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16/01/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (66)

Outras avarias da geringonça.

Como escrevi a semana passada nesta crónica, o milagre da multiplicação da devolução de rendimentos da geringonça tem-se dado sobretudo nas importações de bens duradouros. No mês de Novembro as importações totais aumentaram 8,4% e, apesar do aumento das exportações, o défice comercial subiu 91 milhões em relação ao mesmo mês do ano passado e ficou em 781 milhões,

Por isso, os bancos privilegiam o financiamento do consumo e da compra de habitação (mais de 5 mil milhões até Novembro para comprar casinhas) e fica para trás o financiamento das empresas que diminuiu, o que de resto seria expectável quando se sabe que o investimento produtivo privado está em queda.

Também o investimento público, que no passado era o alfa e ómega do Estado Socialista, diminui 16,5% em relação a 2015 e está hoje ao nível de 1960 (1,8% do PIB, contra a média de 2,9% da EU28). Assim, o governo socialista, com a sua obsessão pelo défice e a redução do investimento público, é uma espécie de encarnação do diabo neo-liberal - pela metade, já que o peso do Estado e dos utentes da vaca marsupial pública não cessa de aumentar. O mesmo se passa com as «regalias» dos utentes a quem a geringonça se esforça por acarinhar de vários modos,por exemplo aumentando-lhes as férias como é o caso do ensino, onde o ministro de facto da Educação, o chefe da Fenprof, pretende reduzir as aulas e aumentar as férias. Tem toda a lógica visto que o Estado Socialista destina-se a promover prioritariamente o bem-estar dos seus utentes - os funcionários públicos.

Confesso que comecei por não perceber porque prolongou o governo o prazo de entrega das declarações de IRS para 31 de Maio. Até ler a explicação de José Duque no Expresso: «para poderem justificar um atraso nas devoluções garantindo que a tesouraria pública... O mais tarde que puder ser...» Não acredito em bruxas, mas se há bruxarias... 1,3 mil milhões de euros (montante total em 2016) dão muito jeito (a bancarrota é adiada quase uma semana).

Um dos exemplos da imaginativa gestão de tesouraria do governo socialista é o roulement das facturas. Um exemplo: a dívida dos hospitais públicos só às empresas de dispositivos médicos atingiu 300 milhões de euros o ano passado.

A semana passada os yields das OT 10 anos ultrapassaram 4% e a emissão do dia 11 fez-se a uma taxa média superior a 4,2%, a mais alta desde Fevereiro de 2014. Devemos ficar ainda mais pré-ocupados porque o duo Marcelo & Costa garante que isso não é um problema. Como pode ser um problema?  As necessidades líquidas de financiamento em 2017, segundo IGCP, são 12,4 mil milhões e as brutas - que são as que interessem para o acesso aos mercados - ninguém sabe quanto serão (o ano passado ultrapassaram 35 mil milhões),


Estamos assim perante um cenário de agravamento previsível das condições de financiamento em consequência da tendência geral para o aumento das taxas (poderia ser de outro modo quando as taxas do BCE de curto prazo são negativas?) e, sobretudo, consequência do crescente risco de default da dívida portuguesa pendurada no BCE, via o cabide da DBRS, Perante este cenário, o que pretende o governo fazer? É ver o que fez Teixeira dos Santos a partir de 2009 quando os mercados se começaram a fechar à dívida portuguesa: emissões de curto prazo, pois claro. É por isso que o governo da gerigonça se propõe igualmente emitir BT a 6 e 12 meses mais fáceis de colocar e a taxas logicamente mais baixas e ir empurrando a coisa com a barriga para a frente, a grande especialidade dos socialistas em geral e de Costa em particular.

Para terminar esta crónica, refiro brevemente a novela que está substituir a da Caixa, cansados os espectadores e exauridas as audiências. Refiro-me ao Novo Banco que uma vasta coligação de amigos do regime de diversas tendências pretende agora nacionalizar com o argumento que vale muito mais do que o mercado julga que vale. Se nos recordarmos que a nacionalização do BPN não custou nada, segundo o saudoso Teixeira dos Santos, e o nada vai já em 9 mil milhões, só temos de nos lembrar também que o BPN tinha nessa altura uma quota de mercado que é uma pequena fracção da do Novo Banco. Resta-me orar para que, se for nacionalizado, ao menos nomeiem para a administração como presidente o professor Louçâ, e como executivos o doutor João Galamba, a doutora Mariana Mortágua e o doutor João Oliveira.

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