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15/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (83)

Outras avarias da geringonça.

Vinte anos depois de o governo socialista de Guterres ter garantido que a segurança social seria sustentável nos 50 anos seguintes, Vieira da Silva, o ministro socialista do Trabalho, diz que acredita que a coisa se aguenta nos próximos 13 anos. Pelo caminho ficaram 17 anos. Por estas e por outras, não fosse a reconhecida memória curta do eleitorado, a classe política em geral e a dos apparatchiks socialistas em particular estaria completamente desacreditada. Pelo sim, pelo não, Vieira da Silva admite novas formas de financiamento, que é como quem diz  se não houver mais milagres sempre podemos aumentar a carga fiscal.

Desalinhadas da onda de optimismo que inunda o país, as agências de rating continuam incrédulas. Mais uma agência, a Moody's, mantém a notação Ba1 («lixo») com um outlook estável. Quem está também relutante em aderir à visão do governo é a OCDE cujo Indicador Compósito Avançado para Portugal está a cair desde há 7 meses. Quanto à CE pôs água na fervura das projecções de crescimento do governo para 2018 descendo-as de 1,8% para 1,6%. Desconfio que todos terão razões para a falta de entusiasmo. Como aqui mostrou Helena Garrido, está a dar-se um fenómeno diferente em relação às crises anteriores «a produtividade desce quando se caminha para a crise e sobe na fase da retoma» (veja-se o diagrama seguinte), sabendo-se que a baixa produtividade (além do défice de capital que em parte a origina) é um dos factores que bloqueiam o crescimento da economia portuguesa não é caso para se ficar excitado.


Quando se fala em défice de capital, não é o défice absoluto. Portugal talvez tenha até excesso de capital. Onde? Nos sírios errados, nas casinhas (1,8 habitantes por alojamento contra os 2,3 de França, por exemplo) para onde aliás continua a fluir.

Se não temos falta de casinhas, também não temos de polícias. Só a câmara de Lisboa, sob gerência socialista do sucessor de Costa, vai ter 600 polícias à pala de a polícia municipal ter ficado com missões da PSP. Se Portugal já é um estado policial, Lisboa passa a ser uma câmara policial - ver a propósito Parkinson na câmara de Lisboa.

Um bom exemplo do enorme talento da geringonça para criar factos alternativos é o investimento público. Para o governo socialista, pela boca do Ministro do Planeamento, o crescimento foi de 100% em Janeiro e de 25% em Março. Para a UTAO a coisa fia mais fino e no 1.º trimestre a administração central investiu menos 11,3% do que em 2016 (ano em que o investimento foi o mais baixo desde 1995) e as autarquias investiram mais 44% (ano de eleições oblige). Para se perceber melhor, poderia contar outra vez a estória da auto-estrada mexicana ou remeter para este esclarecimento do jornal Eco.

Prossegue a bom ritmo o crescimento das emissões de dívida. Segundo o IGCP, cerca de 41% das necessidades de financiamento já estão garantidas este ano e existe disponibilidade em liquidez de 21,4 mil milhões, um valor que atinge os patamares de 2014 do governo PSD-CDS. O IGCP prevê que no final do ano a almofada de liquidez, atingirá cerca de 40% das necessidades brutas de financiamento de 2018. O governo de Costa está assim a demonstrar uma grande mestria na gestão da dívida, pondo em prática o lema do seu antecessor Sócrates: a dívida não é para se pagar, foi assim que eu aprendi, adoptado com grande sucesso pela Mouse School of Economics.

E se pensam que o paralelo com o perseguido pela justiça é exagerado, lembro que, se Sócrates até tentou vender dívida à presidenta Dilma que não foi na cantiga, Costa disse que ia ao Qatar à procura de investidores e na verdade tentou impingir-lhes dívida. Como os bons exemplos florescem, o novo Mário Centeno que saiu do casulo de Calimero transformado em Popeye, já fala em emissões de OT em Renminbi.

Se é certo que yields voltaram a descer para o nível de Novembro é igualmente certo que, como lembra o Commerzbank, «o país continua a enfrentar os mesmos problemas estruturais e algumas medidas tomadas pelo Governo podem agravar esses problemas, uma vez mais». Pois, pois.

Quanto à coesão da geringonça permanece aparentemente sólida, com alguns sinais por parte dos comunistas que não estão a apreciar a intensidade apaixonada entre os outros dois da ménage à trois (o PEV não conta). Os pré-avisos de greve multiplicam-se e o PCP, distanciou-se do grupo de trabalho PS-BE que discutiu a dívida e, quando Costa queria que o orçamento ficasse fechado até ao Verão, Jerónimo já disse que só discute o orçamento depois das eleições autárquicas. Em contraste, os bloquistas, quais revisionistas aprés la lettre, esqueceram o seu radicalismo e juntaram-se aos galambas que, depois de porem as perninhas dos banqueiros alemães a tremer,  passaram a fazer depender qualquer proposta de reestruturação da dívida da abertura da UE.

Concluo com mais um anúncio miraculoso em que Costa é mestre: o investimento em investigação científica que é hoje de 1,28% do PIB subirá em três anos para 2,7%, mais do dobro. Se daqui a três alguém ainda se lembrar disso, Costa ou alguém por ele contará mais uma estória tipo auto-estrada mexicana ou outra explicação ainda mais estúpida.

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