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08/05/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (82)

Outras avarias da geringonça.

No 1.º trimestre as contas do SNS continuaram a deteriorar-se: os pagamentos em atraso dos hospitais aumentaram 152 milhões em relação ao 1.º trimestre de 2016; a reposição salarial e o acréscimo do n.º de efectivos aumentaram as despesas não obstante a redução das despesas com medicamentos. No total das entidades públicas os pagamentos em atraso estão quase a atingir mil milhões de euros, dos quais quase 900 milhões às empresas farmacêuticas. (fonte)

Como já tinha referido na crónica anterior, o governo prepara o assalto às provisões do BdP alterando os seus estatutos. Enquanto isso, o tele-evangelista Louçã postula que o assunto substituição do governador está encerrado ao mesmo tempo que BdP usa informação privilegiada, por via do Conselho Consultivo, presume-se, escreveu o Expresso (uma fonte credível nesta matéria).

Quanto melhor se conhecem as conclusões do Grupo de Trabalho sobre a Sustentabilidade da Dívida Externa melhor se percebe que, como na conhecido estória da tese de doutoramento, o que é original não é bom e o que é bom não é original. A este respeito, leiam-se as análises de Helena Garrido. Miranda Sarmento ou Paulo Ferreira, por exemplo, ou a de Luís Aguiar-Conraria - esta última deve ser lida com o desconfiómetro ligado porque é insustentável reduzir a dívida com os imaginados superavits orçamentais conseguidos com perdões fiscais, cativações e, sobretudo, reduções do investimento público que a continuarem paralisarão a máquina administrativa.

Enquanto prosseguem as discussões teoréticas sobre a dívida esta continua incansavelmente a aumentar tendo atingido em Março 243,5 mil milhões ou seja mais 10 mil milhões do que 12 meses antes. Mesmo descontando os depósitos bancários, a dívida aumentou 3,1 mil milhões só num mês.

Continua a lubrificação da clientela eleitoral, com os aumentos a pretexto da avaliação de desempenho que podem atingir mais de 400 euros por mês e a integração dos «precários» cujo número não será inferior a 50 mil e poderá andar perto dos 100 mil, dependendo do jogo de forças dentro da geringonça e das pressões dos comunistas através dos sindicatos que segundo o Público, por incrível que pareça, «podem alertar os dirigentes máximos dos serviços para situações de precariedade de que tenham conhecimento e que querem ver avaliadas».

Pode não ser «a maior caça ao voto de sempre», como escreveu Pinho Cardão, porque outro governo socialista (o de Guterres) fez também há 20 anos uma integração maciça de «precários», nessa época com outro nome. Ainda que a curto prazo esta integração possa não ter efeitos significativos na despesa, a prazo terá aumentando os custos fixos da administração pública e reduzindo a sua já escassa flexibilidade. Não esquecendo que a redução de 11% do horário de trabalho de 40 para 35 horas só não tem um efeito equivalente no aumento dos efectivos porque deveriam contar-se pelos dedos os utentes da vaca marsupial pública que trabalhavam em pleno as 40 horas.

Sobre o caso especial dos professores, que tiveram a maior redução de efectivos de toda a administração pública, leia-se esta excelente análise de Alexandre Homem Cristo e constate-se que, apesar do rácio alunos/professor ser dos mais baixos na Europa (10 contra 16 na Holanda ou 15 em França) e apesar do número de alunos continuar a reduzir ano após ano, o quadro de professores está tão envelhecido que são inevitáveis novas contratações.

A compra de dívida pelo BCE, um elemento fulcral da estratégia de sobrevivência de Costa, continua a diminuir, reduzindo-se em Abril para metade da média, e pode ter os dias contados já no próximo mês quando for discutida a estratégia para 2018 e se vão escutando as vozes dos opositores à continuidade do programa de alívio quantitativo, como o austríaco Ewald Nowotny membro do Conselho do BCE.

Enquanto o país se descapitaliza, os consumidores continuam a gastar como se não houvesse amanhã, incentivados pelos aumentos salariais que segundo o BdP subiram 1,6% em 2016 um ponto percentual acima da inflação e acima da subida em 2015 (0,6%), e alegrados pelos factos alternativos e a realidade virtual criados pelo governo. Alegria visível no aumento de quase 5% para 20 milhões de viagens o ano passado ou nos aumentos homólogos de 6% nos quatro primeiros meses e de 18% em Abril das vendas de automóveis ou a construção de casinhas novas (de que já temos de sobra) cujo número voltou a crescer quase 50% em 2016. Não admira que o endividamento das famílias, depois da quebra dos anos 2011-2014, continue a crescer atingindo quase 200% do rendimento médio. Onde já vimos este filme? No Portugal dos anos anteriores ao resgate,

Sendo certo que a vida da geringonça não está a curto prazo ameaçada, por várias razões que têm pouco a ver com a governação socialista, alguns sinais prenunciam o alargamento das fendas no seu interior, como a subida de tom das reivindicações sindicais e a ameaça de greve geral. Uma improvável rotura não virá por certo do BE que se acomodou à situação e consegue ser uma espécie de Dr. Jekyll para o governo socialista e Mr. Hyde no agitprop mediático para consumo da sua base eleitoral radical chic. Já quanto aos comunistas a coisa fia mais fino e a sua falta de rins e a necessidade de manterem a coesão no lar da terceira idade que é a sua base podem mais facilmente levar a uma rotura.

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