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25/02/2011

CASE STUDY: Um imenso Portugal?

Um dragão como herança

O governo passado comprou com dinheiro público gasto sem restrições cada ponto da aprovação recorde nas pesquisas de opinião. A boa vontade dos mais pobres foi obtida principalmente com a distribuição a fundo perdido de 13 bilhões de reais por ano, sem a exigência da contrapartida de aprender a caminhar com as próprias pernas. As classes médias obnubilaram-se com o crédito fano e os prazos para pagar suas compras em até 84 meses, ou sete anos. As empresas não tiveram razões para queixas com a oferta de 170 bilhões de reais em recursos subsidiados oferecidos pelo BNDES. A gastança, como sempre, foi ainda maior em 2010, ano eleitoral quando as despesas do governo federal cresceram 15% acima da inflação, chegando a 700 bilhões de reais.

A presidente Dilma Rousseff foi beneficiada eleitoralmente pelo clima de festa na economia, mas pode alegar que já estava fora do governo quando as decisões mais irresponsáveis foram tomadas.
Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que a festa acabou, e a conta amarga acaba de chegar na forma de bombas inflacionárias de efeito retardado. Janeiro de 2011 registrou o mais alto pico de carestia dos últimos seis anos. Na semana passada, esses petardos começaram a ser desativados. O primeiro passo foi o anúncio do corte de 50 bilhões de reais no orçamento da União - uma tesourada nada trivial que supera em valor tudo o que o governo federal investiu em 2010. Mais ajustes terão de ser feitos no decorrer do ano para reconduzir as finanças públicas aos padrões mínimos de governabilidade que vinham apresentando até 2009.

Os mais óbvios desses ajustes são o aumento da taxa de juros e as medidas restritivas ao crédito, ambos com efeito inibidor da atividade econômica. Os custos para os brasileiros serão amargos, e esse sentimento se revelará nas eventuais pesquisas de aprovação da administração Dilma que vierem a ser feitas. Receber como herança um dragão inflacionário tratado a pão de ló pelo governo precedente é algo que Dilma não pôde escolher. Decidir atacá-lo mesmo ao custo de sua popularidade é elogiável.

[Carta ao Leitor na revista Veja de 16-02]

Será que «esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal»? Por tudo, incluindo as ligações familiares e afectivas ao Brasil, bem gostaria que não. Ainda haverá uma réstia de esperança com a «presidenta» Dilma que faz reuniões com os ministros à 6.ª feira para evitar fins-de-semana prolongados dos songamongas? Pelo menos a mulher não é parecida com o vendedor da automóveis.

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