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29/08/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (46)

Outras avarias da geringonça.

Se os caros leitores não suportarem mais o tema «Caixa» que, concedo, é demasiado mau até para a geringonça, sugiro que voltem à Crónica na próxima semana porque este é o prato de sustância no menu de hoje (recomendo a leitura deste artigo de Helena Garrido, um oásis no deserto da imprensa apologética).

Finalmente a CE aprovou a capitalização da Caixa com várias condições, umas humilhantes para o governo, outras simplesmente muito difíceis de realizar.

Entre as condições humilhantes destaco a limpeza da lista das 19 sumidades que ficou reduzida a 11, na condição de 3 deles irem estudar para banqueiros no INSEAD. Note-se que o governo ainda tentou tirar o coelho da cartola fazendo legislação à medida das sumidades e só desistiu porque o presidente Marcelo achou que promulgar tal lei seria demasiado até para a sua adaptável garganta. Não podendo enfiar as 8 sumidades residuais pela porta da frente do mausoléu da Avenida João XXI, o governo parece querer enfiá-las pela portas das traseiras criando um conselho consultivo.

As condições difíceis de realizar incluem encontrar capitais privados disponíveis para investirem mil milhões de euros em obrigações subordinadas que, segundo o governo - e nós acreditamos, porque seria o desconjuntar da geringonça -, não poderão em circunstância alguma ser convertidas em acções. Num país descapitalizado, em que só na banca faltam 7,5 mil milhões, onde encontrar investidores para comprar obrigações que obviamente não dão direito a voto e só são reembolsadas depois de todos credores por dívida não subordinada?

Investidores estrangeiros? Duvida-se que estejam disponíveis mártires para esta causa e, se estiverem, tratarão estas obrigações como junk bonds com um yield pantagruélico. Por isso, o prognóstico é reservado para o Financial Times, que recorda terem-se fechado os mercados depois do problema das obrigações do Novo Banco e sublinha ter o sistema bancário português 30 mil milhões de crédito malparado - imagine-se os mercados a terem prestado atenção à piada das pernas a tremer dos banqueiros alemães daquele pateta socialista que é hoje secretário de estado não sei de quê.

Uma das consequências da capitalização da Caixa é evidentemente somar à dívida mais um mínimo de 2,7 mil milhões de euros (cerca de 1,5% do PIB). E, a propósito, tenho de relevar o júbilo da geringonça, acompanhada pelo coro do jornalismo de causas e comentadoria do regime, com destaque para os opinion dealers, pelo facto de os 2,7 mil milhões a enfiar na Caixa não serem considerados para o défice. Escapa-me a razão de tal júbilo que só me pareceria adequado se o aumento da dívida pública fosse substituído por um donativo dos tais banqueiros alemães apavorados pelas ameaças do tal secretário de estado não sei de quê.

E se falamos em dívida pública, falamos em défice e na execução orçamental e, para não nos repetirmos, encaminho para o post do outro contribuinte onde salienta o carinho com que a imprensa trata a derrapagem orçamental da geringonça, Aproveito para acrescentar aos impactos na execução o aumento de 5% dos encargos líquidos com as parcerias público-privadas (PPP).

E se falamos em dívida pública, falamos em banca pública e privada que está novamente a financiar o Moloch estatal - um aumento de 20 mil milhões desde 2014, não por acaso o ano em que a troika foi embora e a saída limpa começar a sujar-se imediatamente. É a mesma combinação explosiva de Sócrates-Teixeira dos Santos que primeiro levou ao resgate e depois ao desmoronar gradual da banca.

Termino, por agora, com a referência a mais um exemplo das manobras de manipulação da opinião público em que a geringonça é de facto notavelmente competente, O pretexto foram «três queixas por alegada fraude na utilização de estágios profissionais» que deram lugar a indignações várias contra o capitalismo em geral e o neoliberalismo do governo anterior em particular e mais uns quantos fantasmas que povoam as meninges esquerdizantes, os quais, todos por junto, não resistem a dois simples factos: primeiro, os 3-casos-3 consistem em tentativas de 3-empresários espertalhões-3 extraírem dos estagiários uma parte das suas bolsas de estágio para compensar o salário que lhes pagaram durante o estágio; segundo, nas dezenas de programas de estágio lançados pelo governo anterior estiveram envolvidas milhares de entidades promotoras e centenas de milhar de estagiários. Por isso, um módico de bom senso levaria a considerar que no país da golpada ter uma proporção evanescente de casos (possivelmente menos de 1 em 100 mil), isso sim é surpreendente.

3 comentários:

Unknown disse...

Um "país" e a sua "independência"...humilhado e ridicularizado - mas (quase) ninguém parece dar por isso, ou, se dá, não se importa.
Sigam os futebóis...

Antonio Cristovao disse...

Ler a Helena Garrido é reconfortante, como o Paulo Ferreira. São jornalistas. Usam a marca que noto no Impertinencias : seriedade.

Jaime Cristovão disse...

O tema Caixa não é demasiado mau até para a geringonça. É a face visível de alguém que chegou ao poder apenas e por causa de um conjunto de negociatas bem sucedidas de contornos duvidosos. O que se está a passar na Caixa é a parte visível de um iceberg que muita gente insiste em ignorar.