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25/04/2011

CASE STUDY: Poderá José Sócrates vir a ser a próxima vítima da síndrome da abrilada?

Qualquer cidadão com mais de 55 anos poderá reconhecer o que aqui escrevi há 7 anos:

«O meu 25 de Abril foi o dia em que comecei a descobrir que as coisas não eram o que pareciam ser. Em que comecei a descobrir que o país estava coalhado de democratas, socialistas e comunistas nunca antes vistos, nascidos nos escombros do colapso por vício próprio do edifício decadente do Estado Novo. Pouco a pouco, nos dias e meses seguintes, para minha surpresa, o coalho derramou-se pelo país numa maré do coming out, como lhe chamaríamos hoje. Em cada empregado servil, venerador, de espinha dobrada e mão estendida, havia um heróico sindicalista pronto a lutar pelos direitos dos trabalhadores e pelo «saneamento» do patrão.»

Sete anos depois, chamarei a isto a síndrome da abrilada: uma espécie de epidemia de conversões tardias de criaturas que durante anos, por vezes décadas, conviveram com a «situação» alegremente e sem «sobressaltos cívicos», para usar a expressão que o supremo tabelião do regime usou no seu discurso, depois de 5 anos sem sombra de um sobressalto cívico ou outro.

A manifestação original da síndrome da abrilada fez inúmeras vítimas, a começar por Marcelo Caetano. Sem querer fazer de pitonisa, nem ter competência para isso, admito e anseio, confesso, que a mesmo síndrome atinja desta vez José Sócrates. O meu mais anseio do que prognóstico, baseia-se em inúmeros sinais, mais ou menos discretos, de saída em andamento do comboio deste governo por parte de gente durante 6 anos nele comodamente viajando. O último e mais forte desses sinais vem duma personagem maquiavélica da política portuguesa que recentemente emitiu juízos laudatórios de razoabilidade e sensatez sobre Passos Coelho enquanto com ele se encontrava, a pretexto de lhe apresentar a caldeirada do «Compromisso», ao mesmo tempo que vem rareando cada vez mais os seus cumprimentos cada vez menos convincentes a José Sócrates. Há quem veja nisso uma antecipação por Soares da derrota do PS, uma tentativa de ressuscitar um grande bloco central, mantendo o PS no área do poder e prevenindo uma inevitável guerra interna de consequências trágicas se o PS fosse dele afastado.

Não sei se isso acontecerá, mas de uma coisa estou certo: se acontecer, o país e o PS amanhecerão coalhados de críticos de José Sócrates.

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