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13/05/2017

Porque está a nossa esquerda, pela pena do jornalismo das respectivas causas, tão excitada com a vitória de Macron e a visita de Francisco?

Quanto a Macron, é certo que o homem foi banqueiro, mas também foi ministro da Economia de um governo socialista daquele presidente que foi a grande esperança da esquerda e representou um virar da página na Europa, antes de começar a andar de scooter com a namorada. E já declarou abraçar algumas das grandes causas do seu antecessor, como as críticas à concorrência fiscal da Irlanda, os salários baixos na Europa do Leste, um orçamento, um ministério das Finanças e um parlamento comuns, promete uma negociação dura do Brexit e parecia defender a mutualização da dívida.

Por causa dessas causas, o governo alemão já fez saber que não aceita os Eurobonds - até o socialista Schulz disse que bonds, só o James. E, claro, Macron lá veio esclarecer que afinal não é bem assim. Mais uma esperança dos Tsipras e dos Costas, a pensarem zerar o conta-quilómetros e recomeçar tudo de novo, que provavelmente vai para o caixote de lixo da história, já atafulhado de ilusões.

Quanto ao papa Francisco, a esquerdalhada tem menos decepções a recear. Como o reino dele não é deste mundo e o orçamento do Vaticano não vai pagar a dívida portuguesa, a coisa fica-se pelas boas (ou más, depende da opinião) intenções e declarações. Vem a propósito citar um excerto de um interessante artigo de José Bento da Silva no Observador com o significativo título «Sim, o Papa Francisco é socialista!». Aqui vai.

«Contudo, e dado que não temos clareza acerca das intenções do Papa, é legítimo, com os dados que temos, afirmar que o Papa é socialista.  (...)  O pensamento politico-económico do Papa está classificado há muito: é o socialismo. O Papa está genuinamente centrado nos pobres, mas claramente acredita nos resultados de uma solução socialista; os liberais também estão genuinamente centrados na pobreza, mas propomos uma solução um ‘tudo-nada’ diferente. É somente isto! (...)

Está contudo por estabelecer a relação de causalidade entre a santidade de uma pessoa e a razoabilidade das suas opções politico-económicos.»

Outras leituras recomendadas «a religião é a política por outros meios?».

Para concluir, acrescento suspeitar não ser por acaso que a esquerda, pelo menos desde 1789, quando os esquerdistas avant la lettre se sentaram na Assemblée nationale à esquerda do Citoyen Président, começa com sonhos dos amanhãs que cantam e acaba com pesadelos dos passados que choram, substituindo cada decepção depois de uma de ilusão com uma nova ilusão. Entre uma ilusão e a ilusão seguinte a história mostra-nos frequentemente multidões de mortos, miséria e fome.

Não faltam exemplos do pensamento miraculoso da esquerda. Ao contrário, são raros os episódios de lucidez. São tão raros que cito um que ainda está fresco: Daniel de Oliveira, jornalista de causas / militante / comentador / analista, ex-comunista, ex-Plataforma de Esquerda, ex-Política XXI, ex-bloquista, ex-Livre, ex-Tempo de Avançar, como já foi caracterizado aqui no (Im)pertinências, é um case study de militância de esquerda. Surpreendentemente, escreveu no Expresso online um artigo com um título que é todo um programa («Depois de Hollande, Schulz é a esperança») e que começa assim: «O optimismo dos europeísta de esquerda tem uma característica fundamental; a impressionante e perseverante resistência à realidade.» Bem-vindo ao mundo real.

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