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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

11/02/2005

DIÁRIO DE BORDO: A inveja e a ambição

Tenho andado a ruminar o seguinte fragmento da muito citada entrevista do historiador Rui Ramos ao Público:
«É que ainda está por saber o que é que os portugueses querem. Até pode ser que quisessem todos o "partido Estado", onde 56 por cento já estão inscritos. [«Isso (não) seria insustentável economicamente no quadro europeu»] «se a maioria da população preferir o empobrecimento às desigualdades sociais que estão inerentes a sistemas mais dinâmicos de crescimento económico. Às vezes a inveja é mais importante do que a ambição como motivação das escolhas, e num sistema democrático temos de admitir essas alternativas distintas e aceitar a escolha da maioria.»
Há fortes razões para suspeitar que o que os portugueses querem para si é muito diferente do que querem os liberais nas suas diferentes encarnações, desde os anarco-libertários até aos liberais pragmático-social-pessimistas como o Impertinências. E as suspeitas, desde sempre confirmadas pelo voto, também são fundadas na observação mesmo superficial das emanações dos usos e costumes, crenças e valores domésticos.

Os portugueses sempre demonstraram que se tiverem que escolher entre inveja e ambição, ou entre colectivismo e individualismo, ou entre o eles (*) e a responsabilidade individual, ou entre o estado e o mercado, ou entre um medíocre emprego para toda a vida e trabalho exigente com risco decentemente pago, ou entre o certo e o incerto, escolhem sem remédio o primeiro termo da alternativa. Circunstâncias económicas e políticas absolutamente irrepetíveis, concederam aos portugueses o acesso, sem esforço, a um nível e um estilo de vida que lhes alimentou a ilusão que era possível continuar a viver assim, a ter sol na eira e chuva no nabal para toda a vida.

[É por isso é que o discurso socialista do estado providência é aceite acriticamente, mesmo quando o eleitorado desconfia da fartura. Ao contrário, o discurso das reformas, do mercado, deixa o eleitor comum à beira dum ataque de nervos. Isso mesmo leva os nossos tímidos reformistas a embrulhar as reformas em eufemismos que lhes tolhem primeiro as ideias e depois as acções.]

Será preciso muito tempo e uma crise muito mais profunda do que a que vivemos para que os eleitores comecem a perceber que as coisas têm que piorar muito mais, antes de talvez começarem a melhorar. E, mesmo percebendo, podem querer continuar a ficar-se pela inveja e pela inscrição no partido do estado. Se assim for, talvez os inconformados devam zarpar para outros mares. Afinal não é isso que os inconformados têm feito desde há cinco séculos?

(*) Eles (socialês)
(1) Os culpados da nossa miséria (dos fascistas aos liberais, passando pelos comunistas e, sempre, os espanhóis, e, em alternância, o governo e a oposição).
(2) Os responsáveis pelo trânsito da miséria para a felicidade (quase todos os referidos).
Antónimos: EU (que não sou parvo e não tenho nada a ver com isso) e NÓS (EU, a minha MÃE, a minha patroa, os putos, os amigos, talvez o clube, e o partido, às vezes).

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