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29/08/2016

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (5)

«Enfim, é expectável (e justo) que muitos assinalem, gozem ou se indignem com as incongruências, cada vez mais gritantes, do “Cenário Macroeconómico” do PS – e, até, que estas sirvam de arma retórica nos duelos parlamentares. Mas convém não esquecer que, na política portuguesa, os factos contam pouco. E que, por isso, o país se entusiasmará sempre mais a discutir as finanças públicas da perspectiva dos estados de espírito (o “pessimismo” de Passos contra o “optimismo” de Costa) do que recorrendo aos indicadores do INE. Em 2009, foi aliás o que aconteceu, quando o “optimista” Sócrates venceu a “bota-abaixista” Ferreira Leite, para dois anos depois entregar o país à troika. E, hoje, se a direita não aprender a lição, arrisca-se a brevemente repetir a derrota: denunciar contas falhadas não chega, é necessário oferecer uma ideia de futuro. Não basta ter os factos do seu lado. Porque, perante a mensagem certa, serão sempre mais as pessoas que preferirão mentiras. E o “Cenário Macroeconómico” prova que António Costa sabe isso muito bem.»

Estas palavras de Alexandre Homem Cristo no Observador identificam bem este facto elementar na política portuguesa, historicamente provado e evidentíssimo nos anos que antecedem as grandes crises (como o consolado de Sócrates): «serão sempre mais as pessoas que preferirão mentiras». A esse facto devemos adicionar um outro que é o enviesamento da maioria dos jornalistas - por isso os costumamos chamar jornalistas de causas. Tanto os de esquerda como os de direita, sendo que por cada 1 destes há n daqueles e por isso, subitamente, desde a ascensão da geringonça ao poder, todas desgraças, injustiças, desemprego, fome e miséria evaporaram-se, para usar as palavras do presidente Marcelo – o evaporador-mor do Reino de Pacheco.

É neste contexto que Passos Coelho tem de fazer oposição sem cair no «bota-abaixismo», que se revela contraproducente, nem no «optimismo» que seria uma mistificação e, de resto, nesse terreno, perderia em toda a linha para Costa. É uma saída muito estreita e certamente exige uma dose mínima de carisma (que não é abundante em PPC, to say the least) e, sobretudo, uma visão para o país, própria, realista, distinta e distinguível do social-corporativismo de quase toda a esquerda (que PPC ainda não mostrou) que mobilize aquela parte do eleitorado que não vive pendurada no Estado e que contenha a legião de apparatchiks que povoam o PSD, impacientes por recuperarem o estatuto de novos situacionistas.

É mais fácil de dizer do que de fazer e, se for possível, levará sempre um certo tempo e requer alguma paciência. Habituem-se.