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05/01/2017

ESTADO DE SÍTIO: Habituem-se (6)

Outros Habituem-se

Um artigo do FT com o título «Costa confounds critics as Portuguese economy holds course», que poderia traduzir-se como «Costa mantém a economia a funcionar e confunde os críticos», teve uma inusitada atenção dos mídia e produziu, entre outros, títulos como os seguintes:

Financial Times: Governo de Costa “superou as expectativas”
Costa "confundiu os críticos" e superou as expectativas, avalia o Financial Times
António Costa superou expectativas, diz Financial Times
​Costa supera expectativas do “Financial Times”
Governo de Costa surpreendeu o Financial Times pela positiva
Governo. Financial Times fala em expetativas superadas, mas deixa alertas
Financial Times: Primeiro ano de Governo de Costa “superou expectativas”
Governo de Costa surpreendeu o Financial Times pela positiva
Financial Times: Costa "supera expectativas" no primeiro ano como primeiro-ministro

As avaliações que fazemos na vida e principalmente na política são influenciadas sobretudo pelas expectativas. Como as expectativas em relação à geringonça têm sido razoavelmente modestas e limitada a esperança de vida que lhe têm atribuído, é natural que só a sua sobrevivência seja considerado um feito. Para essas expectativas contribuiu involuntariamente Passos Coelho a anunciar a chegada de um diabo que ainda não chegou e, enquanto houver dinheiro ou crédito para lubrificar a clientela eleitoral da geringonça, não chegará, como não chegou no passado.

E, desta vez, Costa conta não só com a boa imprensa com que o PS costuma contar, como conta com todo o jornalismo de causas afecto a comunistas e bloquistas e, principalmente, com a tropa de choque sindicalista do PCP. Sem esquecer o presidente dos Afectos Marcelo que, enquanto convier aos seus joguinhos, levará Costa e a geringonça ao colo.

Falando no diabo de Passos Coelho, cito Meneses Leitão que escreveu no jornal i o que pode ser considerado um truísmo na política: «se há coisa que um político nunca pode fazer é assumir-se como profeta da desgraça e muito menos prometer o inferno aos seus eleitores. Porque de duas uma: ou o diabo não vem, e o político passa por falso profeta, ou o diabo vem, e o político passa por mensageiro do diabo».

No que me toca, embora considere que as políticas da geringonça são nocivas para o país e a prazo inviáveis, nunca lhe augurei uma vida curta. Três semanas depois da tomada de posse de Costa escrevi o primeiro post desta série de que este é a sexta sequela.

Voltando ao artigo do FT, Peter Wise, o autor do artigo, é demasiado wise para escrever a peça laudatória que os mídia portugueses implicitam, apesar dos esforços para lhe massajar as meninges de Ricardo Paes Mamede, um economista e dirigente do Manifesto 3D (um agrupamento que se propunha recompor a extrema esquerda portuguesa). Leia-se o seguinte excerto (tradução livre):

«O sucesso de Costa nas sondagens e no aumento do consumo privado deve muito à reversão das medidas de austeridade introduzidas durante o programa de ajustamento 2011-2014. Costa tomou a iniciativa rapidamente de restaurar os salários do sector público, as horas de trabalho, os feriados e as pensões do Estado até os níveis anteriores ao resgate. As reformas do mercado de trabalho também foram revertidas.

Schmieding (chief economist da Berenberg) adverte: "Infelizmente, esta é exatamente a maneira errada de atrair investimento estrangeiro suficiente para se aproximar, digamos, das taxas de crescimento do PIB espanhol".

De acordo com a UE e o FMI, o Sr. Costa está a atingir objectivos orçamentais através do congelamento do consumo público intermédio em áreas como a saúde e da redução do investimento público. Os críticos temem que isso esteja minimizando o problema muito grave da dívida pública. "É como se uma família dissesse que gastou apenas 1.000 euros a mais do que ganhou, enquanto viu sua dívida bancária aumentar 5.000 €", disse um académico.»

1 comentário:

Anónimo disse...

É lá mas os juros da dívida pública já ultrapassam os 4%!
O Passos Coelho falou em qualquer coisa pelos Reis...
Será coincidência?