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15/08/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (44)

Outras avarias da geringonça.

Começo pela anunciada segunda visita de Costa a Tsipras para discutir a reestruturação da dívida e remeto para este post de ontem que me dispensa de mais comentários.

E, por falar em reestruturação da dívida, da qual mais de 12 mil milhões é detida pelo FEFSS, vem a propósito lembrar que os funcionários públicos contratados nos últimos anos estão abrangidos pelo regime geral da SS pelo que a CGA deixou de ter novos subscritores e, em consequência, o número de pensionistas já ultrapassou o número de activos e a CGA passou a ser um esquema Ponzi em estado puro - dentro de alguns anos acontecerá o mesmo ao regime geral. Dir-se-à que isto não tem nada a ver com a geringonça, mas passa a ter porque o PS foi governo a maior parte dos últimos 42 anos e todos os parceiros da geringonça metem a cabeça na areia e negam a insustentabilidade da SS ou, o que é a mesma coisa, dizem que criarão novos impostos para a financiar.

Se há coisas que nos faziam falta, um «Observatório dos Mercados da Mobilidade, Preços e Estratégias Empresariais» era certamente uma delas. A Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) já está a tratar do assunto para o que «começou a constituir a equipa de mais de 80 pessoas» a que se somarão os boys que irão poisar no observatório.

Se há coisas que a esquerdalhada faz bem melhor do que a direitaça quando está no governo é criar emprego. Com uma bela reestruturação da dívida, sonham eles, ficaríamos com margem para acabar com o desemprego dos boys nos próximos 10 anos. Ainda a reestruturação da dívida está apenas nos sonhos húmidos da geringonça e já a máquina de criação de tença funciona a todo o vapor: o número de boys nos gabinetes de membros dos governos central e regionais subiu 22% num ano.

Não obstante a lengalenga oficial, o preço de deixar cair as sanções é cumprir o défice de 2,5% em 2016 e apresentar medidas de consolidação equivalentes a 0,25% até 15 de Outubro. E se o Eurostat obrigar a incluir os prejuízos passados da Caixa no défice deste aos 1,1 mil milhões a meta ficará definitivamente incumprível. Dir-se-à que é uma crueldade bruxelense. Não, não é. É apenas um critério contabilístico eventualmente discutível. O que não tem discussão é que os prejuízos passados e futuros da Caixa terão de ser cobertos com... imaginem mais o quê. Incluindo os mais de 200 milhões que agora se ficou a saber são os prejuízos da Caixa só no 1.º semestre deste ano. Dizem que foi por causa do Brexit (é uma piada porque o referendo foi nos últimos dias do semestre) e da dívida pública - agora imagine-se como tremeriam as pernas de António Domingues se a dívida pública fosse reestruturada só de pensar que a continuidade das condições salariais principescas que os administradores da Caixa vão passar a ter poderiam ficar ameaçadas. Registe-se que a explicação do governo para não aplicar à Caixa os limites salariais das empresas públicas é que Bruxelas quer a Caixa tratada como uma empresa privada... E disseram isto sem se rirem.

O pensamento mágico típico da Mouse School of Economics leva sempre a melhor: Centeno aplica-se em encontrar uma solução para os chamados lesados do papel comercial do GES - um nome mais adequado seria os «levados do papel comercial» - que não tenha impacto no défice. Se a criatura não professasse a doutrina da Mouse perceberia logo que para não ter impacto no défice só há duas soluções: ou bem os lesados se aguentam com o barrete que os Espírito Santo lhes enfiaram, ou bem a geringonça tem de chamar a equipa de Sócrates especialista na maquilhagem das contas públicas, expediente que com o Eurostat com a pulga atrás da orelha é só um adiar.

Como gato escaldado de água fria tem medo (e esta água até é quente), o Conselho e a Comissão exigem um «relatório trimestral detalhado, que terá de ser público, com a evolução da execução orçamental, da dívida pública e das medidas adoptadas para reduzir o défice.»  Nós agradecemos. Se com um polícia à porta a geringonça faz o que faz, imagine-se em roda livre. Entendamo-nos, a soberania tem um preço que nós há muito não pagamos.

Mesmo com o polícia à porta, a geringonça re-pôs as 35 horas mentindo sobre os impactos orçamentais e agora ficou a saber-se que são precisos pelo menos mais 3.600 funcionários nos ministérios da Saúde e da Educação. A esse impacto temos de acrescentar o aumento de 1,8% da remuneração média total bruta dos funcionários, com algumas categorias a aumentarem entre 4% e 7%

Quanto ao resultado das políticas económicas da geringonça, o Excel de Centeno tem as fórmulas todas ensarilhadas. Não são apenas as contas públicas, também a máquina de produzir riqueza para pagar as contas públicas está gripada. No 2.º trimestre o PIB cresceu apenas 0,2% em relação ao 1.º trimestre e 0,8% face ao 2.º trimestre do ano passado. Reconheça-se que o governo anterior no 2.º trimestre do ano passado já tinha começado a trabalhar para as eleições mas, segundo as larachas da Mouse School, o Excel do Centeno já teria recomposto a coisa, Não recompôs, descompôs. Enquanto isso, os custos do trabalho aumentaram 2,5% no 2.º trimestre e não é preciso dizer o que aconteceu à produtividade, pois não? Estamos a seguir a receita socialista dos anos anteriores à bancarrota. É só esperar. Ela acabará por chegar.

Contudo, nem tudo está errado nas fórmulas de Centeno. Por exemplo, os incentivos ao consumo estão a puxar pela economia. Infelizmente, como toda a gente fora da Mouse School sabia, o consumo está a puxar pela economia dos outros. Em Junho, sem combustíveis, as importações cresceram 3,6%  e as exportações aumentaram apenas 0,5%; com combustíveis as variações foram respectivamente -0,4% e -2%, pelo que se regista um novo agravamento do défice da balança comercial.

Esta crónica já vai longa e ficou por tratar o tema emprego, à pala do qual a geringonça se anda a auto-congratular. Fica para a próxima semana.

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