Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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» (António Alçada Baptista)
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10/05/2013

CASE STUDY: Finalmente uma política de «crescimento»

Trata-se da proposta «crescimentista» (via Blasfémias) mais inovadora até agora apresentada para ultrapassar a crise. Esqueçam mais tempo e/ou mais dinheiro, esqueçam o fim da austeridade, esqueçam o ultimato à troika, a Bruxelas e a Berlim. Esqueçam as políticas de crescimento financiadas com dinheiro que não existe. Esqueçam tudo isso.

A ideia é um autêntico ovo de colombo e consiste no seguinte: «o Estado (impõe) temporariamente um regime de despesa privada obrigatória. Nesse regime os titulares de depósitos bancários dispõem, no máximo, de seis meses para gastar uma fracção do saldo na compra de bens e serviços em território nacional. Findo esse prazo, do montante ainda por gastar é transferida para o Tesouro a parte que corresponde à taxa média actual de IVA e de impostos específicos. Na prática, não há qualquer transferência porque não haverá nenhum montante por gastar ao fim de seis meses. Esta é uma solução equilibrada, dado que quanto maior é o saldo, maior é a responsabilidade e a capacidade de relançar a economia. Cada um é livre de comprar o que quiser, desde que seja em território nacional e até ao prazo limite, mas deve saber que a compra de um bem ou serviço importado não aumenta o PIB

Suponha-se que o autor da ideia tenha um depósito bancário com um saldo de 1 mil euros e que o Estado o obrigue a utilizar 80% desse saldo na compra de bens de consumo, o que levará o banco a reembolsar a criatura de 800 euros. E de onde vai o banco buscar esses 800 euros? Ao seu saldo de caixa ou, se este for insuficiente para pagar a todos os depositantes que procurem levantar dinheiro, aos depósitos do banco noutros bancos ou à venda de activos financeiros. O resultado final transformará em consumo a poupança antes disponível no sistema bancário para concessão de crédito para investimento ou … para consumo. Para manter o nível de concessão de crédito, o sistema bancário terá de se endividar ainda mais ao estrangeiro. Como o acesso aos mercados de capitais pela banca portuguesa está muito limitado o que acontecerá será reduzir ainda mais o crédito para investimento, já que o crédito para consumo está moribundo.

Isso foi o caminho que nos trouxe até aqui: aumento do consumo público e privado à custa da redução da poupança e necessariamente do investimento, seguido de aumento da dívida pública e privada para adiar o colapso do esquema de Ponzi. Só que isso foi chão que deu uvas, porque o crédito que vamos obtendo não chega nem para amortizar dívida e pagar juros, e por isso a dívida vem aumentando todos os dias.