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14/01/2017

Mitos (245) - Desfazendo o mito de Louçã de um Trotsky salvífico

Mostrando distraidamente a sua costela trotskista de ex-militante da LCI e da IV Internacional, convenientemente camuflada para construir o frentismo bloquista, o conselheiro Louçã esforçou-se para limpar a folha de Leon Trotsky no seu prefácio à biografia de «Estaline», agora publicada pelo Expresso. José Milhazes no Observador não estava distraído e responde no Observador à pergunta que ele próprio faz: «Seria diferente se Trotski tivesse vencido Estaline na URSS?». Aqui vai um excerto à laia de teaser:

«Francisco Louçã assinala que a biografia de Estaline começa apenas “quando o biografado, já tem 44 anos, está no auge do seu poder, e por isso só cobre os últimos 21 anos da sua vida”, deixando de fora importantes momentos. Estou de acordo, pois isso permitiria também abordar algumas das imprecisões (ou talvez deturpações conscientes) escritas pelo próprio Dr. Louçã.

Muitas delas estão contidas no último parágrafo desse prefácio: “A tragédia do século XX é esta: uma revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração, que se anunciou como a alvorada de uma humanidade cooperante, foi dominada por uma burocracia fechada, temerosa e por isso agressiva, cujo poder se ergueu sobre uma pirâmide de vítimas”.

Ora, como é sabido, a revolução comunista não foi feita contra uma ditadura, mas contra uma democracia pluralista saída da revolução de Fevereiro de 1917. Foi este pluralismo, por exemplo, que permitiu o regresso de Vladimir Lenine e Lev Trotski à Rússia e deixou escapar o poder para as mãos dos bolcheviques. Foi este pluralismo que convocou eleições para a Assembleia Constituinte em 1918, acto eleitoral livre onde os bolcheviques saíram derrotados e, por isso, não a deixaram ir além da primeira sessão. As eleições livres e pluralistas seguintes realizaram-se apenas em 1989, e os comunistas saíram delas fortemente enfraquecidos.»

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