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07/08/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (95)

Outras avarias da geringonça.

Parece cada vez mais claro que o aumento de 84% das devoluções de IRS no 1.º semestre de 1,3 para 2,4 mil milhões (mM) resultou de mais um expediente a juntar às cativações, à redução extrema do investimento público e ao perdão fiscal aos evasores, para conseguir o défice milagroso de 2016, a saber: um empréstimo forçado dos contribuintes equivalente a 20% do IRS de 2016.

Por falar nas cativações, no relatório da UTAO podemos encontrar uma interessante tabela (aqui reproduzida) que mostra que os valores finais de cativação em 2016 (943 milhões) foram de longe os mais elevados desde 2009 e mais do dobro da média do governo anterior (396 milhões).

Não se pense, porém, que a engenharia orçamental socialista se esgotou nos citados malabarismos. Vejam-se as instruções que o Ronaldo das Finanças deu «aos serviços para contarem com receitas próprias para pagar um terço do total dos custos com a reposição faseada das progressões nas carreiras». Dirão uns opinion dealers de serviço que é uma excelente medida para esses serviços conterem a sua despesa, esquecendo que na lista das prioridades estão no topo os salários da clientela eleitoral e o que irremediavelmente acontecerá é o agravamento do que está a acontecer: cortam-se as despesas de conservação e manutenção e deixam-se os serviços à beira da paralisia. Exemplo: num centro de saúde onde sou «utente» o sistema com terminais de gestão de filas de espera e chamada dos «utentes» pelos médicos colapsou há meses e foi substituído por aquelas maquinetas de plástico com senhas numeradas e pelos médicos a virem à sala de espera pescar o seu «utente».

E também não se pense que se iniciou a recuperação do investimento público - desde sempre visto como redentor e milagroso graças ao multiplicador. Segundo a UTAO o investimento público continuou a diminuir 6,7% no 1.º semestre quando estava previsto um aumento de 26,6%. Imaginem-se as acusações de destruição do Estado Social, uivos de indignação, as manifs se isso fosse obra do governo «neoliberal». No máximo, terão uns vagos protesto de comunistas e berloquistas tentando limpar a folha dizendo que não foi este o orçamento que aprovaram.

Ainda assim, com toda a parafernália da engenharia orçamental socialista apurada durante o governo socrático não é certo que o défice orçamental seja cumprido. Ver a este respeito dois artigos esclarecedores: «Execução orçamental: está tudo a correr bem, mas CGD pode estragar a ‘pintura’» e «A execução orçamental de Junho: primeiros alertas?»

As sequelas na banca dos anos de euforia socrática continuam a pesar na concessão de crédito: o financiamento às empresas no primeiro semestre voltou a diminuir cerca de 8% de 82 mM para 76 mM. Curiosamente, foi a Caixa, aquele banco do Estado indispensável para financiar a economia, que mais reduziu o financiamento em 18,6%.

Seria evidentemente estúpido minimizar a importância social da redução do desemprego. Outra coisa diferente é deixar governo enfeitar-se com isso quando a sua contribuição para reduzir o desemprego foi 0 porque não havia funcionários públicos no desemprego e a maior contribuição está a ser a das actividades relacionadas com o turismo que, se queremos ser honestos, devemos mais ao Estado Islâmico do que ao Estado Português. Turismo que aumentou em 2016 o número de hóspedes de 11,1% e o número de dormidas de 11,6%.

E outra coisa diferente é também ver a redução do desemprego como se o país estivesse noutra galáxia e o facto é que no final do 1.º semestre na galáxia UE28 Portugal continua a ser o país com o 7.º desemprego mais alto e o 5.º no que respeita ao desemprego jovem e no que respeita à redução do desemprego há 6 países com maiores reduções, a maioria deles com taxas de desemprego mais elevadas e que estão a recuperar o emprego a um ritmo mais alto.

Parece estar numa fase de esvaziamento a bolha das fantasias da melhoria a curto prazo do rating da dívida. Segundo Cristina Casalinho, que com 20 anos de trabalho no BPI é uma mulher com pés na terra, a revisão não deve ter lugar nos próximos 12 meses e dependerá de baixar a dívida e resolver pendências relacionadas com os fundos (Pimco e BlackRock) que enfiaram dinheiro no BES. Casalinho não está sozinha, a JP Morgan lembrou que os sinais de retoma e a redução do desemprego deveriam ser agradecidos às políticas do governo anterior, mas que Portugal continua a ser uma das economias mais vulneráveis - ide lá dizer isso a São Bento e a Belém.

No final de Junho, segundo a DGO, sete organismos públicos tinham um prazo médio de pagamento superior ao máximo legal de 60 dias e num dos casos o prazo médio era de 568 dias. A dívida do SNS à indústria farmacêutica com mais de 90 dias continua a crescer a bom ritmo tendo aumentado 19,3% para 931 milhões nos 6 meses terminados em Junho. O Estado não é uma pessoa confiável e o Estado socialista é altamente desconfiável.

No primeiro semestre, depois de dois anos a descer, voltou a subir ligeiramente o número de reformados da função pública e a pensão média subiu 16%. É uma factura para a CGA pelas pensões e outra para a despesa com salários porque a necessidade deste governo de apascentar a sua clientela eleitoral tenderá a substituir cada reformado por um novo cliente, apesar dos compromissos com a CE que nesta altura não deseja mais sarna para se coçar.

Quanto à dívida pública em contabilidade nacional, segundo o BdP, voltou a subir em Junho. Desde que a geringonça se instalou em São Bento a dívida aumentou de 231,5 para os actuais 249,1 mM ou seja 17,6 mM. E não, não aumentou, como diz a comentadoria do regime, por causa da almofada de tesouraria que apenas aumentou 10,6 mM, o que equivale a dizer que em termos líquidos aumentou 7 mM (5%).

jornal Eco

Para não me alongar demasiado com o tema da dívida pública, remeto para dois artigos recentes do Observador: «Sobre a crise da dívida na Europa» de Pedro Teles, professor da Católica, e «Atenção ao regresso da dívida» da jornalista Helena Garrido que mostram bem como chegámos até aqui, mais o primeiro artigo, e o que nos espera se não mudarmos a trajectória, mais o segundo.

Portugal registou em Junho o segundo maior aumento na UE28 das vendas a retalho de 2,4% contra a média de 0,4%. Acelerou-se em Julho o aumento da venda de veículos para para 12,2%, sendo de 8,3% nos 7 primeiros meses. Onde é que já vimos este caminho?

O barómetro de Primavera da CE mostra, segundo o Expresso, que os portugueses são dos mais pessimistas em relação à evolução da economia e dos mais optimistas em relação à UE. Tradução em linguagem corrente: os portugueses não esperam grande coisa de si próprios (ou, talvez mais exactamente, do governo porque para a maioria dos portugueses a economia resume-se ao Estado e este é administrado pela geringonça) e, pelo contrário, têm grande esperança naqueles tios ricos que moram na Alemanha que substituíram os brasileiros do século XIX.

Ainda assim, nem tudo são motivos preocupantes: o índice mensal de confiança na evolução da economia do ISEG estabilizou em Julho. Não parece uma boa notícia mas é. Significa que ao menos para 16 luminárias da que já foi a única escola de economia e é hoje um parente pobre face à Católica e à Nova os delírios podem estar a esvaziar-se.

Termino esta semana com a tragicomédia em palco na Autoeuropa que está a pôr em risco a produção de um novo veículo que triplicaria a produção e naturalmente traria mais emprego e contribuiria para equilibrar a balança comercial. Perguntarão mas o que tem isto a ver com a geringonça? Tem tudo, porque se trata da luta do sindicato da CGTP na Autoeuropa contra o capitalismo explorador, uma CGTP a quem Costa e os socialistas entregaram o controlo para pagar a paz no parlamento, nas ruas e, claro, nos mídia.

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