazem competições para saber quem conseguirá sacar mais dinheiro aos contribuintes europeus e campeonatos de indignação pelo Berardo se ter rido nas trombas de sujeitos que eram acólitos dos seus sócios nos vários serviços que ele prestou da sabotagem da OPA à PT até ao assalto ao BCP.

Centeno também anunciou haver «542 benefícios fiscais em Portugal», sem contar com os do IMI, o que, segundo ele, é injusto mas agora não há tempo para tratar disso, só depois da eleições.

Deixei para o fim das boas novas o anúncio da rede de apoio mental em tragédias (vou tentar saber se pode ser usada pelas vítimas mentais da geringonça, como este vosso escriba). O facto desta criação já vir a ser anunciada desde Julho do ano passado não é surpreendente, faz parte do padrão.

Paz social

Mais uma greve no porto de Sines às horas extraordinárias (sempre achei extraordinárias estas greves) até 4 de Outubro (leu bem, até daqui a 5 meses). Também há uma greve na Transportes Sul do Tejo (TST) e uma outra anunciada para 30 de Maio dos inspectores do Estado.

O resto são boas notícias, obra do talento negocial de Pedro Nuno Santos, actualmente no ministério das Infraestruturas a fazer currículo e a percorrer um longo caminho que começou com a ameaça aos banqueiros alemães e acabará em secretário-geral e primeiro-ministro quando o chefe Costa se reformar na Óropa e/ou em Belém. As boas notícias são a suspensão da greve da CP marcada para 20 e 21 e o acordo para desconvocar da greve dos motoristas de matérias perigosas do dia 23. Dirão os detractores do pedronunismo que dentro de algum tempo elas voltarão e podem ter razão, mas o certo que chutando a bola para a frente ela irá cair depois das eleições europeias. A seguir se verá. Nisto o pedronunismo é parecido com o costismo.

Cuidando da freguesia eleitoral

O que dizer de uma organização em que 60% dos trabalhadores são promovidos ou têm progressões, para usar o oficialês, em apenas 14 meses? Primeiro estranha-se, depois entranha-se quando se sabe que os promovidos são 390 mil e habitam a vaca marsupial pública. Não admira, pois, que o índice de custo do trabalho dos funcionários públicos nesse período tenha aumentado 3,5% enquanto os tansos que trabalham no sector privado o mesmo índice tenha diminuído 0,3%. Não se queixem os tansos, pois se dessem a maioria absoluta à geringonça durante uma geração poderiam vir a ser todos funcionários públicos. Quereis um exemplo? O número de utentes da vaca atingiu 690 mil, o mais alto desde 2013, e teve um aumento homólogo de 2,3% até ao final do 1.º trimestre. Veja-se no diagrama seguinte como durante o governo anterior os efectivos foram sendo reduzidos e só nos dois últimos trimestres de 2015 tiveram um ligeiro aumento e com a chegada da geringonça voltámos ao mesmo filme.


Apesar da pletora dos efectivos no aparelho administrativo e burocrático, as forças armadas, que desempenham uma função vital do Estado, estão subdotadas e segundo o CEMGFA precisam de quatro mil militares, ou seja um quarto dos burocratas contratados só no primeiro trimestre deste ano. Presumo que a falta seja de tropa operacional porque sobra tropa de gabinete. Fiquei a saber pelo major-general reformado Carlos Chaves num artigo publicado no jornal SOL que na Escola Naval, na Academia Militar e na Academia da Força Aérea o número de alunos por docente variava entre 1,7 e 4.

A página a seguir à austeridade

É claro que para cuidar bem da freguesia o dinheiro terá de faltar em qualquer lado, apesar do aumento da carga fiscal - já lá vamos. Por exemplo, para combater os incêndios florestais que ainda não tem os meios aéreos previstos, Ou para dotar de pessoal a unidade de transplante da medula do IPO onde foi gasto um milhão de euros.

Estamos a investir mais ou menos? Depende de quem faz as contas

O investimento público que, recorde-se, era o alfa e ómega do Estado Sucial para os socialistas e para comunistas e berloquistas. Uns e outros têm-se aguentado estoicamente e à força de engolirem sapos poderão acabar a gostar deles. Mas então o investimento público não tem aumentado como Centeno garantiu em comunicado do MF? Não é verdade que o «investimento público não tem sido utilizado para consolidar as contas públicas»? Só se a verdade for o que o homem quiser, como o Natal para o Ary dos Santos. Reproduzindo o quadro que publiquei a semana passada, veja-se como foi reduzida a despesa total de 2017 para 2018, às custas da despesa de capital, apesar da despesa corrente ter aumentado quase dois milhões de euros.


Seja como for, não vale a pena discutir. Agora é oficial. O semanário de reverência confirma que a "austeridade" socialista existe mesmo: Costa-Centeno investem menos do que o governo "neoliberal".

O milagre do défice visto por agnósticos

E por falar nas criações científicas do nosso Ronaldo das Finanças, socorrendo-nos deste artigo de Miranda Sarmento, revisitemos o milagre do défice estrutural, «isto é o défice sem o efeito do ciclo económico e sem as medidas one-off». Como do whatever it takes de Draghi resultou uma redução do défice de 1,3 p.p., 0,5 de dividendo e IRC do BdP e o Ronaldo cortou 0,2 de investimento, a soma desses três efeitos (2 p.p.) ultrapassa a redução de 1,7 do défice estrutural. Moral da estória: o milagre do Ronaldo ainda desperdiçou 15% de bónus do Mario.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Segundo a estimativa do INE o PIB cresceu 1,8% nos últimos 12 meses, o que foi logo trombeteado como uma aceleração face ao último trimestre do ano passado e um crescimento acima da zona Euro (1,2% no mesmo período). Convém acrescentar duas coisas: (1) uma boa parte dessa pífia aceleração resultou do investimento da TAP na ampliação da sua frota apresentado pela imprensa amiga como «investimento de Centeno» e (2) Portugal é o que menos cresce entre os países do mesmo campeonato que inclui todos sobreviventes do colapso do socialismo soviético e ainda o Chipre, a Espanha, a Finlândia, a Holanda e, claro, a Irlanda. Para simplificar, somos o 3.º ou 4.º país que menos cresce entre os 28 da UE.

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