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27/05/2013

SERVIÇO PÚBLICO: O princípio do princípio (17)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15) e (16)

O PIB caiu 3,9% em termos homólogos no 1.º trimestre (INE). É uma má notícia? É. A população empregada teve no mesmo período uma redução homóloga de 4,9% (INE). É uma má notícia? É. E as duas más notícias em conjunto são ainda piores? Não necessariamente, porque indiciam que são os postos de trabalho menos produtivos que se estão a perder. E sendo a baixa produtividade o maior handicap de longo prazo da economia portuguesa, alguém conhece algum caso em que a produtividade aumentou mantendo os mesmos postos de trabalho?

E alguém ouviu falar de casos em que a produtividade aumentou sem uma renovação do tecido empresarial? Sendo assim, as notícias anteriores e a notícia de que «entre Janeiro e Abril foram constituídas mais empresas em Portugal do que no mesmo período dos cinco anos anteriores» não serão indicadores positivos? E não será igualmente uma boa notícia o número de inscrições nos centros de emprego, isto é de novos desempregados, estar a diminuir?

A dívida pública ter aumentado 15 pontos percentuais em 2012 é sem dúvida uma má notícia, que só não é tão má porque metade desse aumento, segundo o BdeP, se ficou a dever ao aumento dos juros, por sua vez decorrente do aumento da dívida, e da queda do PIB, por sua vez decorrentes das medidas de contenção da despesa pública e do crédito, por sua vez decorrentes de medidas indispensáveis para a consolidação orçamental e o esvaziamento da bolha de crédito.

Portugal ter caído em 2012 do 25.º para 28.º dos países com mais receitas turísticas não é uma boa notícia. Porém, é muito positivo as receitas turísticas terem aumentado 5,6% para 8,6 mil milhões de euros, acima dos 4% da média mundial.

 O consumo ter vindo a cair nos últimos 2 anos pode parecer só por si uma má notícia. Porém, quando se acrescenta a esta a notícia do aumento para um novo máximo da poupança das famílias e se sabe que não há crescimento sem investimento e não há investimento sem poupança (ou melhor há: com endividamento, receita que aplicámos nas últimas décadas com os resultados conhecidos) a má notícia transforma-se numa boa notícia. E também é uma boa notícia saber que uma parte dessa poupança tem a forma de aplicações para a reforma (os PPR das seguradoras aumentaram mais 50% no 1.º trimestre).

E o que dizer da redução da carga fiscal de 33,2% do PIB em 2011 para 32,2% em 2012, apesar da queda do PIB, isto é em valor menos 3,3 mil milhões do que no ano anterior e menos 1,1 mil milhões do que em 2010?

E, por último, porque estarão os yields da dívida portuguesa, as taxas de juro implicítas, com tendência claramente decrescente?

Fonte: Bloomberg
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Não serão estes sinais, abafados pelo rufar dos tambores das oposições partidárias externas e internas (o baronato e os ressabiados do PSD), ampliados pelos mídia que fazem o papel de câmaras de eco dessas oposições, indícios da resiliência da sociedade resistindo à falta de rumo e de assertividade do governo e ao lunatismo dessas oposições encalhadas no PREC, umas, e, outras, amarradas às políticas que nos trouxeram até aqui?

Esses sinais positivos são menos devido às políticas do governo, e mais apesar dele, das oposições e do jornalismo de causas e da legião de comentadores e luminárias que não foram capazes de antecipar a falência do Estado português e do modelo económico que lhe subjaz, mas não se coibem de continuar a papaguear e a tentar infantilizar os portugueses tratando-os como sofredores, coitadinhos e vítimas do ... liberalismo, imagine-se, como se essa coisa mítica por cá tivesse passado.

Parafraseando o venerando Chefe de Estado e líder da revolta no Conselho da Revolução de Estado, Jorge Sampaio, talvez haja vida para além do Estado.

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