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04/01/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O presidente vai nu

Pode ser como a notícia da morte de Mark Twain, que o próprio classificou de muito exagerada, mas menos de um ano após a ascensão de Marcelo Rebelo de Sousa à presidência, começam a ouvir-se os primeiros desafinanços no coro da comentadoria doméstica de exaltação do Ungido de Belém. E desafinar dos poderes fácticos, sem rede, neste Reino de Pacheco, onde se é atento, venerador e grato, não é para todos e é raro fora da manada. São ainda poucos, usam o humor em vez da verrina, foram publicados nos últimos dias e merecem um excerto cada um.

«O Presidente da República Portuguesa, professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa, nunca me desiludiu. Penso que ele nunca terá desiludido ninguém. Porque Marcelo é quase corno o Natal. Entendamo-nos - o Natal, dizem (mas eu não concordo) é quando um homem quiser e Marcelo é o que um homem quiser!(…)

Temos um Presidente que elogia o que há a elogiar, descreve o que há a descrever, avisa o que há a avisar, previne o que há prevenir e antes de fazer tudo isto assiste ao Concerto de Ano Novo da Orquestra Metropolitana de Lisboa corno Marcelo, ou seja, assinala o Ano Novo corno se deve assinalar. Não lhe tiro o chapéu porque não uso, mas se ele aceitar que o faça rnetaforicamente, desbarreto-me inteiramente. (…)

O discurso de Ano Novo de um Presidente normal tinha urna mensagem. O discurso de Marcelo consegue urna narrativa diferente (corno diriam os pós-modernos) ou conter mensagens para todos os gostos, digo eu.

Face a isto, o que podemos esperar de 2017 - essa parte é com Marques Mendes. Se as sondagens foram más para Passos, vem Rio, se não forem, Rio não vem. De resto, reina a paz. O mundo sorri, a vida sorri e somos felizes. Mas fornos sempre assim. Comemos divinalmente, bebemos dos mais finos néctares, só nos irritamos quando chega a conta

«Um Marcelo para mim, um Marcelo para ti ... e a vida sorri!», Henrique Monteiro no Expresso Diário
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«Chateia-me, desde logo, porque não suporto a conversa ridícula – decalcada do discurso de tomada de posse – de que os portugueses são melhores do que os outros, e de que precisariam apenas de um pouco mais de esforço para se tornarem a Suíça da Península Ibérica. “Quando queremos, nos unimos no fundamental, e trabalhamos com competência, com método e com metas claras – somos os melhores dos melhores”, garante Marcelo, armado em guru da auto-ajuda política. Reparem: não somos apenas “dos melhores entre os melhores”. Não: somos mesmo “os melhores dos melhores”. Ainda bem que o nosso Presidente não é alemão, louro e de olhos azuis, porque senão esta conversa dos “melhores dos melhores” teria um nome, e bastante feio. Em Portugal, felizmente, é só mesmo mais um “toc, toc, toc” irritante e pouco exigente, mera jactância presidencial para entreter os distraídos.

Mas o mais grave da mensagem não foi isso. O mais grave foi o momento em que Marcelo resolveu ser crítico de António Costa a propósito da falta de crescimento. Após os elogios pela forma como conseguiu criar um “clima menos tenso” e “menos negativo”, o Presidente da República sublinhou que em 2017 há que “corrigir o que falhou no ano passado” e “crescer muito mais”. Ora, há que perguntar ao Presidente da República quem foi o senhor que promulgou o Orçamento de Estado em menos de 24 horas. Porque esse senhor, extremamente parecido com Marcelo, colocou o seu visto num documento onde está escrito que o crescimento previsto para 2017 é de 1,5%. Isso não é “crescer muito mais”. Isso é crescer bastante abaixo do que precisamos. Só que – e Marcelo sabe-o bem – é o crescimento possível, visto ter sido necessário pagar ao PCP e ao Bloco o “clima menos tenso” e “menos negativo” que o Presidente tanto aprecia. Estão a ouvir o “toc, toc, toc”, não estão? Tudo isto soa muito mal. É pouco exigente e totalmente contraditório. Mas se o pessoal engole assim, para quê gravar uma nova versão?»

«Os botões de punho de Marcelo Rebelo de Sousa», João Miguel Tavares no Público
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«Mas passada a espuma do momento, o que fica é a necessidade de perguntar o que o chefe do Estado, além de passear pelo país a fazer selfies com tudo e todos, já fez ou está a pensar fazer no sentido de se pensar o país a prazo.

É que uma varinha para fazer crescer a economia ninguém tem, mas o poder de forçar ou tentar forçar entendimentos e pontes em matérias-chave o chefe do Estado mantém intacto.

E há muito por onde pegar.

Marcelo já sentou os responsáveis à mesa exigindo um compromisso sobre o futuro da segurança social? Já conseguiu porventura que se passe da fase do diagnóstico (que tem décadas) de lentidão e ineficácia na nossa justiça para a discussão de soluções e medidas concretas? Já forçou pontes no sentido de garantir a estabilização do sistema financeiro?

Marcelo pede a quem governa que tenha uma visão maior que a de curto prazo. Mas a sua própria ação política parece reduzida a uma selfie permanente, amarrada ao objetivo de ser reeleito e preocupada com o comentário imediato em vez da análise aprofundada.

Acreditem, aquele mergulho é muito mais que um mergulho. É todo um programa.»

«E Marcelo pensa a prazo?», Martim Silva no Expresso Diário

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