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14/06/2013

Mitos (112) – O erro do FMI

Há uma semana, deu-se uma conveniente fuga de informação de partes citadas por vários jornais de um documento do FMI sobre o bailout da Grécia, classificado «estritamente confidencial» e contendo uma espécie de autocrítica. Conclusões mais importantes do documento:
  • Reconhecimento da subestimativa dos efeitos das medidas preconizadas em termos de recessão e desemprego;
  • Admissão de ter sido demasiado optimista quanto à sustentabilidade da dívida e ao regresso da Grécia aos mercados;
  • Constatação que a Grécia não cumpria 3 dos 4 critérios do FMI para um bailout;
  • Reconhecimento que, apesar de tudo, a intervenção fez ganhar algum tempo para minimizar os impactos na Zona Euro e que esta beneficiou mais do que a própria Grécia com a intervenção; a este respeito Poul Thomsen, o negociador principal do FMI, comentou muito filosoficamente «if we were in the same situation… we would have done the same thing again».
Como seria de esperar, a divulgação do documento desencadeou uma guerra de acusações mútuas entre o FMI e a Comissão Europeia cujas vedadeiras razões foram obscurecidas por ninguém querer mostrar o jogo. O relatório do FMI concluía que a intervenção deveria ter começado pelo haircut da dívida devido à sua insustentabilidade, mas não dizia claramente que isso propagaria a quebra de confiança e instabilidade na Zona Euro e, ainda menos claramente, que tal conduziria o sistema financeiro europeu (bancos e seguradoras), encharcados de dívida grega, perto do colapso.

De tudo isto concluir, como muitos fazedores de opinião e quase todos os mídia portugueses concluíram, que os «erros do FMI na Grécia abrem portas à suavização da austeridade» é, como o anúncio antecipado da morte de Mark Twain, manifestamente exagerado. É por isso que concordo com André Azevedo Alves: «desenganem-se os que pensam que o reconhecimento do FMI abre caminho à redução da "austeridade". Pelo contrário, o que dele decorre é que os programas de resgate da "troika" foram concebidos de forma excessivamente (e irrealisticamente) generosa tanto para os Estados beneficiários como para os detentores da respectiva dívida.»

Se a putativa suavização é manifestamente exagerada, querer, como Durão Barroso e Cavaco Silva dizem querer, «o FMI fora da troika "no futuro"» é manifestamente inadequado. Por duas boas razões: o FMI é a única instituição capacitada para lidar com bailouts e a única com a independência e a distância necessárias para o fazer sem se enredar demasiado nos jogos de poder da UE, critérios que quer a Comissão quer o BCE estão longíssimo de cumprir. Contudo, talvez não seja caso para grandes preocupações - desconfio que estas declarações são puramente masturbatórias e para consumo interno.

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