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30/10/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (107)

Outras avarias da geringonça.

Já me têm perguntado se não seria preferível mudar o título desta crónica, já no seu 107.º episódio, dada a longevidade alcançada pela geringonça. Que não, tenho dito, e trago hoje em meu socorro Gonçalo Pistacchini Moita da UCP que num artigo de opinião muito a propósito intitulado «Ensaio de palestra popular sobre a estratégia e a tática marxistas» (o subtítulo que originalmente tinha o conhecido panfleto de Lenine «A doença infantil do “esquerdismo” no comunismo») escreveu:

«Socialistas, comunistas e esquerdistas, com efeito, têm como único programa (como agora voltará a ver-se no orçamento do Estado para 2018) a reversão daquilo que, enquanto primeiro-ministro, Passos Coelho fez ou terá feito. Em nada mais conseguirão pôr-se de acordo, pelo que a possibilidade da sua ação tem a duração limitada pela memória que os portugueses tenham das maldades que, segundo eles, Passos Coelho lhes fez.»

Afastado o autor das maldades, desaparecidas e reaparecidas armas e munições e 5 toneladas de peças de um tanque, ardidos centenas de milhar de hectares de floresta e mortas pelos incêndios mais de 110 pessoas e, sobretudo, humilhado o governo pelas vilezas do presidente dos Afectos e remoída a afronta pelo aparelho socialista, torna-se patente que o funcionamento até agora sem falhas da geringonça, graças ao talentoso Dr. Costa, pode ter uma garantia com a duração de qualquer outro zingarelho de pechisbeque vendido no mercado.

Alguns pequenos pormenores mostram aliás que a geringonça começa a sofrer os efeitos perversos do seu próprio sucesso, ou melhor do relativo sucesso do PS nas eleições legislativas que deixou os comunistas mal dispostos com a perda de um terço das suas câmaras. O resultado está a ser o fim ou pelo menos uma trégua na tão celebrada «paz social» com o recrudescimento das greves que culminou com o «grande sucesso» da greve da função pública que, segundo os organizadores, teve uma adesão de 80% que atingiu 90% na Saúde e Educação. Saude-se Ana Avoila que em nome da Frente Comum reconheceu «o desastre em que se encontram os serviços públicos. Na saúde, nos transportes, nas escolas, na segurança social». Só faltou explicar que esse desastre é consequência da prioridade dada à compra da clientela à custa do funcionamento dos serviços sufocados pelas cativações.

Entre as várias humilhações impostas pelo PR, o governo teve de aprovar à pressa, num sábado, mais uma reforma da floresta, escassos dois meses depois de o ministro da Agricultura ter anunciado «a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis», revolução publicada, nem de propósito, num Diário da República verde.

A maior revolução desde D. Dinis
E sendo D. Dinis, nem de propósito, o promotor de uma das maiores florestas agora devorada pelos incêndios e sendo esta floresta, nem de propósito, de pinheiros e não de eucaliptos, como o cânone geringôncico faria esperar, e sendo uma das medidas da nova revolução a criação de uma Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais presidida por uma criatura que trabalha para a indústria de celulose responsável, nem de propósito, por vastas áreas de eucaliptos, nomeação que já concitou os justos e oportunos protestos dos indignados berloquistas. Sem esquecer que esse mesmo responsável Tiago Oliveira foi um dos responsáveis do relatório encomendado pelo governo de Santana Lopes que há 12 anos, Costa, o MAI da época, nem de propósito, mandou para o lixo.

Acresce que há especialistas que colocam as maiores dúvidas à bondade das medidas agora aprovada, como Henrique Pereira dos Santos que admite «nem sequer conseguiu entender o que foi proposto por António Costa no final do Conselho de Ministros». Talvez nem o próprio Costa entenda, com a sua vasta experiência no sector. Só se pode ter certeza que o governo irá atirar dinheiro para cima dos incêndios e que esse dinheiro não sairá dos bolsos da clientela eleitoral da geringonça.

Voltando à vaca fria do OE 2018, e sem entrar por agora pormenores que a coisa ainda vai ser muito cozinhada no forno da geringonça, permito-me citar as conclusões de alguns comentadores geralmente bem informados e esclarecidos: «este OE aumenta o peso do Estado na economia» (nada que surpreenda vindo de um governo cuja clientela eleitoral é o partido do Estado, como dizia o saudoso Medina Carreira); «o mais ideológico dos orçamentos cumpre os mínimos obrigatórios à luz de Bruxelas e das agências de rating»; «um orçamento à PS com cedências à esquerda»; «em síntese, uma “bonança” económica e fatores “extraordinários” como menos juros e mais dividendos do banco central estão a ser desperdiçados. Não servem para melhorar a posição das contas públicas, mas somente para “maquilhar” os resultados. Isto porque a manutenção do poder é mais importante que o futuro do país

Entre os vários truques que este orçamento usa, mantêm-se as cativações que como se pode ver no quadro abaixo são uma especialidade socialista.

Fonte: Análise à proposta de OE 2018 (UTAO)
Quanto à dívida pública continua bem, obrigado. Segundo dados da CE, não considerando a Grécia, o rácio da dívida portuguesa previsto para 2018 é a segundo mais alto depois da Itália e a sétimo que menos desce. Já agora, tome-se nota que os cinco países saídos das ruínas do império soviético são dos que têm menores dívidas e, apesar, disso, mais as reduzem (ver o diagrama aqui). É claro que o governo continua a anunciar a redução da dívida no futuro, dívida que indiferente aos amanhãs que cantam continua a subir. Não obstante, até é possível que com mais um truque a dívida bruta se reduza à custa da redução dos depósitos que tendo atingido 20 mil milhões nos tempos do governo PSD-CDS caíram agora para 8 mM e cairão para 6,5 mM em 2018. Ainda estamos longe dos tempos da dupla Sócrates-Teixeira dos Santos ao pedirem o resgate porque o dinheiro em caixa não dava para pagar os vencimentos e as pensões do mês seguinte, mas o certo que a redução desta almofada de liquidez para estes níveis aumenta a dependência dos mercados e a vulnerabilidade do Estado português, ainda mais quando o programa ELA (Emergency liquidity assistance) do Super Mario Draghi continua a reduzir-se.

Como se fosse pouco, em cima do peso pantagruélico da dívida pública, temos o endividamento da economia, incluindo administrações públicas, empresas e famílias, que em Agosto subiu uma vez mais para 723,2 mil milhões de euros, isto é quase quatro vezes o PIB. Os deuses nos valham porque só com os humanos não vamos lá.

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