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19/04/2011

Pode o benefício da dúvida evoluir para o prejuízo da certeza? (4)

[Continuação de (1), (2) e (3)]

Como se ficou a saber pelo Expresso o fim-de-semana passado, as águas do caso SLN-BP turvam-se cada vez mais e o papel de Cavaco Silva parece cada dia mais equívoco. Não se trata, pelo menos por agora, de ilegalidades e muito menos de crime. Trata-se de não saber o que pensar de um homem que, sendo o supremo magistrado na nação, como se dizia nos tempos do fascismo, ou o supremo tabelião do regime (*) como foi justamente apelidado um presidente que se encolhe nos momentos mais críticos, se pretende apresentar com uma imagem impoluta. Imagem sem aderência a uma personagem que já se sabia adquiriu acções a 1 euro e as vendeu a 2,4 euros um ano depois a um Oliveira Costa envolvido numa gigantesca fraude, a maior em quase um século. Acções que, sabe-se agora, Oliveira Costa tinha comprado a 2,1 euros e assim suportou (com que propósito?) um prejuízo de 275 mil euros para proporcionar a Cavaco Silva um ganho de 350 mil euros e outro tanto a sua filha?

É claro que podemos fintar a ética e dar explicações do tipo das que Sócrates deu no caso TVI («não tenho conhecimento formal»), mas nesse caso o que separaria Cavaco de Sócrates?

Que país é este com um presidente com a reputação assim manchada e um primeiro-ministro envolvido em mais trapalhadas e mentiras do que a totalidade dos primeiros-ministros, desde pelo menos a queda da 1.ª república? E, já agora, um país que tem um Duarte Lima, antigo presidente do grupo parlamentar de um dos dois partidos do poder, que aparece envolvido em trapalhadas que começam nos seus tempos de parlamentar com dezenas de contas bancárias por onde circularam milagrosamente milhões de contos, e continuam agora com estórias de morte no Brasil e, uma vez mais, sabe-se agora, envolvimentos no caso SLN-BPN - les bons esprits se rencontrent?

(*) Um belo achado que li algures e cujo autor, a quem presto as minhas homenagens, infelizmente não recordo.

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