Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

21/07/2015

Mitos (208) - O contrário do dogma do aquecimento global (VIII)

Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V), (VI) e (VII).

«2015 pode ser o ano mais quente de sempre»

«Ártico recupera 41% do seu volume de gelo devido a Verão de 2013 menos quente»

Yo no creo en las brujas, pero si las hay, las hay. (Fonte: NOAA)

A climatologia é demasiado importante para ser deixada aos climatologistas com causas.

Bons exemplos (99) – É a nossa costela Oliveira da Figueira

Não é tanto Portugal ser o 22.º de 30 países, é mais porque o nosso soft power (capacidade de persuadir e convencer medida pelo indice compilado pela empresa londrina de relações públicas Portland, em colaboração com o Facebook e a ComRes) foi avaliado como mais poderoso do que o de 8 países, quase todos com muito mais hard power.

Fonte: The Economist

20/07/2015

Pro memoria (248) – Recordando o Artigo 125.º do Tratado de Lisboa

«1. Sem prejuízo das garantias financeiras mútuas para a execução conjunta de projetos específicos, a União não é responsável pelos compromissos dos governos centrais, das autoridades regionais ou locais, ou de outras autoridades públicas, dos outros organismos do setor público ou das empresas públicas de qualquer Estado-Membro, nem assumirá esses compromissos. Sem prejuízo das garantias financeiras mútuas para a execução conjunta de projetos específicos, os Estados-Membros não são responsáveis pelos compromissos dos governos centrais, das autoridades regionais ou locais, ou de outras autoridades públicas, dos outros organismos do setor público ou das empresas públicas de outros Estados-Membros, nem assumirão esses compromissos. 

2. O Conselho, deliberando sob proposta da Comissão e após consulta ao Parlamento Europeu, pode, se necessário, especificar definições para a aplicação das proibições a que se referem os artigos 123.o e 124.o, bem como o presente artigo.»

BELIEVE IT OR NOT: «Nine People Who Saw the Greek Crisis Coming Years Before Everyone Else Did»

«What happens if a whole country—a potential ‘region’ in a fully integrated community—suffers a structural setback? So long as it is a sovereign state, it can devalue its currency. It can then trade successfully at full employment provided its people accept the necessary cut in their real incomes. With an economic and monetary union, this recourse is obviously barred, and its prospect is grave indeed unless federal budgeting arrangements are made which fulfil a redistributive role. ...»
Wynne Godley, British economist, 1992

«They will say that we are subsidizing scroungers, lounging in cafés on the Mediterranean beaches. Monetary union, in the end, will result in a gigantic blackmailing operation. When we Germans demand monetary discipline, other countries will blame their financial woes on that same discipline, and by extension, on us. More, they will perceive us as a kind of economic policeman. We risk once again becoming the most hated in Europe.»
Arnulf Baring, German political scientist, 1997

«In other words, market forces can demand pro-cyclical fiscal policy during a recession, compounding recessionary influences. … Even if there were no imposed limits on countries’ deficits and national debts, the structure of the EMU makes it nearly impossible for a country to enact a counter-cyclical fiscal policy even if there were the political will.»
Mathew Forstater, economist, 1999

«I think the euro is in its honeymoon phase. I hope it succeeds, but I have very low expectations for it. I think that differences are going to accumulate among the various countries and that non-synchronous shocks are going to affect them.»
Milton Friedman, Nobel laureate, 2000

«... Creditors are aware that statistical data presented by the Greek government have nothing to do with reality ...»
Costas Simitis, former Greek Prime Minister, 2008

«Until something is done to enable member states to avert these financial constraints (e.g. political union and the establishment of a federal [EU] budget or the establishment of a new lending institution, designed to aid member states in pursuing a broad set of policy objectives), the prospects for stabilization in the Eurozone appear grim.»
Stephanie Bell Kelton, economist, 2002

«We had arguments which might persuade both the Germans — who would be worried about the weakening of anti-inflation policies — and the poorer countries — who must be told that they would not be bailed out of the consequences of a single currency, which would therefore devastate their inefficient economies.»
Margaret Thatcher, former Prime Minister of the United Kingdom, 1990

«Only the inevitable, currently prohibited, direct intervention of the ECB will be capable of performing the resurrection, and from the ashes of that fallen flaming star an immortal sovereign currency will no doubt emerge.»
Warren Mosler, economist, 2001

«As currently designed, the EMU will have a central bank (the ECB) but it will not have any fiscal branch. This would be much like a US which operated with a Fed, but with only individual state treasuries. It will be as if each EMU member country were to attempt to operate fiscal policy in a foreign currency; deficit spending will require borrowing in that foreign currency according to the dictates of private markets.»
L. Randall Wray, economist 1998

Fonte: BloombergBusiness

19/07/2015

Lost in translation (247) - Agora que chegámos à beira do abismo, daremos um passo em frente

«François Hollande veut un Parlement de la zone euro, un budget propre et surtout un gouvernement.»

Et pourquoi François? «La France, comme Jacques Delors nous l'a montré, se grandit toujours quand elle est à l'initiative de l'Europe.»

Consulta urgente no oftalmologista

«Vejo com bons olhos a fusão entre a ERC e a Anacom», Pedro Lomba, secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional.

Deve ser uma fusão inspirada na palavra «comunicação», possível num PALOP mas mais difícil num país de língua inglesa.

Pedro Lomba é um dos perfeitos exemplos que um aceitável pensador /  artista / intelectual / luminária / blogger (cortar conforme o gosto) tem alta probabilidade de dar um mau governante.

Dúvidas (111) – Quem é realmente Alexis Tsipras?

«Um génio ou um desastrado? Um reformista radical ou um revolucionário dissimulado? Um estadista ou um populista? Alexis Tsipras não é fácil de entender, o que não ajuda a ter confiança na sua palavra.

Quem é realmente Alexis Tsipras? Um populista que soube aproveitar a onda do descontentamento popular? Ou um estadista que teve a frieza de parar à beira do precipício? Um pragmático que foi capaz de compreender os limites do que podia obter dos credores? Ou um aprendiz de feiticeiro que quase incendiou a Europa ao surpreendê-la com um inopinado referendo? Um génio que manobrou e manipulou todos para se tornar o líder incontestado da Grécia? Ou um oportunista que muda de discurso conforme a audiência e em quem ninguém pode realmente confiar? Um esquerdista que nunca se desligou das suas raízes revolucionárias e anti-capitalistas? Ou antes um radical a caminho de se converter num social-democrata?»

José Manuel Fernandes responde às suas próprias interrogações: «o meu instinto inclina-se mais para que é um radical a caminho da social-democracia». Há dias Alexis Papachelas admitia ironicamente no ekathimerini.com que Tsipras parecia um neoliberal ao justificar no parlamento a aprovação das medidas do 3.º resgate.

É possível que seja tudo isso ou nada disso. Já vimos Lenine assinar o tratado de Brest-Litovsk e Estaline e Hitler entenderem-se no pacto Molotov-Ribbentrop para partilhar a Polónia. Pode ser a doutrina Lenine um passo atrás, dois passos à frente, como aliás um qualquer membro do governo disse a respeito da capitulação de Tsipras.

Porém, em política o que não parece dificilmente é. Os próximos meses ajudarão provavelmente a encontrar uma resposta. Até lá acho mais prudente manter a questão em aberto com uma resposta provisória como a de Hugo Dixon no Politico: «Alexis Tsipras is either a liar or a resident of Lalaland», Alexis Tsipras ou é um mentiroso ou um lunático.

Enquanto esperamos, vale a pena ler este inventário feito pelo Insurgente das cambalhotas de Tsipras e do Syriza em vez dos passos atrás e passos à frente.

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Ascensão e queda da Krugmania

Krugman e o seu gato (não é o gato de Cheshire)
Que a produção militante de Paul Krugman (a produção teórica desde há muito se extinguiu) não é particularmente apreciada aqui em casa não é novidade para qualquer leitor regular do (Im)pertinências. Para confirmar basta procurar passar os olhos pelos posts que mencionam a criatura, por exemplo este ou este.

Por isso, quando o meu amigo AB me chamou a atenção para o post «The Rise and Fall of Krugmania in the UK» de Niall Fergunson, publicado no HUFF POST BUSINESS, li-o com curiosidade porque se centra numa questão que nunca focámos por aqui: ao contrário do que levam a crer os tambores keynesianos que rufam entre nós, as medidas de política anticrise recomendadas por Krugman não têm sido adoptadas, com uma única excepção.

Vale a pena ler as 4 páginas do post. Como teaser aqui ficam os últimos parágrafos:

«Happy the economist whose policy prescriptions are so reckless that no one ever puts them to the test.

Except that one country, just lately, has been putting a Krugman recommendation to the test. That country has defied the "austerians." It has thumbed its nose at the fountainheads of economic orthodoxy. It has dared to play chicken with the confidence fairy. It has even told the Germans where to get off. And it has done this on the basis of Paul Krugman's advice, spelt out when he visited the nation's capital, at the government's invitation, in April.

That country is Greece.»

ACTUALIZAÇÃO:
Entretanto, o próprio Krugman renegou os seus alunos de Atenas que baquearam às condições da troika para não ficarem entregues a si próprios. «Talvez tenha sobrestimado a competência do Governo grego», disse.

17/07/2015

Vós, ó esquerdalhada, sede honestos, por uma vez (3)

O que diríeis de um primeiro-ministro que:
  • Escolhesse um ministro das Finanças que insultasse os credores, lhes desse lições de finanças nas reuniões, divulgasse as discussões nas redes sociais, se comportasse como uma vedeta da socialite, anunciasse que se demitiria se um «sim» fosse aprovado num referendo e, por fim, se demitisse com a aprovação do «não» que ele defendeu;
  • Consumisse 5 meses em negociações plenas de manobras evasivas, sem quaisquer progressos, para acabar a rejeitar uma proposta dos credores e submetê-la a um referendo inconstitucional sobre uma matéria fiscal proibida pelo n.º 2 do artigo 44.º da Constituição; 
  • Reiniciasse negociações com os credores apresentando uma proposta com mais 4 mil milhões de medidas de austeridade do que a rejeitada pelo referendo;
  • Submetesse nove jornalistas críticos do governo que defenderam o sim no referendo a uma investigação pelo ministério público e pelo regulador estatal (o sindicato «independente» dos jornalistas também vai fazer uma investigação)?
E além disso
  • Tivesse aceitado um acordo pior do que a sua proposta depois do referendo, que afinal já era pior do que a proposta dos credores antes do referendo, e apresentasse esse acordo como uma vitória do seu governo;
  • Tivesse declarado que não acreditava no acordo que tinha acabado de assinar e o submetesse à votação no parlamento onde acabou por ser aprovado pelos votos da oposição;
  • Justificasse a necessidade de reformas que antes negara, ao ponto de se poder colocar a dúvida se não se teria transformado num perigoso neoliberal.

Mitos (207) - O contrário do dogma do aquecimento global (VII)

Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V) e (VI).

Duas semanas depois do papa Francisco se ter rendido à ciência, escreveu a Visão, querendo dizer que o papa Francisco esperava que a ciência se lhe rendesse, a Royal Astronomical Society publicava a press release «Irregular heartbeat of the Sun driven by double dynamo» dando conta que uma equipa da universidade de Northumbria desenvolveu um novo modelo matemático do ciclo solar que os levou a prever uma redução de até 60% da actividade solar na década de 2030 de onde resultaria uma mini era glaciar.

Assim se põe em risco o dogma do aquecimento global, agora também benzido adoptado pelo Vaticano. O que me fez lembrar o italo-americano Adriano, amigo de José Manuel Moreira, que lhe disse: «o Papa saiu da Argentina, mas ela nunca chegou a sair dele.»

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A produtividade explicada a vítimas de inumeracia

Com algum esforço e sabendo da dificuldade dos tugas em geral, das luminárias em particular e dos jornalistas de causas ainda mais em particular, de lidar com números – consequência da maldição da tabuada (ver a etiqueta a tabuada faz muita falta), consigo entender que essa gente se queixe dos fracos salários e das muitas horas de trabalho em Portugal a pretexto de se mostrar solidária com o povo, e não lhe passe pela cabeça relacionar isso com a nona mais baixa produtividade por hora de trabalho representando pouco mais de metade da produtividade média da UE.

Lembrei-me disto ao ver pela minha janela esta manhã as obras no prédio em frente onde uns quantos representantes da classe operária deste país, em tronco nu e com bonés de pala para trás, se entretinham a ouvir rádio, conversar alegremente, contar anedotas, enquanto displicentemente passeavam pelas paredes o jacto de água sob pressão com a mesma proficiência de garotas de salto alto lavando as suas queridas bagnoles nas estações self-service (pronto, eu sei, sou um porco machista!), ou dividindo as suas atenções e mãos pela brocha ou o rolo e o cigarrito. De onde me ocorreu que se puséssemos as luminárias e os jornalistas de causas a trabalhar no bâtiment talvez eles percebessem.

16/07/2015

Dúvidas (110) - Tsipras virou neoliberal?

«Listening to Prime Minister Alexis Tsipras during his TV interview last night, I could not help but think that some of what he said was the stuff of a Kathimerini editorial. 

Listening to his arguments on early retirement, for example, it felt like Tsipras had suddenly turned into a neo-liberal. Of course he hasn’t. The problem is that some self-evident truths have been systematically abused in Greece by populist pundits and politicians across the political spectrum.

(...)
 
Times are tough. We know what the country needs. We still don’t know whether Tsipras is capable of becoming a Lula – according to the international cliche – considering that he did not turn into a Chavez.

Continue a ler «Can Tsipras pull through?» de ALEXIS PAPACHELAS

Não se preocupe, Tsipras continua o mesmo radical (com muito jogo de cintura). É apenas o insustentável peso da realidade em acção.

ARTIGO DEFUNTO: O Pastorinho da economia dos amanhãs que cantam e a zona monetária óptima

Surpreendentemente, ou talvez não para uma criatura que andou semanas a promover o vigarista Artur Baptista da Silva, um episódio que num país decente acabaria com a credibilidade de um jornalista durante uma década, o pastorinho da economia dos amanhãs que cantam Nicolau Santos (NS) só agora, 54 anos depois, teve oportunidade de estudar «A Theory of Optimum Currency Areas» de Robert Mundell.

Se preferirem e para lhe encurtar a longevidade da ignorância, só agora, 18 anos depois, NS teve a oportunidade de ler o que especificamente Milton Friedman escreveu sobre a União Monetária. Releia-se o último parágrafo de «The Euro: Monetary Unity To Political Disunity?» escrito por Friedman em 1997:
«The drive for the Euro has been motivated by politics not economics. The aim has been to link Germany and France so closely as to make a future European war impossible, and to set the stage for a federal United States of Europe. I believe that adoption of the Euro would have the opposite effect. It would exacerbate political tensions by converting divergent shocks that could have been readily accommodated by exchange rate changes into divisive political issues. Political unity can pave the way for monetary unity. Monetary unity imposed under unfavorable conditions will prove a barrier to the achievement of political unity.» 
Foi assim que no caderno de Economia do Expresso onde nos dá conta dos seus estados de alma, NS concluiu finalmente, com décadas de atraso, que as «condições essenciais para a existência de uma moeda comum implicavam a livre circulação de trabalhadores e capitais, a flexibilidade de preços e salários, a coordenação dos ciclos económicos e um mecanismo federal que compensasse os choques assimétricos».

Concluiu ainda que, portanto, o Euro estava condenado desde o primeiro dia, a menos que existissem «fundos que permitissem compensar os tais choques assimétricos», o que na cabecinha dele significaria que a Alemanha e os países solventes pagariam a conta dos desvarios.

Nem por um momento lhe ocorre que a existência de um «mecanismo federal que compensasse os choques assimétricos» exigiria um Estado único, federado ou não, que prevenisse os desvarios antes de eles ocorrerem, ou seja impondo a cada um dos potenciais desvairados o colete de um orçamento aprovado por um parlamento europeu onde os deputados dos países com juízo seriam a maioria.

Muito menos lhe ocorre que existindo esse Estado único, federado ou não, o seu amigo preso 44 em Évora nunca teria tido a oportunidade de adoptar as políticas que ele, Nicolau, tanto incensou e que tanto anseia por ver de novo adoptadas pelo futuro primeiro-ministro de Portugal. Ou, para dar o exemplo da Grécia, governada pelo Syriza-Anel, por quem tanto NS se comove, o mecanismo federal só não imporia uma receita drástica, como a que agora a Eurozona impõe, porque os gregos nunca teriam tido a oportunidade de a tornar necessária e se arruinar alegremente, a exemplo do Portugal governado pela tralha socrática.

15/07/2015

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: Close-up

Há muitas luas que no (Im)pertinências existe uma secção «Diálogos de Plutão» dedicada a conversas excêntricas, ouvidas ou imaginadas, que talvez até nem sejam conversas.

É justo, por isso, dedicar ao menos um post à chegada do objecto voador identificado como «New Horizons» da NASA, do tamanho de um piano, após uma longa viagem de 3 mil milhões de milhas, com um close-up com umas 250 milhas de largura (cálculo a olho por cento).


«Close-up photographs of Pluto, revealing a young surface dotted with ice mountains» (NYT)

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXXI) – Exortação solidária (2)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.


Apesar dos nossos esforços promocionais do bailout via crowdfunding, os resultados são bastante merdosos. Temos de reconhecer que a única forma de entornar mais dinheiro na Grécia é, em vez de usar o dinheiro da crowd dos 108.654 cromos solidários, usar o dinheiro da crowd do costume - os sujeitos passivos que pagam impostos.

ESTADO DE SÍTIO: Doutrina Somoza, a doutrina dominante neste nosso Portugal dos Pequeninos

Recordo que a doutrina Somoza, segundo o Glossário das Impertinências, foi pela primeira vez formulada pelo presidente Franklin Delano Roosevelt em 1939 ao explicar o apoio americano ao ditador Somoza com palavras que ficaram célebres: «he may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch».

Todos os dias poderia fazer uma lista de exemplos desta doutrina e não faço. Faço hoje com alguns exemplos, todos mais ou menos ligados à magna questão que começou com a grandiosa vitória do Syriza com 2,2 milhões em 6,2 milhões de votos expressos (36,34%) e 9,9 milhões de votos possíveis (22,7%), elegendo 49,7% dos deputados e tendo um bónus de 50 lugares como partido mais votado.

O que é intolerável humilhação?

Dizer aos gregos que se querem mais dinheiro têm de aceitar condições que o seu governo rejeitou; governo que decorridos cinco meses convocou um referendo para rejeitar outras condições piores do que as primeiras, propôs novas condições piores do que as segundas e acabou a aceitar quartas condições piores do que as terceiras. E continua a ser uma humilhação mesmo quando o governo grego apresentou internamente o acordo final como um bom acordo.

O que não é humilhação?

Ministros gregos chamarem aos credores por exemplo «terroristas» (ministro das Finanças) ou «chantagistas brutais e assassinos financeiros» (ministro da Energia).

O que é intolerável interferência na livre escolha dos eleitores?

Uma luminária bruxelense recomendar aos gregos que não escavaquem o país votando «não» num referendo.

O que não é interferência na livre escolha dos eleitores?

Avisar os eleitores que «se votarem em partidos que não respeitam os princípios fundamentais da União Europeia, isso afectará as relações com os outros países», como fez em 2000, António Guterres (ver aqui no Blasfémias).

O que é um político a vangloriar-se ridiculamente?

O primeiro-ministro dizer que deu um contributo para se chegar a acordo durante as discussões em que participou com a Grécia e ser ridicularizado por remas de patetas no hashtag poracasoaideafoiminha (sobre o contributo ver o post anterior e ler este artigo do irmão do futuro primeiro-ministro de Portugal)

O que não é um político a vangloriar-se?

A vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS dizer que o acordo «só foi possível graças ao forte empenho dos socialistas, que uniram esforços, construíram pontes e demonstraram capacidade negocial em todos os momentos», empenho a 2 mil km de distância e 3 horas de voo.

Também falta explicar como pode o PS vangloriar-se de ter ajudado ao acordo se o resultado deste acordo é uma austeridade exacerbada a que sempre se opôs? É mais um ziguezague na deriva oportunista de Costa.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um jornalista bom no género mau pode vir a fazer o upgrade para o género bom (IV)

Secção Res ipsa loquitur

Já algumas vezes [(1), (2) e (3)] fiz apreciações negativas de Ricardo Costa, apesar de o considerar um dos melhores jornalistas no mercado das causas. Também já pelo menos três vezes (aqui, aqui e aqui) fiz apreciações positivas.

Agora é a quarta, a pretexto do seu artigo «Passos, do conto de crianças aos louros da madrugada», onde, contra a corrente inspirada na doutrina Somoza, escreveu «no que diz respeito à madrugada decisiva, o que Passos Coelho disse é correto (...) a proposta final teve, de facto, o contributo da delegação portuguesa. Este facto contradiz uma ideia feita, e bastante errada, que passou por colocar Portugal no pelotão da linha dura do Eurogrupo. Isso não é verdade.» (...) .

E ainda escreveu um outro juízo corajoso que lhe pode trazer a excomunhão nos meios da bem-pensância esquerdizante: O Passos Coelho do “conto de crianças” é o mesmo que “recolhe os louros” da madrugada. Alguém que não mudou de sítio, mas que viu quase tudo mudar à sua volta.»

Leva por isso quatro afonsos para juntar à colecção e, que me lembre, continua a ser o único jornalista premiado com afonsos.

14/07/2015

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Só prometo o que posso cumprir

Enviado por JARF, um ex-admirador desiludido de Costa 

ARTIGO DEFUNTO: Uma reportagem segundo o jornalismo de referência

Daniel Oliveira, um militante político polipartidário (sucessivamente PCP, Plataforma de Esquerda, Política XXI, Bloco de Esquerda, Livre/Tempo de Avançar) que se diz jornalista, vai a Atenas pago pelo Expresso mostrar a sua solidariedade com o partido Syriza que lidera um governo de coligação extrema-esquerda/extrema-direita, escreve um manifesto-panegírico com 4 páginas intitulado «Os indomáveis gregos do ‘oxi’» publicado na Revista E do Expresso como se fosse uma reportagem.

Lost in translation Found in translation – Unbabel, uma start up portuguesa

«Texts by a machine translated, a trifle stilted may seem.

Portuguese tech entrepreneur and language technology expert Vasco Pedro understands that better than most.

“The promise of having machine translation that really works, hasn’t happened,” he explains. “I don’t think this is possible in the next 15 years.”

Spotting a market need among international companies, this 38-year-old with a life-long “passion for language” set about combining the speed of computerized translation and the subtleties of the human touch.

The result is Unbabel. Set up by Pedro and a bunch of PhD-touting surf buddies in 2013, the Lisbon-based company now has an office in San Francisco and runs a network of 30,000 translators working in 23 languages.

Revenue last year reached $150,000, but business this year has been jumping by over 30 percent a month. The goal of “hitting the million run rate by the end of the year” is now very doable, Pedro said.

After securing $1.5 million in funding from the likes of Google Ventures and Matrix Partners last summer, and building a customer base that includes Microsoft, Pinterest Yummly and HotelTonight, Unbabel has emerged as a star performer in Lisbon’s burgeoning startup scene.»

Continue a ler aqui.

Como o jornalismo português não parece ainda muito excitado, esperemos que a Unbabel não venha a ser mais uma vítima da maldição do jornalismo promocional.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A próxima vez que vos vierem com a lengalenga do neoliberalismo…

Expresso
… das agências de rating, dos alemães and all that jazz mostrem-lhes o gráficuzinho à direita e perguntem-lhes se já perceberam que ainda faltam uns 7 por cento para se chegar àquela coisa que no passado se chamava «convergência». E, se não for pedir demasiado, perguntem-lhes também se perceberam que, a médio prazo, as taxinhas do gráfico à esquerda só podem subir. Aproveitem para lembrar que não há crescimento sem investimento e que não há investimento sem poupança ou… sem endividamento e quanto a este os nossos credores já deram para esse peditório o suficiente, portanto…

13/07/2015

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (11) - O paraplégico é mais perigoso do que Putin ou o fundamentalismo islâmico

«A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje não é a de Putin ou do fundamentalismo islâmico, dos EUA ou da China, dos eurocépticos ou dos populistas. A maior ameaça que paira sobre a Europa hoje é a que representa Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha.»

Rui Tavares (aquele rapaz que foi eleito pelo Berloque de Esquerda para o parlamento europeu e a seguir decidiu lutar pela unidade da esquerda dissidindo do BE e criando um novo partido), no Público.

Se o rapaz não sofresse de esquizofrenia terminal talvez lhe adiantasse alguma coisa ler o artigo do Monde «Berlin ne veut pas d'une "Europe allemande"» escrito há 2 anos pelo paraplégico que o rapaz considera «a maior ameaça que paira sobre a Europa».

Mitos (206) – A oposição à «ajuda» da Zona Euro à Grécia vem de Portugal, Irlanda e Espanha (2) (Actualizado)

Já aqui desmistifiquei este mito, o qual, como todas as mentiras, para alcançar profundidade tem de trazer à mistura alguma coisa de verdade, disse e bem o poeta Aleixo. E aqui a mentira com alguma coisa de verdade são as razões de sobra que Portugal, Irlanda e Espanha têm contra a «discriminação positiva» (tive de conter um vómito para escrever esta expressão) de que a Grécia tem beneficiado com um haircut de mais de 100 mil milhões de euros e taxas de juros inferiores às dos outros PIGS.

Razões que, contudo, o trio se tem abstido de vocalizar. Mas não são apenas aqueles três que têm razões contra a «discriminação positiva». Todos os países mais pobres do que a Grécia têm razões para apontar o dedo às chantagens do governo Syriza-Anel, tais como Bulgária, Chipre, Croácia, Eslováquia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa e Roménia.

O governo grego deveria ler o artigo do Politico «Berlin isn’t the only roadblock for Greece»: «The prospect of providing more funding for Greece and deferring to its demand for a reduction of its outstanding debt — a crushing 180 percent of GDP — is an especially sore point in eurozone countries that have gone through deep recessions of their own and struggled back to economic health, often by taking the same austerity medicine so fiercely resisted by the Greeks.»

E, sobretudo, deveria o governo grego adoptar o conselho: «To get a deal, Athens must make its case not to Paris and Berlin, but also to Riga, Tallinn, Dublin and other capitals».

Actualização:

Eslovénia, Estónia, Irlanda e Portugal, «vacilantes» segundo o Guardian (um jornal com inclinação socialista).


As posições dos países da Eurozona segundo o Royal Bank of Scotland (apud Insurgente).


Vós, ó esquerdalhada, sede honestos, por uma vez (2)

O que diríeis de um primeiro-ministro que:
  • Escolhesse um ministro das Finanças que insultasse os credores, lhes desse lições de finanças nas reuniões, divulgasse as discussões nas redes sociais, se comportasse como uma vedeta da socialite, anunciasse que se demitiria se um «sim» fosse aprovado num referendo e, por fim, se demitisse com a aprovação do «não» que ele defendeu ; 
  • Consumisse 5 meses em negociações plenas de manobras evasivas, sem quaisquer progressos, para acabar a rejeitar uma proposta dos credores e submetê-la a um referendo inconstitucional sobre uma matéria fiscal proibida pelo n.º 2 do artigo 44.º da Constituição; 
  • Reiniciasse negociações com os credores apresentando uma proposta com mais 4 mil milhões de medidas de austeridade do que a rejeitada pelo referendo;
  • Submetesse nove jornalistas críticos do governo que defenderam o sim no referendo a uma investigação pelo ministério público e pelo regulador estatal (o sindicato «independente» dos jornalistas também vai fazer uma investigação)?
e além disso
  • Tivesse aceitado um acordo pior do que a sua proposta depois do referendo, que afinal já era pior do que a proposta dos credores antes do referendo, e apresentasse esse acordo como uma vitória do seu governo.

ARTIGO DEFUNTO: Biblicamente estúpido (2)

Biblicamente estúpido diz-se de textos que quem os escreve julga diabolicamente inteligentes mas, em boa verdade, são bisonhamente estúpidos, «envergonham um morto» e mostram «a má-fé e a obnubilação da esquerda», usando as palavras de Vasco Pulido Valente.

Por exemplo o texto “A tabloidização da doença” sobre o aparecimento em público de Laura Ferreira, a mulher de Passos Coelho, sem cabelo devido ao tratamento do cancro, escrito por Estrela Serrano que «foi assessora para a Comunicação Social do Presidente da República, Mário Soares, provedora dos leitores do Diário de Notícias, membro do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, fundadora, directora e professora em vários cursos de jornalismo.»

Sem mais considerações àquele desvario, remeto para os comentários de Helena Matos no Observador,

12/07/2015

Lost in translation (246) – «Passos Coelho deve rezar a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo», disse ele

Escrevi há dias, a propósito do Dr. Domingues de Azevedo, bastonário dos técnicos oficiais de contas, que ele é um tribuno sempre à frente das grandes causas, a apontar novos caminhos e a criticar a governação com uma linguagem colorida, inesperada em quem lida com o deve, o haver e as partidas dobradas. Poderá ter sido um exagero? Parece que não. Ora leia-se mais uma das suas proclamações precisamente na mesma entrevista ao jornal i que foi «desdobrada» como se tratasse de outra:

«Passos Coelho deve rezar a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, se é que ele acredita, se não acredita reze a quem quiser, todos os dias de manhã e à noite para que a Grécia saia da Europa, porque se não sair é evidente que os portugueses vão analisar todos os problemas que enfrentaram e toda a carga fiscal que suportam enquanto os gregos não fizeram nada disso e permanecem na União Europeia. É claro que vão condenar quem tomou estas decisões. A melhor prenda política que Passos Coelho poderá ter é a Grécia não ficar na Europa.»

Com a invocação a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, lembrou-me o papa Francisco que também parece sofrer da mesma síndrome: fazer o lugar do outro. Se isto continua, ficaremos com um insustentável défice de papas e de técnicos oficiais de contas e um superavit cada vez maior de políticos.

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (6) - A maldição do jornalismo promocional – outra vez

A Bial é uma empresa farmacêutica portuguesa com uma excelente imprensa e o seu presidente Luís Portela tem sido levado ao colo pelos mídia ou, como costumo dizer, a empresa e o empresário são favoritos do que costumo chamar o jornalismo promocional. Não questiono a bondade nem o mérito da Bial e da família que a dirige, de quem tenho até impressão positiva, apenas registo o que parece ser mais uma ocorrência da maldição do jornalismo promocional – uma espécie do jornalismo de causas empresariais frequentemente praticado pelos pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam.

Desta vez «estão em causa suspeitas de corrupção ativa e passiva, burla ao SNS e falsificação de documentos que podem envolver altos quadros do grupo presidido por Luís Portela, os quais terão sido denunciados por um ex-diretor da Bial».

Esperemos que não seja nada de cuidado. Em qualquer caso, recomenda-se outra vez aos empresários que no futuro liguem os desconfiómetros aos primeiros sinais de manteiga mediática.

Vós, ó esquerdalhada, sede honestos, por uma vez

O que diríeis de um primeiro-ministro que:
  • Escolhesse um ministro das Finanças que insultasse os credores, lhes desse lições de finanças nas reuniões, divulgasse as discussões nas redes sociais, se comportasse como uma vedeta da socialite, anunciasse que se demitiria se um «sim» fosse aprovado num referendo e, por fim, se demitisse com a aprovação do «não» que ele defendeu ; 
  • Consumisse 5 meses em negociações plenas de manobras evasivas, sem quaisquer progressos, para acabar a rejeitar uma proposta dos credores e submetê-la a um referendo inconstitucional sobre uma matéria fiscal proibida pelo n.º 2 do artigo 44.º da Constituição; 
  • Reiniciasse negociações com os credores apresentando uma proposta com mais 4 mil milhões de medidas de austeridade do que a rejeitada pelo referendo;
  • Submetesse nove jornalistas críticos do governo que defenderam o sim no referendo a uma investigação pelo ministério público e pelo regulador estatal (o sindicato «independente» dos jornalistas também vai fazer uma investigação)?

11/07/2015

Grécia e Venezuela, a mesma luta

A supermarket in Athens is selling out of staple food
 as anxious shoppers stock up on supplies

Empty shelves in a Venezuelan store
A Grécia, uma Venezuela com os cofres, as prateleiras e as prisões (ainda) vazias, tentando substituir o petróleo pela chantagem e o resgate. A Venezuela uma Grécia com petróleo, sem a União Europeia, com os cofres e as prateleiras vazias e as prisões cheias.

Conversa fiada (14) - Mais um Verão de sofrimento e privação para os jovens de um país empobrecido pela austeridade


Pro memoria (247) - Não esquecer na altura de colocar a cruzinha na mãozinha

«Ou seja, e desculpem a insistência, no momento mais marcante da vida do Euro, naqueles momentos da História em que não se pode errar, muitos membros da direção do PS, ilustres dirigentes do partido, com responsabilidades no passado, estão ao lado do governo mais revolucionário que alguma vez existiu na União Europeia. Um governo anti-europeu, anti-mercado, marxista, inspirado no regime chavista da Venezuela e aliado da extrema-direita. E estão do lado da Frente Nacional, do Ukip, da Liga do Norte e das extremas-esquerdas europeias. Contra os seus partidos irmãos europeus, como por exemplo os socialistas franceses e o SPD alemão. Em relação à Grécia, o governo português está mais próximo dos socialistas franceses, alemães e italianos do que o PS. Extraordinário.»

«Os revolucionários na Grécia e o PS», João Marques de Almeida no Observador

10/07/2015

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Quanto à invenção da democracia têm-se dúvidas. Quanto à demagogia está provado


«O conceito da democracia até pode ter sido inventado na Grécia, apesar da sua aplicação em terras helénicas ser discutível, tanto na altura como agora mesmo: vide referendo em que 61% da população afirmou não querer mais austeridade e que faz imediatamente a seguir o Tsipras? Propõe mais austeridade que antes! Agora onde não há dúvidas é que também foi na Grécia que se inventou a demagogia!»

De um email de AB

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Grécia por Porto Rico

Secção Assault of thoughts

Como é sabido, Obama tem pressionado a UE para atirar mais dinheiro para cima da Grécia comprando o governo Syriza-Anel para que não se venda à Rússia, a exemplo do que os EU fazem ao Paquistão com o sucesso conhecido: venda da tecnologia da bomba nuclear à Coreia do Norte, apoio do exército paquistanês aos taliban no Afeganistão e hostilidade contínua ao maior aliado dos EU na região – a Índia, o único país na região que se pode considerar ter um regime democrático.

É neste contexto que tem mais piada a boutade de Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças, na conferência do Bundesbank, em Frankfurt, comparando a dívida de 65 mil milhões de euros de Porto Rico com 313 mil milhões da Grécia:
«Num dia destes fiz uma oferta ao meu amigo Jack Lew [o secretário de Estado do Tesouro do governo Obama], poderíamos ficar com Porto Rico na zona euro se os Estados Unidos estivessem dispostos a ficar com a Grécia na união do dólar.»
Quatro afonsos para o Wolfgang por dizer o que não ousam os songamongas que frequentam aquelas instâncias bruxelenses onde só se dizem eufemismos.

Bons exemplos (98) – A troika não passou As instituições não passaram por lá… (2)

[Uma espécie de confirmação daqui]

Quem disse que não era possível reduzir a despesa pública? Perguntem ao Osborne.


De boas intenções está o inferno cheio (36) – A religião é a política por outros meios? (IX)

Terão sido os efeitos de mastigar folhas de coca que levaram o papa Francisco a aceitar como presente de Evo Morales, o presidente da Bolívia, «uma cruz formada por um martelo e uma foice» e a vituperar a «especulação financeira» e o «consumismo»? Oremos para que a cruz com o martelo e uma foice não inspire ao papa Francisco uma espécie de evangelismo vermelhusco para «garantir um futuro melhor para os nossos irmãos mais frágeis e para as minorias mais vulneráveis». Já se viu esse evangelismo em acção e hoje não há desculpas.
Ocupado com martelos, foices e o aquecimento global, o papa fica sem tempo para limpar as manchas de pedofilia que guarnecem várias igrejas e as manchas de corrupção nas finanças do Vaticano.
Clicar para ver o martelo e a foice em todo o seu esplendor
Repito a minha inquietante dúvida: até mesmo para um papa como Francisco a coisa é um bocadinho esotérica ou sou eu, agnóstico, que estou a ver mal?

Quem também já teve uma epifania e acredita que «Jesus aprovaria o casamento entre pessoas homossexuais» foi o antigo presidente Jimmy Carter.

09/07/2015

Ele queria Heidi no Bundesregierung

Segundo o café expresso do Expresso, um Senhor chamado Fernando Sobral escreveu no Negócios:
«Merkel é como 007: por detrás da sofisticação não há amor, honra, amizade profunda. Só interesses.» 
O que diria o Senhor Sobral se soubesse que Lord Palmerston durante 4 décadas à frente do Foreign Office, defendendo os interesses ingleses contra a Rússia e a França, disse:
«A Inglaterra não tem nem amigos eternos, nem inimigos eternos, mas apenas interesses eternos.»

CASE STUDY: Um imenso Portugal (12)

O cerco da investigação ao ex-presidente Lula aperta-se. Escapou ao Mensalão mas está mais difícil escapar ao Petrolão e é cada vez mais provável vir a ser apanhado. Depois de um ex-primeiro-ministro português na cadeia iremos assistir à prisão do seu amigo ex-presidente brasileiro com quem fez o negócio da Oi? Uma retrospectiva deste negócio pode ser vista na etiqueta Vivo por Oi.

«O documento abaixo reproduz a movimentação de uma conta secreta na Suíça aberta pelos empreiteiros para pagar propina. Segundo Ricardo Pessoa, foi dela que saíram 2,4 milhões de reais que reforçaram o caixa da campanha do ex-presidente Lula em 2006 - dinheiro desviado dos cofres da Petrobras que chegou ao Brasil em uma operação financeira totalmente clandestina e ilegal. O delator contou que a UTC, a lesa, a Queiroz Galvão e a Camargo Corrêa formavam o consórcio que venceu a licitação para construir três plataformas de petróleo. Como era regra na estatal, um porcentual do contrato era obrigatoriamente reservado para subornos. A conta foi criada para o "pagamento de comissionamentos devidos a agentes públicos em razão das obras da Petrobras, ou seja, o pagamento de propinas", disse Pessoa. Ela também ajuda a dificultar o rastreamento de corruptos e corruptores. Foi dessa fonte clandestina que saiu o dinheiro que ajudou Lula a se reeleger.

Revista Veja de 8 de Julho
Para comprovar a existência da conta secreta, o empreiteiro apresentou ao Ministério Público extratos com as movimentações. Batizada de "Controle RJ 53 - US$", a planilha registra operações envolvendo 5 milhões de dólares em pagamentos de propina. Além de financiar o caixa dois de Lula, a conta suíça foi utilizada para pagar os operadores do PT na Petrobras. Entre as movimentações listadas pelo empreiteiro estão pagamentos ao ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco, um dos responsáveis pela coleta das propinas destinadas ao PT. Os repasses à campanha de Lula foram acertados entre Ricardo Pessoa e o então tesoureiro petista, José de Filippi. Era o próprio empreiteiro que levava os pacotes de dinheiro ao comitê da campanha em São Paulo. A entrega, como VEJA revelou em sua edição passada, era cercada de medidas de segurança típicas de organizações criminosas. Ao chegar à porta do comitê, o empreiteiro dizia a senha "tulipa". Se ele ouvia como resposta a palavra "caneco", seguia direto para a tesouraria. Se confirmados pela Justiça, os pagamentos via caixa dois são a primeira prova de que o ex-presidente Lula também foi beneficiado diretamente pelo petrolão.»


Note-se que no caso de Lula os montantes depositados são um quarto dos 20 milhões de que alegadamente beneficiou o preso 44. Registe-se também este desvelo pela Suíça dos socialismos temperados e tropicais.

08/07/2015

Curtas e grossas (20) - Por fim, algo em que há que dar razão a um deputado do Syriza

«Europe has not show much wisdom over the last century. It launched two world wars and had to be saved by the Americans. (…) Now with the creation of monetary union it has acted with such foolishness, and created such a disaster, that it is putting the very union in doubt, and this time there will be no saviour. It is the last throw of the dice for Europe.»

Costas Lapavitsas, professor de economia na Universidade de Londres (mais um) e deputado pelo Syriza ao parlamento grego, citado pelo Telegraph. Lamentavelmente as propostas políticas do professor Lapavitsas são ainda mais foolish e criariam um disaster de ainda maiores proporções.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (31) – O mito da deflação (VI)

Outras marteladas.

Um dos incréus sobre as virtudes do alívio quantitativo adoptado pelo BCE tem sido Daniel Gros do Centre for European Policy Studies (CEPS). Num artigo publicado no Negócios, com o sugestivo título «Um placebo chamado QE», Daniel Gros põe o foco num aspecto raramente tratado: a avaliação do impacto do alívio quantitativo e da sua eficácia para obter os efeitos que o BCE diz pretender com a sua adopção, isto é o combate à deflação – uma espécie de inimigo imaginário muito conveniente para escamotear os reais problemas. Aqui vai um excerto com a sugestão de leitura completa.

«Em termos concretos, o BCE está a medir o sucesso da sua política actual de acordo com a taxa de inflação esperada em 2020-2025. Este valor, calculado a partir dos preços dos diferentes tipos de títulos, indexados e não indexados, a cinco e dez anos, baseia-se no pressuposto um tanto heróico de que todos os mercados para esses títulos funcionam de forma eficiente.

Isto representa uma contradição fundamental. É suposto que o QE funcione através de "efeitos de equilíbrio de portefólio", o que implica que os mercados não são totalmente eficientes: as compras de títulos de longo prazo afectam as condições financeiras, alterando os tipos e a quantidade de activos financeiros que o público detém. Como é que se pode usar os preços de mercado como um indicador de inflação num futuro distante e, simultaneamente, justificar o QE, alegando que a maioria dos investidores se limita a certas classes de cativos e, portanto, não segue os sinais de mercado de forma eficiente?

Outro problema com o uso da taxa de inflação esperada a cinco anos, dentro de cinco anos, para avaliar a eficácia do QE é que a taxa está correlacionada com os preços do petróleo. Na verdade, quando os preços do petróleo diminuíram no ano passado, as expectativas de inflação também caíram (medidas, contudo, de forma imperfeita). E o anúncio do QE por parte do BCE coincidiu com o início da recuperação dos preços do petróleo, pelo que se poderia esperar um aumento das expectativas de inflação.

Com tais coincidências e contradições provenientes de quase todos os aspectos do debate em torno do QE, parece que avaliar a eficácia da política é mais uma arte do que uma ciência. Infelizmente, isso deixa muito espaço para distorções e preconceitos.
»

07/07/2015

ACREDITE SE QUISER: O teorema de Euclides

«O novo ministro das Finanças da Grécia, Euclid Tsakalotos, teve hoje a sua primeira prova de fogo, com a reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro. Como tantas vezes nos últimos meses, este foi mais um encontro em que sobraram as dúvidas e escassearam as respostas. De acordo com os relatos da reunião, os ministros ficaram surpresos pelo facto de o governo grego não ter apresentado qualquer nova proposta. E por ter levado em vez disso notas escritas à mão.»

 Do email Expresso Diário

Já não há pachorra. Além das más políticas, amadorismo e incompetência confrangedores.

Pelo teorema de Euclides (de Alexandria, que talvez não fosse grego) foi demonstrado que o conjunto dos números primos é infinito. O teorema de Euclid Tsakalotos, em fase de demonstração, postula que é infinito o número de reuniões para chegar a um acordo com a troika as instituições.

Lost in translation (245) – Reconhecimento da independência de Angola, disse ele

«Não há dúvidas de que o reconhecimento tardio da independência de Angola levou a que nem sempre as relações com Portugal sejam boas. Há coisas que deixam marcas para sempre», disse Otelo Saraiva Carvalho comandante operacional da revolta militar de 25 de Abril e cúmplice dos atentados bombistas das FP25.

Não vou discutir as ideias da criatura, vou apenas contrariar a semântica lembrando que em 1975 a potência colonial se demitiu das suas responsabilidade de organizar um processo eleitoral minimamente decente, que a tropa de que ele foi um dos chefes fugiu como ratos das colónias, deixando-as à mercê de bandos armados e assim o poder foi entregue a um desses bandos, precisamente o promovido pelas correntes políticas e ideológicas que suportaram e usaram a criatura. Um bando que se foi convertendo durante 40 anos no suporte de uma cleptocracia extractiva.

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.


Maria Barroso, actriz, diseuse, activista política, a quem só encontro talento e qualidades e uma fraqueza - mas não dizem que o amor é cego?

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (30) - One size doesn’t fit all

Outras marteladas.

Uma das razões porque o alívio quantitativo, por muito que possa ser (e não o é em todas as circunstâncias) uma medicina adequada aos Estados Unidos, não é provavelmente uma medicina adequada para tratar das doenças da Europa. E escrevo doenças no plural porque se todos os países da UE, com excepção do Reino Unido (guess why), partilham o sintoma crescimento anémico, as doenças portuguesas não têm nada a ver com as doenças alemãs, para citar apenas o óbvio ululante.

Fonte: Economist
E uma das razões porque o alívio quantitativo não pode ter os mesmos efeitos resulta de nos EU e na UE as fontes de financiamento das empresas serem completamente distintas (veja-se o diagrama). O funding por obrigações tem nos EU um peso quase 4 vezes superior ao que tem na UE. Com o crédito bancário a situação é inversa: o seu peso na UE é 4 vezes superior ao dos EU. De onde resulta que a banca tem um papel muito mais importante no financiamento das empresas do que o banco central a entornar triliões de dólares ou de euros, ainda que isso belisque o ego do Super Mario e a fé dos crentes das poções mágicas da impressora de euros.

06/07/2015

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (10) - Sumário executivo das conclusões da reunião dos amigos de Alexis

«O lirismo dominou o encontro "A crise europeia à luz da Grécia", debate também realizado na sexta-feira e abrilhantado pela ausência de divergências. O calibre dos nomes envolvidos explica o estilo e o consenso: Louçã, Pacheco Pereira, Manuel Alegre, o Prof. Freitas, um economista da CGTP e, claro, os imparáveis deputados do BE. A bem da síntese, eis o tom geral: a Europa é uma ditadura (valha-nos Deus); a Grécia simboliza a democracia (desde tempos imemoriais, para não falar do velho esclavagismo e da pedofilia clássica); os gregos resistem ao poder do dinheiro (excepto quando é dado); os gregos, à imagem dos jogadores da bola, levantam a cabeça (excepto para pedir); os gregos são dignos (na medida em que o parasitismo é um critério de dignidade); os gregos, em suma, são patriotas - já os alemães que preferem a Alemanha ou os portugueses que preferem Portugal são traidores. Seja em que país for, patriota é o sujeito que dá a vida ou, vá lá, levanta um cartaz pela Grécia.»

Patriotas e parasitas, por ALBERTO GONÇALVES no DN

ESTADO DE SÍTIO: Próximo passo - respeitemos a democracia.


Referendo nos 19-1 sobre o 3.º resgate e o 2.º perdão ao um. Espera-se uma vitória da democracia.

Curtas e grossas (19) – São ambos marxistas

Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis são ambos confessadamente marxistas. O primeiro no género Lenine e o segundo no género Groucho. E por falar em Groucho, uma citação,
«A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorrectamente e aplicar as piores soluções.»
Actualização:
Em substituição do marxista género Groucho, que hoje se demitiu via Twitter com o estrondo habitual próprio do seu ego super-expandido, surge Euclid Tsakalotos, um outro marxista talvez do género Trotsky. É a troca da palhaçada pelo maquiavelismo. A vida não ficará mais fácil para as múmias paralíticas bruxelenses.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A via rápida grega

Três posts de O Insurgente muito úteis para se perceber como os gregos chegaram onde se encontram:

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (42) – Hoje como há 600 anos

«History seems to repeat itself these days. The heated debate about Grexit from Europe may have deeper roots than one realizes. Here is what Aeneas Sylvius Piccolomini, humanist and future pope (1405-1464), wrote about the Council of Basel (c.1435) in his Commentaries: 
 “At that time the Greeks had promised the Council that they would come to Latin territory to discuss the question of union. Being a poor nation, with a talent for begging, they asked to be reimbursed for their expenses. To that end they demanded some 70,000 gold florins. In order to scrape together such a sum the Council promised plenary indulgences and remission of all their sins to those who would contribute money to the cause.”»
«A poor nation, with a talent for begging - Fifteenth-century echoes in a 21st-century Grexit», Marcello Simonetta no Politico

05/07/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Se a Grécia sair da Eurozona, como ficam os 19-1?

Abreviadamente: muito melhor. As únicas consequências negativas são: ficamos com menos azeite e menos praias. A seguir os detalhes calculados pelo WSJ:
  • A população diminui 3,2% e a idade média também diminui 
  • O PIB diminui 1,8% para o PIB per capital aumenta 1,5% 
  • A dívida total diminui 3,4% e a dívida privada diminui 0,9% 
  • A produção de azeite diminui 24,5% 
  • Os cristãos ortodoxos diminuem 84% 
  • Os casamentos diminuem 4,1% e os divórcios 2% 
  • A área diminui 4,6% e a linha da costa 31,3% 
  • A altitude média diminui 157 metros 
  • O número de fumadores diminui 4,8%

ARTIGO DEFUNTO: A arte do cartoon segundo o jornalismo de referência


Este cartoon do Expresso é um vómito sectário e discriminatório. Não por acaso, António coloca na locomotiva duas carruagens do comboio recoveiro, a pretexto de as humilhar, e deixa de fora a França (et pour cause) - o maior responsável pela «construção europeia» - e uma dezena de países da Europa do Leste que sobreviveram ao colapso do seu saudoso império soviético.

Citando o Malomil, para dizer as coisas de uma forma educada, «é o mesmo que fazer um cartoon racista sobre Obama ou um cartoon sexista sobre Hilary Clinton. Aqui utiliza-se um handicap físico de uma pessoa como motivo de gozo ou pretexto para ironia fácil.»


ACREDITE SE QUISER: A nódoa cai em qualquer pano

«Afinal, o cabeça-de-lista do Livre/Tempo de Avançar no Porto é Ricardo Sá Fernandes. O advogado ficou em terceiro lugar nas eleições primárias da candidatura cidadã mas as suspeitas de irregularidades nos votos atribuídos a Daniel Mota, até agora o candidato a deputado mais votado, levaram à recontagem dos votos e à reorganização da lista. 

A decisão foi tomada na Comissão de Ética e Arbitragem do Livre/Tempo de Avançar após a entrada de várias queixas dando conta das suspeitas que recaiam sobre a votação em Daniel Mota. A Comissão Eleitoral, presidida por Luís Moita, procedeu então à recontagem dos votos, considerando inválidos os votos por correspondência que tinham como primeira opção o candidato Daniel Mota.» (Jornal SOL)

Não é surpreendente que tenham ocorrido fraudes nas primeiras eleições de uma organização de dissidentes da esquerdalhada que quer promover a unidade de todos os dissidentes actuais e potenciais e purificar as práticas políticas? Não.

Dúvidas (109) - O referendo grego é um plebiscito ilegal?

Diz o El País que a Grécia converteu o referendo num plebiscito ilegal. De facto, o que dizer de um «referendo» em que o governo faz campanha para o eleitorado responder negativamente à seguinte pergunta hermética até para os deputados:
«Deve aceitar-se a proposta de acordo apresentada pelas instituições no Eurogrupo de 25 de Junho, que consta de duas partes e que formam uma só proposta?»
E a seguir informa quais as «partes»:
«Reformas para a finalização do programa em vigor» e «Análise preliminar da sustentabilidade da dívida» 
E o que dizer de um «referendo» que incide sobre matéria fiscal e é anunciado com uma semana de antecedência quando a Constituição grega (tal como a portuguesa) proíbe referendos sobre essa matéria (por razões facilmente compreensíveis – imagine-se um referendo a perguntar se os impostos não deveria ser abolidos…) e fixa um prazo de um mês para a convocação?

Talvez devêssemos perguntar àquela praga de constitucionalistas de ocasião que justificou os acórdãos de inconstitucionalidade do TC sobre as medidas de cortes orçamentais baseados em etéreos princípios dos quais se poderia inferir quase tudo.

@RTISTAS CONVIDADOS: Eric Ravilous (5)

The Lifeboat

04/07/2015

Dúvidas (108) – E se, de repente, um cliente da Uber fosse assaltado…

(Uma espécie de continuação daqui)

… «e sequestrado … vítima de uma golpada, seduzido por uma desconhecida no Cais do Sodré, … depois, uma terceira pessoa entrou no veículo, e obrigou-o ir a uma caixa multibanco. Aí foi forçado a levantar 200 euros. ... depois de tudo, ainda foi levado para outro local e fechado na bagageira … , enquanto os assaltantes levantavam mais dinheiro. Ao todo, foi roubado em 600 euros. A noite terminou com a vítima abandonada na via rápida.»

Seria certamente um levantamento nacional, com o futuro presidente da Nóvoa e o futuro primeiro-ministro de Portugal a juntarem as suas vozes ao coro dos indignados, os tambores do jornalismo de causas a rufarem, todos exigindo a prisão do motorista, a expulsão da Uber e o mais que lhes aprouvesse.

Como tudo aconteceu num táxi devidamente licenciado, conduzido por um motorista devidamente dotado dos conhecimentos técnicos e devidamente dotado dos requisitos de urbanidade indispensáveis para lidar com o público, a coisa é normal.

Lost in translation (244) – Guerra civil, disse ele

O Dr. Domingues de Azevedo é o bastonário dos técnicos oficiais de contas ou TOC para os iniciados. Não se pense por isso que é uma pessoa cinzenta possuída pelo que os socialistas costumam apelidar depreciativamente uma «mentalidade de contabilista». De modo algum, ele é um tribuno sempre à frente das grandes causas, a apontar novos caminhos e a criticar a governação com uma linguagem colorida (veja esta entrevista do jornal i), inesperada em quem lida com o deve, o haver e as partidas dobradas.

«Vamos assistir a uma guerra civil» (a propósito das declaração de IRS em 2016) ou «É uma vergonha o que se passou e o que se continua a passar. É a conceptualização de uma política espectáculo, sem dignidade. É um abandalhar.» (a propósito do sorteio das facturas) são exemplos da sua visão de militante de causas.

Se já tínhamos o jornalismo de causas, fazia-nos falta a contabilidade de causas.

03/07/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXX) – Uma tragédia, por agora uma comédia antes de ser de novo uma tragédia

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

O diagrama que reproduzo foi extraído do research «Greece and the Euro - Moving Towards Capital Controls» da Morgan Stanley. Mostra opções geralmente conhecidas, pelo menos de quem ainda retém um módico de racionalidade e não se deixou possuir pelos delírios do syrizismo ou pelas alergias ao syrizismo.


Do diagrama ressalta o trilema que o governo Syriza-Anel grego tem pela frente e recorda-me um outro trilema formulado por Slavoj Žižek: sob um regime de constrangimento ideológico como o comunismo, são incompatíveis as virtudes de honestidade, inteligência e adesão sincera a esse regime.

É uma muleta mental a que recorro, uma vez mais, com o alibi de ser inteiramente aplicável a um regime em que governa uma coligação comunista-chauvinista, quando as meninges já estão a ver-se gregas para acompanhar esta comédia que talvez tenha sido uma tragédia em tempos e que voltará a sê-lo num futuro próximo.

SERVIÇO PÚBLICO: O que é afinal a Grécia?

«Grécia: não é esquerda ou direita, é máfia»


Henrique Raposo no Expresso

«Grécia tem sido pintada pela esquerda como uma espécie de Palestina a sofrer invasões diárias dos exércitos sionistas que, neste caso, têm a forma de cifrões capitalistas criados pelos sábios de Sião. O espetáculo é confrangedor porque a Grécia não é de esquerda ou de direita. Aquilo que existe na Grécia não é um estado social, mas sim um estado mafioso. Os gregos não são preguiçosos como tantas vezes se diz, mas vivem dentro de um estado corrupto que transformou o clientelismo mafioso numa ferramenta legítima. Nem por acaso, tudo gira em torno de duas famílias, os Papandreou e os Karamanlis, os padrinhos desta história. As lealdades na Grécia nada têm que ver com diferenças ideológicas entre Pasok e Nova Democracia, mas com meras dependências pessoais em relação aos Papandreou e Karamanlis. É feudalismo, e não liberalismo versus socialismo. Alguns historiadores, como Nicolas Bloudanis, garantem que esta realidade ainda é uma herança do Império Otomano, que dominou a Grécia entre o século XV e o século XIX. A Grécia não é a patriarca da democracia ocidental, é apenas um produto tardio de um império oriental caído há cem anos.

Mas como é que esta oligarquia mafiosa funcionava? Num texto publicado na "Open Democracy", Manos Matsaganis recorda que autorizou a criação de 865 mil novos empregos no funcionalismo público em apenas cinco anos (2004-2009); em cima do Estado gigantesco que já existia, Karamanlis edificou outro Estado. É por isso que os dois défices da Grécia aumentaram para mais do dobro (o externo: 14,9%; o estatal: 15,4%). É por isso que o Estado empregava cerca de 45% da população ativa. Lamento, mas isto nada tem que ver com política no sentido a que estamos habituados. Isto não é política democrática, isto são famílias políticas a criar laços mafiosos com clientelas através do dinheiro do estado que -atenção -passou a set financiado pelos contribuintes europeus. Eu também estou a pagar esta farsa. E, seja qual for a alegada importância geopolítica da Grécia, não estou disponível para continuar a financiar a máfia política grega. O empréstimo de dinheiro tem de servir para uma reforma profunda desta forma de fazer política.

Caso contrário, não vale a pena. Há que olhar para Costas Simiris, o socialista que em 2001 tentou reformar o estado e o insolúvel sistema de pensões que já valia 17% do PIB. Claro que as clientelas vieram para a rua em nome do "estado social" e Simitis perdeu as eleições em 2004 para os homens que autorizaram 865 mil novos empregos no funcionalismo público. A Grécia precisa de um novo Simicis, caso contrário não vale a pena continuar com esta "never ending story" para adultos.

Em termos históricos, o Syriza não tem culpas neste cartório, mas agora parece capturado pelo mesmo clientelismo. Nem por acaso, Tsipras entrou em choque com o FMI pelo seguinte: o fundo não quer aumento de impostos, mas sim reformas neste estado corrupto; ao invés, o Syriza está disponível para aumentar impostos, mas recusa fazer as cais reformas, porque a velha clientela cominua a exigir as velhas regalias. É por isso que grande parte dos gregos querem uma coisa e o seu contrário, querem continuar no Euro mas não querem cumprir as exigências do Euro. Mas, verdade seja dita, se eu fosse grego também estaria a dar este espetáculo de incoerência. Porquê? Reparem na relação que os governos gregos têm mantido com o cidadão normal: para começar, o governo dá emprego à pessoa x em croca de um voto, transformando assim o estado num mecanismo mafioso de compra de lealdades; como se isto não fosse suficiente, o governo depois garante que o estado não vai importunar a pessoa x através do sistema fiscal. Ou seja, os governos estão há décadas a dizer o seguinte ao eleitor grego: "olha, tu e a tua família votam em mim e, em troca, dou-te emprego e, ora essa, também não pagas impostos!". Se eu fosse grego, também estava nas ruas a dizer que não queria mudanças. É que isto é a perfeita quadratura do círculo alimentada pelo dinheiro dos outros.
»

02/07/2015

Títulos inspirados (44) – Os amanhãs que cantam dos ratos

«Enquanto dormem, os ratos “sonham” com um amanhã mais radioso» titulou o Público, insuspeito a respeito de piadas de mau gosto sobre os amanhãs radiosos e o Largo do Rato. Ou será o Público suspeito?

ACREDITE SE QUISER: Com uns copos vêem-se melhor

Há dias para tudo. Até para os OVNI. É hoje comemorado o aniversário da queda em Roswell do imaginado disco voador. Pelos vistos são vistos cada vez mais, sobretudo no Verão, à noite e às sextas-feiras, segundo o National UFO Reporting Centre citado pelo Economist Espresso.

Dúvidas (107) - Você quereria este homem como primeiro-ministro?


«Would you buy a used car from this man?» perguntou JFK no célebre debate na televisão em 26 de Setembro de 1960 usando sem escrúpulos o body language desajeitado de Richard Nixon (em contraste com o seu discurso muito mais consistente do que os lugares comuns de JFK). No caso de Costa não se trata de body language desajeitado (matéria em que Costa é aliás bastante ajeitado), trata-se de piruetas que indiciam o pior sobre a sua confiabilidade, pelo que a pergunta adequada seria: você quereria este homem como primeiro-ministro?

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXIX) – Exortação solidária

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Exortação aos adeptos da sucumbência à chantagem da coligação Syriza-Anel 


Clique aqui para provar a sua solidariedade
Abri os cordões às vossas bolsas e mostrai a vossa «solidariedade» enviando o vosso dinheiro para a coligação comunista-chauvinista comprar os apoios para continuar a levar povo grego para a baderna e a miséria.

01/07/2015

Pro memoria (246) - Se o FMI tivesse uma armada…

HMS Duke of Wellington circa 1850
Hoje o governo grego entrou em default no empréstimo de 1,5 mil mihões de euros do FMI, tornando-se a Grécia o primeiro «país desenvolvido» (no caso da Grécia eu diria «país em vias de subdesenvolvimento») a incumprir com o FMI,  juntando-se a um clube de que são sócios honorários o Zimbabué e o Sudão. Fica agora demonstrada a justeza da comparação que fiz anteontem da Grécia com a República Centro-Africana e o Zimbabué.

Felizmente para a Grécia (ou talvez não, se nos lembrarmos do que é a aliança Syriza-Anel), o FMI não dispõe de uma armada e, ainda que quisesse, não poderia mandar garantir a dívida arrestando navios gregos e outros activos, como fez a Royal Navy a mando de Her Majesty Queen Victoria em 1850.

ACREDITE SE QUISER: Uma reforma municipal segundo Relvas

Se Miguel Relvas for um paradigma do escol dos nossos políticos Portugal não terá redenção. E não é por causa da licenciatura a martelo. Dessa miudeza já se encarregou o jornalismo de causas que escarafunchou o que havia para escarafunchar.

É por causa do seu livro «O Outro Lado da Governação» que já não tinha intenção de ler e depois de ler as referências publicadas nos jornais transformei a não intenção em decisão de não ler.

Respigo duas passagens dessas referências. A queixa das pressões da troika «para deixar os municípios portugueses falirem à boa maneira de Detroit … que teve alguns adeptos dentro do próprio Governo» é um bom exemplo do pensamento «reformista» de Relvas (e de muitos outros).

Sendo certo que a visão dominante na sociedade portuguesa não é compatível com deixar falir um município sem rupturas dolorosas e talvez socialmente insustentáveis, não é menos certo que um político que se cola ao atavismo colectivista dessa sociedade não lhe passa pela cabeça fazer qualquer reforma digna desse nome.

A segunda referência confirma isso mesmo quando Relvas critica a «visão de contabilista liberal» da troika  - uma crítica com formulação tipicamente socialista - e imagina ter feito uma reforma municipal fundindo um quarto das mais de 4 mil freguesias e deixando intactas as mais de 300 câmaras, algumas delas com menos de 10 mil munícipes, num país que tem uma população da ordem de grandeza de qualquer grande cidade mundial. Estamos conversados.

@RTISTAS CONVIDADOS: Eric Ravilous (4)

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